Aos cafés esquecidos e amores requentados

Entre as xícaras meio vazias de seus cafés frios, vou me perdendo entre essas linhas que mal sei dizer. Agora, pequena, essa carta repousa no canto da sua mesa ou no braço do sofá, isso pouco importa. Agora arrumei as malas, fechei as janelas. Me despedi dos receios e das vontades. Tranquei as portas e te deixei dormindo, num sono dócil, num quase despertar pelo ranger do piso ao meu caminhar. Te deixei embalada num sono que, de tão aconchegante, quase desisti de desistir de nós e me escorar entre seus braços e sonhos.

Sabe, pequena, ensinam que devemos nos prender em braços e abraços que possam nos acalentar. Ensinam que a gente deve amar e que rir das mensagens de bom dia é a paz no corpo de outro. Dizem que busca-se o amor e o dar amor. Mas me apeguei a isso esquecendo do essencial: voltar-me amar.

Eu fui aceitando suas quase chegadas e quase estadias só porque me senti segura em esperar um pouco mais por você. Eu fui rindo de seus mau humores, fui me aconchegando em seus abraços, me entrelaçando em seus encantos. Então eu aceitei abrir mão de um sem fim de coisa que juguei querer numa relação. Abri mão de te ter em corpo e alma. Mais alma do que corpo. Aceitei que eu poderia lidar com suas partidas repentinas e que seus silêncios não me feriam à cor de sangue. Mas feriam. Ferem, porra. Esperei incontáveis vezes até o café esfriar só pra ter a certeza de que hoje eu não teria nós. Aceitei um sem fim de forjáveis atos de amar só porque acreditei em seus olhos, me reconfortei em sua cintura, bordei meu riso em sua tez. Só porque o tilintar meu parecia tão ritmado ao seu. Mas eu toquei uma melodia inteira sozinha. Bordei minhas expectativas e agora o café frio derrama das xícaras.

Eu esperei que você veria que há paz, há acalanto, há amor aqui. Porra, eu tropecei em angústias e receios e me fiz crer que você entenderia. Mas não. E não te culpo ou te desejo mal. O coração é cruel. Digo que parei de aceitar abrir mão de minhas seguranças porque os desejos de quem dou afeto não encaixaram com os meus. Cansei de aceitar as ausências constantes, desejos banais, cansei de dar-me inteira e receber apenas o que não me serve.

Hoje, menina, parto carregando nas malas apenas o desejo de me fazer inteira. Em mim mesma. Nem sonho alto de ser esse emaranhado todo em outro alguém. Desejo, então, um corpo que me venha sem afeto. Ou um afeto que me venha de corpo, alma, vísceras e essência. Menos que isso, eu me contenho em meu abraço, me faço solidão.

Se acordar logo, seu café ainda esfria na cozinha.

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