Todo meu eu berra-te amor

Você rega uma flor esperando apenas que ela cresça e encante a casa com sua beleza. Você rega uma flor dando-lhe amor sem exigir reciprocidade. Então, por deus, por que damos amor esperando receber amor também? Pois agora, pequena, me pego nesse sofá frio, desconfortável, remoendo vontades de você. Me pego com um cigarro que queima entre os dedos e amarga minha garganta. Mas o fumo mesmo assim porque ele me preenche, e qualquer porra é melhor do que sentir o vazio que você me causa. Me pego bebendo uma bebida barata que me arde o estômago, pois qualquer coisa que desvie minha atenção de minha vontade de você é melhor.

Ah, pequena, se soubesse quantas vezes abracei flores despetaladas pra te pedir pra ficar. Se soubesses quantos mal me quer minhas flores me entregaram e ainda assim insisto em regar de amor uma angústia incerta de você me querer também. Porque não podemos dar amor sem essa sufocante necessidade de recebermos o mesmo de volta? Me diz porque agora, entre cigarros acesos e copos vazios, você me pesa a memória, me sufoca o peito. Porque eu te entregaria todas as minhas flores e pétalas e dias sem fim. E, por deus, sinto que posso tomar conta dos seus dias sem amor, suas flores sem perfume, posso costurar os bem-me-quer na sua roseira.

Pois, minha menina, passo noites em claro vendo meu peito se retorcer ao ritmo desse disco velho. Passo dias esperando minha vida despertar por suas ligações. E sequer sei se minha voz transmite meu audível afeto por ti. Pois agora todo meu eu berra-te amor. E, ainda que longe, passo memórias inteiras construindo um jardim mais florido. Rego todas as flores. Ainda esperando que você floresça pra mim. Esperando o amor ser amor em mim de volta.

Anúncios

Seria qualquer coisa só para poder ser em você

O reflexo do espelho me assola, uma solidão que não sei medir. Me cubro de um vazio que era interno, agora transborda. Por deus, pequena, esperei que você viesse e estivesse aqui. Eu esperaria por dias sem fim.

Eu agora deito na cama fria, me afundo no travesseiro gelado. Eu rememoro suas vozes e falas, por deus, seu vazio me consome a alma, o cerne. Sua ausência de me fazer inteira me dilacera a esperança de ser qualquer coisa. E eu seria. Menina, seria qualquer coisa só para poder ser em você. Ser a roupa que te cobre, te toca. Ser seus lenços, seus anéis em seus dedos. Eu poderia ser a solidão dos seus discos, a melancolia do seu dia, contanto que fosse algo em você. Me entenda que te preciso e não sei me ser. E se sei, não quero mais saber, porque te preciso de um jeito que me sufoca, me mata, me estraçalha os encantos da alma. Te preciso como quem necessita de ar. Porque meus passos são frágeis, vagos, tortos longe dos seus. Pois mal caminho, e se caminho me aninho, me escoro, no primeiro refúgio que encontro.

Menina, meu amor devora minhas forças, meu desejo, minha vivência. Devora minha alma, meu passo, meu compasso. Meu amor adentra a carne, por baixo das unhas, se aninha nas veias do coração. Meu amor entope os pulmões, impede a circulação. Meu amor me mata por pesar em meus ombros, pulsos, bolsos. Rasga minhas roupas, come meus sapatos, faz buracos em minhas bolsas. Meu amor me arranca a roupa em público, me despe de outras companhias, me torna um ser deplorável, decomposto, buscando nos braços alheios os enlaços que possam me sustentar, porque eu mesma não me suporto. Não me caibo. Me transbordo.

Pois a sua voz ecoa infinitamente na minha cabeça, minhas mãos insistem em escrever cartas que você não lerá, e a música que toca ainda é aquela que ouvíamos. Meu bem, você seria o calor da cama, a sombra dos domingos, você seria eternamente meu refúgio, minha paz, o repouso de minha cabeça. Mas você preferiu me ser um buraco dolorido, um abismo de solidão. Você me é uma lembrança que me derrota.

Mil pedaços de sentimentos repartidos

E eu que queria ter parado antes antes da dor virar dor. Antes do medo virar medo. Antes de ter parado na frente do espelho e ter me visto coberta de angústia. E queria ter parado antes do sentimento esmaecer meus olhos. Antes das sombras pesarem meus ombros, pulsos, antes de marcarem minha pele, sonhos.

Eu lutei tanto, mesmo que não pareça, eu sei o quanto resisti. E só queria ter parado antes da dor se costurar à minha pele. Antes do medo ser moradia constante. Antes da solidão ser companhia que me berra aos ouvidos. Não, por deus, não que esses sentimentos não existissem antes de eu saber deles. O medo e a dor estavam aqui, presentes, latentes. Mas o sentimento torna-se real quando se faz nomeável e reconhecível em nós. Há tempos eu os adotei, dei-lhes nome e sobrenome. Faço a cama para que deitem-se comigo. Me cubram, me vistam, me comam. Hoje meus anseios são solitários e asfixiantes. Morro de ensejos. E sei o quanto me dói ser a figura fria do reflexo. Ou refletir a figura suja e decomposta que sou. E sou? O que. Quem.

Pra quê? Quem é. Um corpo em mil pedaços de sentimentos repartidos. Hoje meus receios me envolvem as mãos, me comem os dedos, decompõe a pele, adentram os ossos. Hoje meus fantasmas me envolvem o corpo, semicerram os olhos. Meus monstros pintam sussurros nas paredes internas. Meu espelho reflete os sentimentos que não consegui vencer. E agora que se fazem presentes, parecem ainda mais constantes.

O medo não deixa de ser sentido quando não se tem nome. Apenas fica mais reconhecível depois de certa intimidade. Meu medo é diário. É confissão. Permissão: tenho medo de ser quem sou. E me permito, me omito. Hoje o medo comeu meu reflexo também. Sobrou a dor. Ela eu não temo mais.

Resultar

A verdade é que deveria constar nos autos por aí “Quando dois não querem, um não se apaixona”. Deveria mesmo. Porque eu deveria ter deixado esse dar afeto quietinho, adormecido num canto do meu peito. Eu deveria ter te deixado passar, assim como tantos outros que me passaram sem me fazer ventania. Não que eu te culpe, afinal o desejo é um corpo abraçando dois serem opostos. Mas o problema reside aí: quando só um lado quer, só um lado se deixa abraçar e o outro afrouxa o laço. Pois o certo seria continuar sorrindo mesmo que você não tenha calçado meus sapatos, mesmo que você não tenha se coberto com minha blusa. O certo, por deus, era não te fazer moradia enquanto você se desfazia de meus enlaços. Mas sei, bem sei, que isso de… de quê? De bem querer? De desejar um outro alguém é uma conta vaga que, por grande maioria, nunca chega num resultado favorável.

Bom seria se os dois corpos amassem, dividissem a casa, somassem os risos, somassem os passos. Bom seria se as almas se incorporassem, os corpos se lambessem. Mesmo que depois acabasse e viesse a dor, seria bom se os dois sofressem. Mas geralmente é uma conta injusta. Um conta que dói de um lado só, sangra, chora, sofre uma dor solitária. O outro não sente, não vê, não calcula.

E você que não me adentrou a alma mas ficou registrado em anseios e devaneios. Ficou aludido no cerne. Você foi registro de um desejo que quis mas não me quis de volta. Um querer que acaba, como outras vezes, somando um afeto sem resultado.

Aos cafés esquecidos e amores requentados

Entre as xícaras meio vazias de seus cafés frios, vou me perdendo entre essas linhas que mal sei dizer. Agora, pequena, essa carta repousa no canto da sua mesa ou no braço do sofá, isso pouco importa. Agora arrumei as malas, fechei as janelas. Me despedi dos receios e das vontades. Tranquei as portas e te deixei dormindo, num sono dócil, num quase despertar pelo ranger do piso ao meu caminhar. Te deixei embalada num sono que, de tão aconchegante, quase desisti de desistir de nós e me escorar entre seus braços e sonhos.

Sabe, pequena, ensinam que devemos nos prender em braços e abraços que possam nos acalentar. Ensinam que a gente deve amar e que rir das mensagens de bom dia é a paz no corpo de outro. Dizem que busca-se o amor e o dar amor. Mas me apeguei a isso esquecendo do essencial: voltar-me amar.

Eu fui aceitando suas quase chegadas e quase estadias só porque me senti segura em esperar um pouco mais por você. Eu fui rindo de seus mau humores, fui me aconchegando em seus abraços, me entrelaçando em seus encantos. Então eu aceitei abrir mão de um sem fim de coisa que juguei querer numa relação. Abri mão de te ter em corpo e alma. Mais alma do que corpo. Aceitei que eu poderia lidar com suas partidas repentinas e que seus silêncios não me feriam à cor de sangue. Mas feriam. Ferem, porra. Esperei incontáveis vezes até o café esfriar só pra ter a certeza de que hoje eu não teria nós. Aceitei um sem fim de forjáveis atos de amar só porque acreditei em seus olhos, me reconfortei em sua cintura, bordei meu riso em sua tez. Só porque o tilintar meu parecia tão ritmado ao seu. Mas eu toquei uma melodia inteira sozinha. Bordei minhas expectativas e agora o café frio derrama das xícaras.

Eu esperei que você veria que há paz, há acalanto, há amor aqui. Porra, eu tropecei em angústias e receios e me fiz crer que você entenderia. Mas não. E não te culpo ou te desejo mal. O coração é cruel. Digo que parei de aceitar abrir mão de minhas seguranças porque os desejos de quem dou afeto não encaixaram com os meus. Cansei de aceitar as ausências constantes, desejos banais, cansei de dar-me inteira e receber apenas o que não me serve.

Hoje, menina, parto carregando nas malas apenas o desejo de me fazer inteira. Em mim mesma. Nem sonho alto de ser esse emaranhado todo em outro alguém. Desejo, então, um corpo que me venha sem afeto. Ou um afeto que me venha de corpo, alma, vísceras e essência. Menos que isso, eu me contenho em meu abraço, me faço solidão.

Se acordar logo, seu café ainda esfria na cozinha.