Por fim, amo-te

Inicio minha ausência de hoje dizendo já que te amo. Te amo em suas falhas, falta pecados. Te amo em ausências, mas ainda em sua presenças.  Amo em minhas preguiça de te ver. Mas, sobretudo, na euforia de sua chegada.

Te amo nos seus dedos cuidadosos, seus passos calmos. Te amo pelo pecado, calmaria, desassossego. Te amo pois te amei desde o minuto inicial que me sorriu. E mesmo quando o brilho afetivo da paixão acabou, e enfim o desejo te descobriu, eu te amei por quem você realmente é.

Eu, agora escrevo, confesso, te amo de um jeito meio tolo que ainda não sei amar. Um jeito inocente de doar-me e aceitar-te inteiro, mesmo em pedaços que, por deus, me bastam de um modo incompreensível. E não há de se compreender. O amor é uma forma egoísta de deixar o outro partir. Pois te deixo ir. Sempre. E te recebo novamente. E de novo. E de novo. Num eterno partir e nunca despedir-se. Pois você não me abandona. E eu não te possuo. Nos completamos num afeto sórdido. Sim, pois amo-te sem te ter. E você me ama se me invadir.

Mentira. Me invade. Seu amor me dilacera. Me consome. Me maltrata. E me afaga. Me traz o fulgor da paixão recíproca. E quando choro por não te enlaçar o afeto único, me vens tua paixão com toda a necessidade de mim. E te amo cada vez mais. Mais fundo. Mais denso. Por quem me é. Por quem me faz ser. E sou esse eu mais estonteante por encontrar um amor que me assegura o afeto, mesmo sem me cercar. Me mostra a liberdade de amar sem possuir, ainda que me reste a dor de não consumir o desejo de posse. Te possuo apenas, e tão apenas, por te amar. E te amo.

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O medo tocou a ponta de cada dedo meu,me entrelaçou os pulsos e subiu pelos meus braços. O quarto escuro fez tudo parecer mais sufocante, mas a luz me trazia uma visão que eu não queria. Viver anda assustador. Os ruídos dentro de mim revelam uma solidão, uma preguiça de mim que não me suporto. E divide comigo, em mim, me corroendo, o silêncio. Paradoxo aos barulhos de mim, o silêncio que me habita, me dilacera, me fere, me agoniza. O vazio dos sussurros, a companhia falha, o riso que não forço mais.Todos os meus sonos tem sido dias sem fim.

O amor caiu ao chão sete vezes

Agora tomo dois, três ou uma cartela dos meus anti depressivos. Me afogo num copo de bebida barata e me afundo na banheira morna. Meu corpo relaxa e se contorce. Meu peito está destroçado e meu amor caiu ao chão sete vezes.

Meu banheiro cheira a cigarro, vinho e blues solitário. Minhas roupas cheiram a saudades suas. Suor seu. Teu corpo no meu. Meu asco é pela ausência tua que me corrói. Meu desalento é pelo afeto teu que me traga e me incinera como eu trago esse cigarro. Entre meus dedos, aceso. Eu, entre suas mãos, desejo.

Mas a solidão é do meu peito pra dentro. Da minha boa seca, do meu espaço oco. A ausência é de afeto seu. Pois você repousa em minha cama, repousa em meus cafés, drinks baratos e cigarros esquecidos. Você dorme no sofá, me come no chão, me despe na cozinha. Você me invade de manhã, nas tardes de sol e nas noites pós bebedeira. Você só não fica nos dias de ressaca. Você não me busca a toalha e por isso eu saio pingando dos banhos. Você dorme e fode na minha cama, mas não adentra a casa. Não me faz moradia, porra. Você come o café da manhã e me devora o querer, mas não me recebe em afeto.

E eu, entre afundar na banheira morna, tragar o cigarro amargo e te ver partir, te desejo mais. Mais quente. Mais perto. Te desejo mais fundo, mais dentro. Dentro de mim, em corpo e alma. Mas aceito. Frustrada e tola. Aceito essa porra que acredito ser melhor do que nada. Aceito te ter em metades, pedaços e reticências. Te aceito abrindo as portas e voltando quando quer. Porque te deixar partir é te amar. Te deixar voltar é desejar mais do que a mim. E, por fim, te ver voltar é compartilhar a solidão, o corpo, o desejo. Ainda que sem afeto. Sem amor.