Seria qualquer coisa só para poder ser em você

O reflexo do espelho me assola, uma solidão que não sei medir. Me cubro de um vazio que era interno, agora transborda. Por deus, pequena, esperei que você viesse e estivesse aqui. Eu esperaria por dias sem fim.

Eu agora deito na cama fria, me afundo no travesseiro gelado. Eu rememoro suas vozes e falas, por deus, seu vazio me consome a alma, o cerne. Sua ausência de me fazer inteira me dilacera a esperança de ser qualquer coisa. E eu seria. Menina, seria qualquer coisa só para poder ser em você. Ser a roupa que te cobre, te toca. Ser seus lenços, seus anéis em seus dedos. Eu poderia ser a solidão dos seus discos, a melancolia do seu dia, contanto que fosse algo em você. Me entenda que te preciso e não sei me ser. E se sei, não quero mais saber, porque te preciso de um jeito que me sufoca, me mata, me estraçalha os encantos da alma. Te preciso como quem necessita de ar. Porque meus passos são frágeis, vagos, tortos longe dos seus. Pois mal caminho, e se caminho me aninho, me escoro, no primeiro refúgio que encontro.

Menina, meu amor devora minhas forças, meu desejo, minha vivência. Devora minha alma, meu passo, meu compasso. Meu amor adentra a carne, por baixo das unhas, se aninha nas veias do coração. Meu amor entope os pulmões, impede a circulação. Meu amor me mata por pesar em meus ombros, pulsos, bolsos. Rasga minhas roupas, come meus sapatos, faz buracos em minhas bolsas. Meu amor me arranca a roupa em público, me despe de outras companhias, me torna um ser deplorável, decomposto, buscando nos braços alheios os enlaços que possam me sustentar, porque eu mesma não me suporto. Não me caibo. Me transbordo.

Pois a sua voz ecoa infinitamente na minha cabeça, minhas mãos insistem em escrever cartas que você não lerá, e a música que toca ainda é aquela que ouvíamos. Meu bem, você seria o calor da cama, a sombra dos domingos, você seria eternamente meu refúgio, minha paz, o repouso de minha cabeça. Mas você preferiu me ser um buraco dolorido, um abismo de solidão. Você me é uma lembrança que me derrota.

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