Mas te digo que me é tão complexo apresentar-me real, nua em minha vida, em minha rotina para alguém. Digo ainda que fujo e me escondo das pessoas mais do que apenas uma antipatia descomunal por gente, mas pela dificuldade de que apresentar-me caótica e verdadeira a alguém. Então, te peço, agora que invadiu, adentrou e vivenciou esse eu sórdido que sou, não cause um abismo em mim. Não se pode invadir os outros e parti-lhes como alguém que nunca esteve presente.

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Sem ecos insonsos de ti

Sua blusa branca ficou entre as coisas minhas. Sabe, dia desses, revirando minhas roupas, encontrei ela. Destonando entre minhas peças não tão brancas. Você a esqueceu aqui assim como esqueceu algumas memórias suas, esqueceu um eu todinho teu.

Não sei há quanto tempo sua blusa ocupa desapercebidamente essa casa. Mas me deu um alivio danado de tocar os dedos num tecido bordado de lembranças e vidas e amores por ti, e não sentir mais a ausência tua berrar, pesar em meus pulsos. Não, não pense que o amor se esvai e já não me restam memórias ou afetos. Por deus, nada disso. Mas queria que você soubesse que a sua ausência já não eco pela casa.

Nos primeiros dias a sua não presença me ocupou todos os cômodos. Arranhou as paredes. Caminhou pela sala e não me deixou dormir. Nos primeiros dias o telefone era mudo e minha saudade era ensurdecedora. Logo no início eu senti sua falta e implorei a presença tua como quem morre de asfixia. Ferida por um desafeto à cor de sangue.

Menina, minha leveza se deu quando, ao tocar aquela peça branca, tão mais branca em minhas lembranças, me percebi leve. Por deus, leve! Arrisco ainda a dizer que se lembrar dela, se quiser buscar, te devolvo. Com paz, com calmaria, te devolvo como quem devolve uma peça qualquer. Ainda que há tempo ela tenha sido despejo de afeto, epitáfio de memórias, despejo do teu perfume, da tua essência. Mas se nem se lembra dela, digo aliviada que não faço dela moradia de afetos passados. Hoje, só o que é: uma blusa branca.

Suas memórias, minha pequena, eu resguardo do lado bom do peito. Sem ecos insonsos de ti. Sem necessidade de te berrar minhas saudades. Sem angústia amante de te trazer de volta. Quase como se, ao me deparar com sua blusa, eu me afrontasse com a certeza de que você esteve aqui – em mim, na casa -, morou, marcou e desenhou um pedaço seu em mim, mas virou história de boas lembranças. Já não me dói virar as páginas, dobrar as roupas. Já não me dói.

Meus amores são demasiados fatigantes Meus amores me consomem, me exaurem. A vontade de ir e de permanecer estão em luta constante a ponto de me roubarem o sono, a paz, a calmaria. Amo tanto algo ou alguém que não sou capaz de amar nada mais, sequer eu mesma. Nao consigo dividir o afeto, e este me consome. Escorre em cada dedo meu, mancha minha pele, asfixia meu ser. Estabeleço uma complexa relação onde amo exaustivamente a ponto de odiar o meu afeto. Odeio pelo roubo da paz, odeio pelo caos que me causa. Trepido em choros angustiados e proclamo ojeriza ao meu afeto apenas por não saber amar. Ou, se sei, não me deixar amar sem a culpa de ser alguém que, por dom ou desgraça, sabe apenas exaurir-se em paixão, sem tempo ou espaço de vivê-la.

antes

Eu quis parar enquanto não havia dor.

Mas eu resisti e há dor.

Eu quis parar enquanto não havia amor.

Houve amor.

Quis parar enquanto não havia sentimento.

A gente sabe que os dias pesam quando se sente.

Sentimos.

E quando houve angústia, saudade, desalento, desespero.

Eu quis parar antes de tudo isso.

Houve isso e mais. Muito mais.

Eu quis, por deus, que não houvesse nada.

Sequer quis começar e agora

os dias correm vagos.

Há tudo isso e eu não soube como parar.

Continuo.

Te quis em cigarros acesos, risadas contidas

Tô te deixando em repouso bem aqui no peito. Não que por um segundo sequer você tenha deixado de me habitar. Mas, aos poucos, num processo lento e doloroso – ainda que repentino e sofrido -, você mudou a forma de me habitar.

Por deus, te amo. Hei de continuar a amar-te. Só que não posso mais suportar o peso desse afeto em meus ombros. Ou da falta dele. Ainda amo cada átomo, cada fragmento, cada toque de seus dedos. Mas sou incapaz de gostar de você. Pois, pequena, os dias são somatórias complexas de afeto e amor, desejo e solidão. Te amo, só não te preciso mais.

Logo eu que sempre precisei daqueles afetos abandonáveis, esquecíveis – ainda que por poucos dias. Só sei amar alguém que eu tenha a capacidade de abandonar e sentir saudades e fazer a falta destroçar meu eu. Assim, e só assim, o amor se reconstituí, retorna para meus bolsos, se faz presente em meus ensejos.

Você me foi moradia afetuosa por dias sem fim. Te amei de corpo, alma e essência. Te carreguei no mais puro ato de desejar-te. E te guardei em minhas entranhas. Te almejei em fins de tarde, em cinema mudo, em cafés quentes. Te quis em cigarros acesos, risadas contidas, te quis em meus toques em teu corpo. Em dia frios. Alegrias escancaradas.

Agora te amo de longe. Te amo pelo que me foste, mas não mais pelo que me és. Resolvi que é hora do amor por ti consolidar-se no que fora e não voltará a ser. Você fica em mim. Com retratos de risos doces, olhos encantados, desejos de toques e retoques de afeto. Mas agora seus cafés me amargam a boca, seus perfumes me escapam a essência correta. Te deixo, por fim, aqui. Em meu peito, onde um amor nasce e hei de permanecer. Te amo, mas mantenho afeto pelo retrato do que fomos e já não somos.

Você amou um pedaço meu que eu sequer conhecia. Você descobriu um eu todinho meu recluso e perdido entre o caos que carregava. E, por deus, você amou. Amou tanto, tão forte e escandalosamente, que me senti confortável em vestir esse traje, esse novo eu.

Por dia sem fim eu fui… fui o que? Esse eu que tu amou. Assim, no passado. Num estado verbal que já não se aplica. E, por deus, como mudanças gramaticais ferem os dias. Em seus abandonos, você me sobra. Pois ao partir, você me deixou inteira sem saber o que fazer com tanto de mim. Com esse eu estranho e incompreensível que não aprendi a amar, ainda que eu o tenha vestido por incontáveis dias. Me pego vestida, costurada e bordada nesse eu complexo e emaranhado de você. Apenas com suas lembranças me manchando a tez, me apertando os entornos. Apenas suas sórdidas lembranças me adentrando os pulmões. Suspiros pesados de quem um dia te teve como amor e hoje vive de asfixia.  Tenso, por deus, como tento desnudar-me disso, desse eu, desse você. Mas me desfaço de suas lembranças e carrego esse pedaço de mim que você, e só você, amou. Só você poderia amar.

Metade do meu eu sufoca em angústia. Queria berrar. Alto. Até minha voz falhar, meu corpo enfraquecer, meu âmago acalmar. Estou exausta, pequena.

Sinto que psicologicamente meu eu se esgotou. Minha ânsia de viver, minha persistência e reverência. Estou fraca e volátil. Mas não estou, ainda, emocionalmente pronta pra revirar minhas mesas, quebrar meus copos imaginários. Não tenho forças internas pra reviver o desmazelo da desistência.

O que faço, menina? Sinto um rasgo, uma ferida exposta no meu eu. Mas continuo. Dia após dia, nesse corpo morto e exaurido de esperanças, continuo pois não há desespero pra me fazer desistir. Há, quem sabe, inexatidão, desprezo, medo. Medo, pequena.

Por deus, queria lavar a alma, o corpo. Viver na austera sensibilidade de quem se satisfaz. Pois, pequena, me remoo em insatisfações diárias e morro em inexatidões. Não sei de mim. Não hei de saber.

Porque o amor não me basta.

Te venero. Pura e sorrateiramente. Te almejo, mas não te toco. Não por não ser capaz, mas porque meu desejo de afeto me impede de romper os laços que te protegem. Por que o amor não me basta, pequena? Me pergunto por dias sem fim. Morro entre minhas tragadas amargas e meus goles secos de bebidas fortes. Porque o amor não me basta.

Você, minha doce menina, ama-me. Assim, de corpo, alma e pecados. E eu? Amo o que?
Lembro, por deus – olhando esse cigarro queimando minhas memórias doces – que você me dizia que amo a sensação do desejo, do afeto. Que amo estar em almejos desde que solitários. Pois, menina, desconfio que você tenha razão. Porra, você sempre tão coberta de certezas. Eu fujo dos meus objetos amantes porque não os amo. Não posso permitir que minha ilusão se rompa, que os pecados alheios firam o afeto que construo. Não sei lidar com os fragmentos alheios. Amo no mais sórdido egoísmo que há. Por que o amor não me basta? Por deus, como queria saber dizer. Diria também que amo cada toque seu e as pontas dos seus dedos. Menina te beijaria as mãos todos os dias.

Agora rio e engasgo com a bebida – pequena, me aflijo com suas mãos quando tu me és presença. Me vem e me leva a paz. Te quero longe, pois até seus toques são tilintares sem ritmo quando próximos de mim. Amo cada pedaço seu, desde que haja distância o bastante para eu bordar e tecer esse amor em meus tons. Em meus traços. Amo a agonia que o afeto me dá. Porque o amor não me basta.

Corporare

Gostaria de estar aqui agora.

Gostaria, mas não estou.

Por deus, só eu sei como quereria ser quem vos fala.

Mas não sou eu.

Digo, o corpo é meu, ou costumava ser. A aparência? Sim, pequena, isso que vos lhe pronuncia parece um tanto comigo. Aliás, demasiadamente comigo. Quase confunde-se com o que sou, ou costumava ser.

Queria, mundo meu, ser esse alguém que habita o corpo que tanto se parece com o que eu costumava habitar.

Mas não se engane, menina minha. Essa tonalidade emanada não é a minha. Esse corpo cheio de toques de tamborilares não é o meu. Não pense que endoidei, nem que a lucidez me escapa aos dedos. Estou sã. Ou o mais próximo disso que posso chegar.

O que vos digo é que descobri agora há pouco que me escapei e nunca mais retornei. Queria ser quem preenche essas linhas todas, ser em real vivência quem emana tais sentimentos sórdidos e cordiais. Mentira, apenas sórdidos. Minha cordialidade fica presa nesse corpo, minha austera insanidade se revela nessas linhas sujas. E meus dias são interpretados por uma alma estarrecida, vaga, nula, manchada da verdadeira essência. Me mantenho em quietude, silêncio, apologia aos caos. Sou uma bela atriz que interpela a alma e desmancha os sentimentos, afoga as almas, incorpora o personagem. Nunca eu, nunca quem lhe escreve é o mesmo habitante do âmago que lhe fala. Uma voz emudecida pelos papeis da vida. Figurante de mim mesmo.

um vazio que me corrói o peito, me cerca o cerne, me aglomera as entranhas

Queria desabafar. Falar por horas sem fim sobre as mazelas de um coração solitário. Sinto que preciso de seu colo afetuosos e sórdido. Doce, mas amargo. Amado, mas não pronto a dar amor.

Não há tristeza. Não há sofrimento que eu possa relatar em espaçadas e recônditas palavras sujas. Mas, pequena, engana-se quem pense que há felicidade, calmaria, sossego então. Não há nada. Absoluta e estrondosamente nada. Não há a alegria da sua presença, sequer a dor da ausência. Isso tudo já foi vivido entre anseios meus. Há um enorme vazio agudo. Estridente e desconfortável.

Há um vazio que me corrói o peito, me cerca o cerne, me aglomera as entranhas. Há um eco vago e torpe que não me causa ojeriza o bastante para me fazer mudar. Mas me agoniza ao ponto de me destroçar em corpo, alma e coração.

Eu preciso que você vá para que eu ame. Ame suas partidas e ausências, ainda que morrendo de asfixia por elas. Preciso das suas distâncias para que a saudade me dê espaço para amar cada pecado seu. Cada tracejo, detalhe, contorno de sua tez pálida. Mas, por deus, preciso que venha e que me precise e que me berre amores. Morro de fome com seus silêncios e seus dias sem fim distantes de mim. Agora, pequena, sequer sei por onde anda. Sequer suas respostas me bastam, sua voz me acalma o dia inquieto, pois minhas mãos não te tocam os cabelos. Minha pele não tilinta ao toque seu. Não te alcanço o corpo quente. Começo a odiar seus encantos e desmoronar de um precisar-te sufocante. Ainda que isso seja amor.

E me despedaço em ausência, desejo suas partidas toda vez que começa a me trazer à vida demasiadamente. Como se, por deus, eu fosse um corpo de alma suja e sórdida, incapaz de traçar trajetos felizes e doces e calmos e. Enquanto sua presença me alimenta, morro da falta minha. Começo a exalar uma felicidade que não me suporta. Atinjo um auge eufórico, amante, afetuoso que me rompe as essências e, por fim, me joga nesse vazio de mim. Não sinto nada. Nem medo de continuar, nem medo de parar. Mas sigo sofrendo de buracos ocos e malditos. Você me traz à vida e me lembra de ser o que, de fato, sou. Como se eu pudesse ser uma exiguidade em minhas solidões.

Carrego em mim o que sou e o que não sou. E a gente traceja entre pecados e afetos o que nos somos, e o que somos aos olhos alheios. Sou um eterno vazio.