um vazio que me corrói o peito, me cerca o cerne, me aglomera as entranhas

Queria desabafar. Falar por horas sem fim sobre as mazelas de um coração solitário. Sinto que preciso de seu colo afetuosos e sórdido. Doce, mas amargo. Amado, mas não pronto a dar amor.

Não há tristeza. Não há sofrimento que eu possa relatar em espaçadas e recônditas palavras sujas. Mas, pequena, engana-se quem pense que há felicidade, calmaria, sossego então. Não há nada. Absoluta e estrondosamente nada. Não há a alegria da sua presença, sequer a dor da ausência. Isso tudo já foi vivido entre anseios meus. Há um enorme vazio agudo. Estridente e desconfortável.

Há um vazio que me corrói o peito, me cerca o cerne, me aglomera as entranhas. Há um eco vago e torpe que não me causa ojeriza o bastante para me fazer mudar. Mas me agoniza ao ponto de me destroçar em corpo, alma e coração.

Eu preciso que você vá para que eu ame. Ame suas partidas e ausências, ainda que morrendo de asfixia por elas. Preciso das suas distâncias para que a saudade me dê espaço para amar cada pecado seu. Cada tracejo, detalhe, contorno de sua tez pálida. Mas, por deus, preciso que venha e que me precise e que me berre amores. Morro de fome com seus silêncios e seus dias sem fim distantes de mim. Agora, pequena, sequer sei por onde anda. Sequer suas respostas me bastam, sua voz me acalma o dia inquieto, pois minhas mãos não te tocam os cabelos. Minha pele não tilinta ao toque seu. Não te alcanço o corpo quente. Começo a odiar seus encantos e desmoronar de um precisar-te sufocante. Ainda que isso seja amor.

E me despedaço em ausência, desejo suas partidas toda vez que começa a me trazer à vida demasiadamente. Como se, por deus, eu fosse um corpo de alma suja e sórdida, incapaz de traçar trajetos felizes e doces e calmos e. Enquanto sua presença me alimenta, morro da falta minha. Começo a exalar uma felicidade que não me suporta. Atinjo um auge eufórico, amante, afetuoso que me rompe as essências e, por fim, me joga nesse vazio de mim. Não sinto nada. Nem medo de continuar, nem medo de parar. Mas sigo sofrendo de buracos ocos e malditos. Você me traz à vida e me lembra de ser o que, de fato, sou. Como se eu pudesse ser uma exiguidade em minhas solidões.

Carrego em mim o que sou e o que não sou. E a gente traceja entre pecados e afetos o que nos somos, e o que somos aos olhos alheios. Sou um eterno vazio.

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