Dar-me afeto

Eu já não me caibo mais. Não me sirvo. Agora, menina, eu me visto de ti. De novo, nesse pecado já conhecido. Erro novamente ao me fazer moradia de expectativas, me transbordo de quereres e me esquecer. Me dispo de mim, meus anseios, desejos, meu eu todo. Me bordo e transbordo de uma vontade sôfrega de ti.

Sei, por deus, sei os passos falsos que recomeço a traçar. Mas nunca me preencho e me basto e me satisfaço de mim. Preciso me afogar de outro alguém para que, quem saiba, eu possa ser alguma coisa qualquer, um eu qualquer. Pois não me sirvo, não me basto. Preciso, menina minha, me anular em corpo e alma, vísceras e coração, pra ser mais presente em mim. Então sou me bordando de outros seres, pequenos prazeres, vontade alheias, vou me fazendo em verdade tudo que você ama. Assim, e só assim, talvez eu me ame um pouco. Quase que num suplício: me transborda, me invada, me faz moradia de corpo e alma. Me seja um pouco mais presente. Assim, e só assim, posso arriscar-me o afeto. Posso me permitir a audácia de me querer como quero outro alguém, ainda que isso não seja possível. Me permito afeto por ser amante de um outro ser. Útil. Vou me amando enquanto houver amor alheio.

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sete tipos de amor que já não me cabem

Meu espelho sujo reflete um corpo fatigado. Uma essência escorrida de mim sujou o chão, manchou os móveis, esburacou meu peito. Meus olhos vermelhos cor de saudade. Meus choros contidos ocupam um espaço que antes carregava amor. Pedaços seus dentro de mim, memórias, histórias, a porra do seu perfume na minha roupa. Agora é vazio. É saudade. É um buraco imenso que não se ocupa, não se preenche. Todo o meu eu berra por retornos seus.

Passo os dias me enchendo de cafés amargos, cigarros já fumados, roupas suas esquecidas. Passo os dias me apegando ao que restou de ti, mas a verdade é que não sobrou porra nenhuma. Nada nessa casa ainda carrega a sua memória. Mentira. Eu carrego. Eu sou tudo o que sobrou de você aqui. Eu sou sua memória, sou a lembrança do teu perfume, o contorno da tua roupa, o tilintar do seu gracejo. Sou teu caminhar pela casa, sua pele fria, seu lamento em dias cinzas. Sou o pedaço que você não amou, não guardou, sou a parte de nós que você não viveu.

Por deus, sempre fui a parte de nós que não existiu. Fui a lembrança dos dias calmos, das noites quentes, do filme mudo. Fui o amor sôfrego, o pecado íntimo, a austera paixão solitária. Fui quem amou. Amei por mim e por ti. Por nós. Fui quem resolveu matar o amor também. Por só em quem ele nasceu haverá de ser esquecido.

Mas, por fim, esse espelho manchado reflete sete tipos de amor que já não me cabem. Ou mais. Pois amei cada tracejo seu e agora me restam lembranças amargas que já te fui parte do passado. Me restam amargas reticências que sou a parte do nós que não coube mais no vazio meu e teu.

um pedaço morto entranhado em ti

Te escrevo cartas de despedida. De amor pungente. De partidas minhas.

Te escrevo cartas onde toda minha essência é sentida. Minhas malas estão prontas e minhas despedidas são frequentes. Pois, em minhas linhas, posso preencher-me de lúcidos acontecimentos que, por deus, almejo. Pois – te confesso em fraqueza absoluta – não sei ou não posso, ou não sei querer, partir. Sou um pedaço morto entranhado em ti. Sou um corpo ferido que suplica pela liberdade, assim como em versos meus.

Como, menina, nunca percebeu que todas as minhas melodias são despedidas que não sei dar. Um partir que tanto desejo e que morre em mim, afogado pela covardia minha? Como não nota que meus bilhetes são modos de dizer pra que me abandones, me deixes, pois não saberei romper-me em desassossego e partir. Ainda que eu morra a cada dia que resisto e fico aqui. Ainda que me asfixie a presença minha em ti. E, ainda, que a presença tua me cause ojeriza, repúdio, um morrer em mim por nunca saber quem de fato sou, eu fico. Fico pois minhas partidas são escritas, meu humor é desvincilhado em linhas e mais linhas.

Escrevo o que me falta, me acomete e não me invade. Escrevo sobre amores e partidas, afetos e um eterno adeus que nunca, por deus, nunca sei dar. Mas hoje, pequena, hoje quero falar sobre o que de fato me invade.

Quero essas linhas borradas com minha angústia, meu algoz poético. Quero uma caligrafia de despejo, de palavras cuspidas, lacrimejadas, despejadas de mim. Pois há tanto não me confesso, não me permito, não me sinto. Porra, menina. Há tanto não sei mais sentir.

Fui inventando esse meu eu, fui me iludindo de sobrevivência. E hoje não me cabe mais ser essa repetição de.. de quê? De nada, porra. Pois não me cabe mais ser. O que sou morre dilacerado pelo que faço.

Pois, hoje, não te falo de amor. Já não te amo mais. Hoje não te falo de despedidas. Já não acredito em minhas mentiras. Hoje, ainda, não te falo de cafés e bebidas e cigarros, pois a beleza literária disso tudo morreu em minhas últimas lágrimas. Hoje, quem sabe, te falo que me emudeci, me calei, ausentei, anulei. Me tornei um rascunho de mim mesma. Me acostumei a tolerar uma vida toda escrita e pronta pra ser interpretada e vivida. Mas nunca por mim. Minha vida num roteiro que não testei, não ensaiei. Meus desejos mortos em linhas sem rima. Sem cor. Sem.

Só pra te lembrar, pequena, hoje não te escrevo sobre flores. Nem hei de escrever. Hoje a dor não virou poesia.

jurei que afogaria as reticências da sua incólume presença

Adormeci no sofá. Sofá este que foi repouso de seu corpo. Tecido que sustentou dedos e toques seus. Almofadas que ainda carregam seu perfume, sua essência. Dormi no sofá como quem dorme ao lado teu. Ainda que sem estar. Fechei os olhos com o amargo do café ainda na boca. Boca minha que beijara a tua e hoje – ah, hoje! – apenas saboreia a angústia da saudade. Ao fundo, alguma música rouca, leve, bossa nova. Uma porra de cigarro infestando a casa de… de… de um cheiro que me lembra você.

Mas não é. Não é o cigarro. O café. O sofá. Não são as roupas pelo chão. A janela entreaberta. Não é sua louça esquecida, suas toalhas dobradas, nem a porra dos seus vinis melancólicos. Não é nada disso que me mata. É a porra da sua ausência. O seu gosto amargando em mim. Sua falta que trepida em meus pulsos e me ausenta os ensejos. É todo o seu corpo que faz falta no meu.

A janela que não range. A batida do meu coração que não desassossega. Mas que caralho, jurei apagar os cigarros e limpar os cinzeiros. Jurei que em suas partidas limparia a casa, levaria o lixo pra fora. Jurei, por deus, jurei que afogaria as reticências da sua incólume presença. Pois se sua presença causa asfixia, sua ausência me mata, me dilacera, me destroça.

Mas teu corpo quente demais, junto aos teus pecados sórdidos me desafiam os famintos encantos de te ter. Ainda que não podendo. Ainda que não querendo. Te quero como quem abraça uma faísca. Te venero como quem sabe a dor que lhe espera. E a desilusão. Pois não se enlaça com um faísca. Ela, pobre ascensão, logo morre. E eu te quero ainda que breve. Rápido. Cântico.

E me repouso em sofás e cafés. Me debruço em armadilhas chorosas só pra, quem sabe, te sentir. Seu perfume mais limpo. Seu pecado mais denso. Sentir em mim o todo que você não pode ou não sabe me dar.

Os amores escorrem pelos ombros, pingam ao chão

Você me lê com os olhos semicerrados, com o coração apertado. Você, pobre menina, me lê com a dor de quem acha que morro de amores incuráveis.

Ah, se soubesse, pequena. Amo, amo sim. Demais. De um modo que me dilacera, me acusa de ter espaços demais. Mas me sustento desse afeto. E quando me vê crua, firme, nula na rua, e quando me ri e eu te rio e quando o amor não transborda de minhas palavras faladas, ainda acha que sou um ser atordoado pelo amar sem fim?

Pois não, minha pequena. Escrevo linhas e linhas e cartas e um sem fim de páginas para viver isso que me brota por dentro mas não se consuma em meus dias frios. E você me lê e sofre e aperta a mão contra o peito, num gesto de dividir a dor comigo. Você compartilha desses afetos nulos, mudos, internos e particulares. Você se encaixa no meu inferno afetuoso. Você, minha menina, me empresta suas dores, me borda de seus sentimentos, você protagoniza meus amores como uma boa representação de quem sou. Pois os amores são todos sofríveis, árduos, sórdidos. Os amores pesam os bolsos, apertam os pulsos, ferem os dedos. Os amores escorrem pelos ombros, pingam ao chão. Os amores viram resquícios em caixas, gavetas e armários. Viram manchas em paredes brancas, em roupas limpas, em pecados íntimos. Os amores desassossegam a alma e lotam memórias.

Então, minha pequena, você me lê e acha que o amor me atordoa num sem fim de dias e horas e dores. Então você até se remói de aflição por mim, sendo que o amor é esse incômodo tamborilar. Mas ele atordoa. A mim e a ti. A todos que tem a ousadia e o afago de amar. A quem se corrompe de afeto em palavras e linhas. A quem engole-o no decorrer dos dias. A quem lê cartas e poemas amantes e acha que os dias correm em eterna angústia.

Mas veja, menina minha, o meu amor sequer te enlaça os dedos e você se dilacera em meus afetos mudos. O amor desarma os mais roto dos corpos decompostos. Ainda assim vive-se para amar e doer-se pelo desejo que não nos toca.

As janelas mais vivas. Os cafés mais quentes

Você me ressoa como uma dor pungente.

E eu me recosto na beirada da janela esperando seus retornos. Contornos. Entornos. Ao fundo, uma música que me aperta o peito. Pois me lembra sua voz rouca. E seu café amargo repousa na mesa. E seu perfume impregnado em cada conto da casa, da alma, me remete às suas ausências.

E me fere. Uma dor que me atinge como uma lança cega. Me corta o peito. Invade a alma. Meu amor escorre pois não me cabe. E, menina, tenho tanto medo. Tanta dor de ti.

Me aflige o desassossego de te ter em mãos e não saber segurar. Me agoniza a ideia de te perder e desmoronar em mim. Numa solidão frágil e inacabável. A solidão do seu afeto me consome, me corrói.

E me escoro em janelas e cantos seguros que me protegem de minhas angústias. Tomo cafés e acendo cigarros que sequer fumo. Me ocupo de banalidades para que, quem sabe, eu me ensurdeça para minhas aflições.

Pois, te confesso, tenho receio de me ser inteira e acabar por te ser presente demais. Espaçosa demais. Mas tenho medo de ser cautelosa e acabar por me ser ausência em ti. Pois te tenho afeto de um modo que me rompe o que sou, o que quero ser, o que preciso ser. E tudo se mistura num não saber mais quem ser.

Mas te quero em verdade, Em presença. Em um querer-te tão profundo que me anulo em suas ausências. Como um filme que baixa o som, a luz, o ritmo ao não ter plateia. Como se sua presença me fosse de valência vívida. E é. Porra, e é. As janelas mais vivas. Os cafés mais quentes. As músicas mais sonoras.

Seu perfume costurado nas paredes e sua feição bordada em minhas vísceras. A casa ressoa em seu timbre. Eu me tilinto em pecados seus. Me escoro em janelas desbotadas do jeito mais sórdido que há: na espera do retorno de suas tonalidades.

Me desmancho por um doar-me, doer-me

A música que ressoa é um ruído oco. Talvez eu tenha deixado as melodias todas em seus bolsos. A voz rouca que me invade não é a sua e isso me aflige. Por deus, seus verões não me aquecem mais, e nenhum timbre seu me afaga a alma.

Mas não pense que não vou me recompor. Menina, meu café amargo que agora repousa diante desta carta é a prova de como me dilacera te escrever, nos caligrafar nesse papel imenso e vazio e amargurado e pesado. E que ninguém me dispenda compaixão. Te tenho nas mãos e assim não me basto. Porque, por deus, queria tanto não ser a que sempre ama além do possível. Queria não me consumir nesse amor por ti.

O café que esfria, o cigarro que queima, o mundo que me cerca e você que não me devora em afeto. Menina, me consumo de amor. Me desmancho por um doar-me, doer-me, morrer por ti. E morro. Mesmo aqui, mesmo em recíproco afeto, amo demais.

Teus olhos fechados, teus sonhos calados, teus dedos distantes. Minha ânsia por fugir do que me rouba de mim e minha necessidade de te ter cada vez mais fundo, mais perto da alma, do cerne. Te consumo em doses que não me sufocam, mas não me sossegam. Te consumo no sustentável, no aceitável, no que não te fere, mas me corrói a alma.

Suas distâncias me pesam os bolsos, pulsos e, menina doce, me desassossega o mundo. Te bordo em minhas paredes, retratos, te contorno em meus toques, te teço em minhas entranhas. Te amo de um jeito que me sufoca e te preciso num modo desesperado. Amo numa urgência de me fazer amar. Amo numa intensidade que me assusta, pois não sei amar. E ainda assim, amo.

Quem me dera os cigarros fossem pontas de afeto. Entre meus dedos os toques carinhosos de um vício que eu consumo. Quem me dera não fosse eu a sempre tragar a carteira inteira. Transbordar os cinzeiros de amor.

Onde estiver, desejo que ame. Desejo com todo o fervor de uma sanidade particular, que ame estar.

Desejo, de corpo, alma e vísceras, que nada seja mais rompante, mais profundo e mais inerte do que o amor. Quando estiver ao lado de um sorriso doce, que o doce seja encanto de afeto. E que na chuva ou no sol, nas tardes de domingo ou no fervor de uma estrada sem fim, seja amar o melhor motivo.

Que os dedos se enlacem, os olhos se fechem, que haja brisa, foto, preguiça. Mas que seja tudo coberto pelo amor de estar. Estar em companhia. Ou estar só. Mas que haja amor sem fim para manter-se e, quando preciso, arrumar as malas.

Desejo, ainda, que haja paixão, desejo, raiva. E que tudo seja a melhor sensação, porque o amor somente, e tão somente, incendeia cada sentimento. E aflora. E emudece. E descompassa. Mas que, enfim, se ame. Haja amor. Haja amor. Há amor.