Dar-me afeto

Eu já não me caibo mais. Não me sirvo. Agora, menina, eu me visto de ti. De novo, nesse pecado já conhecido. Erro novamente ao me fazer moradia de expectativas, me transbordo de quereres e me esquecer. Me dispo de mim, meus anseios, desejos, meu eu todo. Me bordo e transbordo de uma vontade sôfrega de ti.

Sei, por deus, sei os passos falsos que recomeço a traçar. Mas nunca me preencho e me basto e me satisfaço de mim. Preciso me afogar de outro alguém para que, quem saiba, eu possa ser alguma coisa qualquer, um eu qualquer. Pois não me sirvo, não me basto. Preciso, menina minha, me anular em corpo e alma, vísceras e coração, pra ser mais presente em mim. Então sou me bordando de outros seres, pequenos prazeres, vontade alheias, vou me fazendo em verdade tudo que você ama. Assim, e só assim, talvez eu me ame um pouco. Quase que num suplício: me transborda, me invada, me faz moradia de corpo e alma. Me seja um pouco mais presente. Assim, e só assim, posso arriscar-me o afeto. Posso me permitir a audácia de me querer como quero outro alguém, ainda que isso não seja possível. Me permito afeto por ser amante de um outro ser. Útil. Vou me amando enquanto houver amor alheio.

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