Corporare

Gostaria de estar aqui agora.

Gostaria, mas não estou.

Por deus, só eu sei como quereria ser quem vos fala.

Mas não sou eu.

Digo, o corpo é meu, ou costumava ser. A aparência? Sim, pequena, isso que vos lhe pronuncia parece um tanto comigo. Aliás, demasiadamente comigo. Quase confunde-se com o que sou, ou costumava ser.

Queria, mundo meu, ser esse alguém que habita o corpo que tanto se parece com o que eu costumava habitar.

Mas não se engane, menina minha. Essa tonalidade emanada não é a minha. Esse corpo cheio de toques de tamborilares não é o meu. Não pense que endoidei, nem que a lucidez me escapa aos dedos. Estou sã. Ou o mais próximo disso que posso chegar.

O que vos digo é que descobri agora há pouco que me escapei e nunca mais retornei. Queria ser quem preenche essas linhas todas, ser em real vivência quem emana tais sentimentos sórdidos e cordiais. Mentira, apenas sórdidos. Minha cordialidade fica presa nesse corpo, minha austera insanidade se revela nessas linhas sujas. E meus dias são interpretados por uma alma estarrecida, vaga, nula, manchada da verdadeira essência. Me mantenho em quietude, silêncio, apologia aos caos. Sou uma bela atriz que interpela a alma e desmancha os sentimentos, afoga as almas, incorpora o personagem. Nunca eu, nunca quem lhe escreve é o mesmo habitante do âmago que lhe fala. Uma voz emudecida pelos papeis da vida. Figurante de mim mesmo.

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