Linear

Uma linha estreita. Um sem fim de passos que já não consigo equilibrar no tracejo fino, no chão sujo, no corpo frio. Você foi uma chegada assustada, um me descobrir em outro alguém. E me descobrir em mim mesma. Foi uma chegada austera, sôfrega, ainda que de repente. Foi adentrando e me fazendo pisar cada vez mais fora da linha. Um risco tão fino que eu me obrigava acreditar que poderia e deveria e, por deus, queria mesmo manter-me na segurança daquele caminhar. Por medo, te digo. Por receio dos meus pés desajeitados e grandes demais não caberem no resto do chão. Por querer enganar-me que ver a linha me faria enxergar todo o caminho. Mas hoje te digo que, por tempos que me equilibrei árdua e cruelmente no rabisco ao chão, não senti a segurança, a rota, o caminho certo. Me senti num equilíbrio vago de um medo que eu não sabia sentir, unido da solidão de não caberem dois corpos numa mesma reta.

E se a coragem que me envolve me faz pisar fora da linha, te admito que em nada perdi a ciência. Meus almejos continuam aqui. Meu futuro incerto continua aqui. Meu medo da dor, do tombo, de perder de vista o rabisco, continua. Mas sinto que é preciso dar espaço para que linhas não tão exatas se encaixem entre meus pés, e que novos pés acompanhem esse caminho.

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Meu telefone mudo repousa na mesa ao lado. Meu corpo sucumbe ao peso da ausência. Meu peito é um caos que me corrói a calma. A alma toda.

Os dias passam e a ferida começa a fechar. Até ser você do outro lado da linha. E mesmo na minha relutância em telefonemas, eu atendo. Sabendo que sua voz rouca me rasga todos os pontos da quase cicatriz. Eu atendo.

Agora me afundo no sofá marrom que já foi bem mais vivo, dum tom mais limpo. Agora me parece um desbotado sujo e solitário. Feito eu. Não sei te dizer adeus. E não sei conviver com essas lacunas de suas chegadas e partidas e ensejos. Te peço, por deus, decide se fica de uma vez.

O telefone que hoje não toca me diz que o fim é um caminho estreito que eu preciso percorrer. Mas quando toca – e esse telefone há de tocar de novo. Uma centena de vezes ainda -, eu percebo que você me consome. Esqueço dos abismos, do medo, da solidão. Esqueço de mim. O seu amor me devora a memória, a lucidez, a aflição. Em carne, corpo e cerne. Me devora.

E se tocasse, meu deus, se esse telefone tocasse agora, antes mesmo da sua voz rouca me roubar as falas, eu pediria pra você decidir se fica ou se não volta mais. Já não há contraste no meu sofá. Meu peito se hibridou ao marrom morto que ocupa minha sala, mas não meus olhos. Decide se fica porque não me cabe mais o medo de não te ouvir ligar.