Você amou um pedaço meu que eu sequer conhecia. Você descobriu um eu todinho meu recluso e perdido entre o caos que carregava. E, por deus, você amou. Amou tanto, tão forte e escandalosamente, que me senti confortável em vestir esse traje, esse novo eu.

Por dia sem fim eu fui… fui o que? Esse eu que tu amou. Assim, no passado. Num estado verbal que já não se aplica. E, por deus, como mudanças gramaticais ferem os dias. Em seus abandonos, você me sobra. Pois ao partir, você me deixou inteira sem saber o que fazer com tanto de mim. Com esse eu estranho e incompreensível que não aprendi a amar, ainda que eu o tenha vestido por incontáveis dias. Me pego vestida, costurada e bordada nesse eu complexo e emaranhado de você. Apenas com suas lembranças me manchando a tez, me apertando os entornos. Apenas suas sórdidas lembranças me adentrando os pulmões. Suspiros pesados de quem um dia te teve como amor e hoje vive de asfixia.  Tenso, por deus, como tento desnudar-me disso, desse eu, desse você. Mas me desfaço de suas lembranças e carrego esse pedaço de mim que você, e só você, amou. Só você poderia amar.

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