Não havia mais cigarros na gaveta e eu te dei minha alma pra tragar

Eu, na minha incapacidade de deixar-me sentir, te pedi pra ir. Pedi pois sua presença era vaga demais. Seu eterno não chegar e não partir me corroía e me matava. Como se houvesse meio caminho pra te tocar e um infinito pra não te deixar me dilacerar.

Não pense, minha menina, que não te quis. Por deus, sequer um segundo deixei de te sentir. E me doeu, porra, me fez sangrar cada ausência tua. Todos os dias que eu te odeio por quem és longe de mim me matam. O amor é um amontoado de ojeriza e bem querer. Te queria aqui, entrelaçando os dedos meus. Menina, te quis bem. Tanto que limpei meu peito, abri meus baús de medo e te deixei entrar, habitar. Te dei cama, calor e a chave de casa. Te dei meus anseios, desejos e fulgores. Despejei em ti uma vontade de futuro.

Mas sua não-vinda me afogou em expectativas e frustrações. Por deus, esse cigarro que agora queima entre dedos meus serão prova, te escrevo agora e há de ser a última carta, minha última caligrafia torta por ti. Eu que nunca retiro meus amores do bolso, pendurei o seu nos pulsos, estampei nas paredes, bordei em minha pele. Te pedi, porra, implorei sete vezes seus retornos. Não havia mais cigarros na gaveta e eu te dei minha alma pra tragar.

Entenda, por deus, que parti por não conseguir mais me reerguer após suas idas e abandonos. Suas ausências faziam desmoronar meu eu de um modo que não havia forças pra me reerguer. Então, ainda que me matando, te pedi a distância. A ausência de fato. Te larguei numa esquina distante dos olhos meus. Um jeito cruel para conseguir me despedir da sua dor: te pedi, ali naquela esquina fria, fica aqui. Saí correndo de olhos fechados pra lugar nenhum, só pela certeza de não poder mais te encontrar. Morri uma centena de vezes até a coragem de reabrir os olhos me garantir a visão do dia.

Mas não volte agora. Não me retorne com suas incertezas. Não me traga as esperanças de afeto. Porque eu não tenho o direito de te exigir mudanças, e ainda assim eu pedi. Pedi pra que você ficasse, retornasse e me vestisse. Você não veio. E doeu quando eu senti a ausência em cada passo, fala. Em cada cama vazia, desordem, em cada pesado dia mudo. Você não estava lá.

Não sei ou não posso lidar com esse jogo de opostos. Te amar dói. E se, por deus, agora você me retorna, eu te aceito. E morro. Suas cicatrizes realçam na pele minha. E morro. E continuarei morrendo por dias sem fim. Eu não corri o bastante.

Quantas faces a solidão pode ter?

Você pode caminhar numa rua oca e fria e

ainda assim emanar satisfação.

Por deus, hoje sua música tocou

hoje as paredes berraram suas falas

seus timbres

seus laços.

Quando um outro alguém me abraçou, eu quase lembrei

o amor costumava me vestir

aquecida, entrelaçava os dedos à alegria.

Hoje, me acolheram

mas o eco em mim ainda revela que a casa tá vazia.

Tem um corpo vazio, decomposto

a solidão de si torna cruel

habitar-se ainda que só

um vazio cinza e morno e cru

Divido a sala com trinta corpos estranhos. Mas estou sozinha. São só lembranças, resquícios que habitam a casa, a sala, a mente. Acho que o perfume que restou, o gosto que fora doce, acho que as promessas. Porra, metade do meu eu se desfez quando a porta bateu. Outra metade está definhando aos poucos de ausências.

Mas não espero mais. Porque te amo e ainda havendo amor, sei que não voltas. É como esperar um sorriso melancólico nos corpos decompostos. É como arder em brasa de um fogo que já se apagou. Não volta.

Mas não há força que me salve e me impeça de sofrer e sentir e querer e. Te aceitei antes mesmo de você vir. Te perdoei antes de ouvir suas desculpas. Te bordei em minhas pele antes de saber se você ficaria. Morri, por deus, morri em todas as fatigantes e extenuantes vezes que caí sozinha. Por dias sem fim. Me recolhi em pedaços, me refiz, me ajeitei ainda que meio errada, meio torta. Desse modo meio tropegante que consegui. Então você voltou. De novo e de novo e mais uma centena de vezes. Me despedaçando. Me destroçando. Fazendo de mim uma flor sem pétalas, um vazio cinza e morno e cru. Ainda te amo.

E se, por deus, agora te peço que vá, é porque amo. Demasiada, sórdida e extenuante. Amo. E digo que não haveria de se poder invadir o corpo, alma e vísceras alheio e partir, como se você não tivesse feito moradia. Mas, por fim, só me pergunto se te pedi pra partir porque quero deixar de te amar, ou se preciso parar de despetalar-me contigo pra poder continuar amando.

um refúgio, um corpo receptível que nos convide à mudança

E eu sei que deveríamos mudar por nós. Só eu sei como tem me doído esse marasmo em que me encontro. Mas me fere, me sangra e dilacera pensar em mudar. Romper os laços.

Posso, quem dirá que não, quebrar essas linhas fatigadas e duras que me prendem e restringem. Essas linhas cruas que me cercam da minha própria solidão. Mas que besteira pensar que soa simples assim. Porque não soa! Porra, não é fácil. A gente sempre busca um refúgio, um corpo receptível que nos convide à mudança.

Mas o medo me habita e consome e. E. Dezenas e Es. Logo eu, que me resguardei de receios e, finalmente, deixei-me invadir por ti, pequena. Enfrentei meus maiores dilemas, fui de encontro aos meus temores. Lutei em batalhas que jamais, repito: jamais, achei que teria coragem.

E quando, por fim, acreditei – e creditei a ti -, a vontade de mudar, a coragem de enfrentar um mundo a mais dentro e fora de mim, você me largou. a esmo, parada no meio da minha solidão. Num caminho solitário sem ti. Sem luz, sem cor, sem coragem.

Eu me assegurei no receio. Me garanto a sofridão agora pois, por segurança, não entrego minha ânsia por mudar a mais ninguém.

Por infelicidade, quis a vida assim, também não entrego minha coragem de mudar a mim mesma. Sou um caos, um empecilho pra mim. Contento-me na infelicidade pois rir da rotina é pesado demais pra ser fazer sozinha.

Eu te perdi

um milhão de vezes e

continuaria te perdendo.

Em cada maldita palavra

guardada.

Mas quem é você?

Porque te amei só nas partes que aceitei ver

esquecendo que você era mais do que meus

braços e laços podiam envolver.

Eu te perdi e em mais um milhão de vezes

eu chorei por você me escapar tão

facilmente, eu perdi.

Esqueci de que há uma vida inteira sua longe de mim

e meu amor não aceitou resguardar

esse infame pedaço do seu afeto.

Te perdi, e em mais um

milhão de dias

você morreu em mim.

te encontro, mas não te reconheço

Achei que era clichê aquelas velhas falas de “você bagunçou minha vida”. Sabe, esses filmes melosos onde alguém vem e tira o ritmo do outro. Piegas, eu sei. Mas você fez exatamente isso: me desritmou. Tirou meu compasso. Só que de um modo triste. Por deus, deveria ser proibido entrar na vida de alguém, fazer moradia e sumir. Deixar tudo lá, roupas, fotos, lembranças, domingo calmos e um caos instaurado e…. cadê o dono dessa desordem em mim? Sumiu.

Menina, te escrevo essa última carta só pra te dizer que não tem mais espaço em mim. Já não suporto lidar com essa tristeza. E se tenho suportado, ainda que me arrastando em minhas mazelas, não quero. Não posso mais querer suportar. Pois tem doído. Feito sangrar, machucado pra caralho isso tudo. Tem me feito sentar, me escorando na janela, e ver que os dias têm passado, a vida tem corrido entre dedos meus e eu? Eu tenho me mantido aqui, agonizando nesse caos que não me encaixo. Lutando contra tudo que está em mim, mas não me pertence.

Pois se eu era triste, era do meu modo. Em meu ritmo, numa tristeza calma, que eu sabia lidar. E depois? Depois que rompi meus limites, meus medos, rompi minhas medidas porque a felicidade ao lado teu me fazia correr um pouco mais, querer um pouco mais, você continuou e, de repente, me vi correndo sozinha.

Bom seria se a coragem que me destes tivesse sobrevivido a sua partida. Bom seria se a felicidade de novos limites resistisse a ausência tua. Mas, porra, eu tive um medo danado de continuar caminhando por aqui. Não havia mais força, nem vontade em meus passos. E, por fim, me escondi de novo. Me mantive inerte à vida.

Agora o papel pesa, a caneta borra, a letra treme. O ruim de perder as pessoas é que, diferente dos objetos, elas estão exatamente onde as vimos pela última vez. Você está aqui, bem dentro de mim. Está na minha fala, no meu choro, na minha depressão. Você está no medo da vida, na solidão dos fins de tarde, você está intrinsecamente em mim, mas não divide os dias. Você ficou nas lembranças, nos dedos entrelaçados, nas dobras do lençol. Ficou em cada objeto que me lembro de ter tocado. E, porra, você está no perfume pela casa, nas roupas esquecidas, nas palavras mal ditas. Malditas. Você está onde não consigo te recuperar, te tocar, te trazer de volta. Está onde te encontro, mas não te reconheço.

Sua bagunça continua aqui. Suas ânsias por me fazer ir mais longe ainda me ressoam. Mas não há coragem. O que te digo então? Nesta última carta, o que te rabisco? Já não haverá espaço para as velhas intimidades. Já não haverá toque, dedos e afeto que rompam a estranheza do reencontro. Só eu sei como isso me dói. Me fere. Me dilacera. Seus traços tão íntimos me soarão detalhes estranhos. E mesmo tendo decorado cada contorno seu, haverá um abismo na nossa intimidade que me afastará dos toques seus. As despedidas são cruéis.

Os retornos mais ainda.

Queria seus cigarros em minhas mãos. Sua bebida em meus copos. Seu amargo em minha boca.

Queria sua presença enchendo a sala, esparramando acolhimento aos meus olhos. Queria sua face pálida próxima a minha. seu cabelo macio cheirando shampoo e cigarros recém fumados, queria seu toque, seus dedos, seu timbre.

Ainda é você que tem me salvado desse caos. Dos meu caos. Do meu eu.

Queria telefonar e dizer que tenho estado bem, ou viva, ou alegre, ou sabe deus o que. Mas se te telefono agora, despejaria lágrimas pesadas. Menina, eu queria dizer que tô bem. Mas, por deus, mentira! Eu tô mal. Tô mal pra caralho. Meus dias têm sido repetições incansáveis de mazelas e fugas e rotinas amargas. Meus dias têm contado horas sem fim de uma tristeza que me pesa os ombros, dói as costas, marca os pulsos. Minha dor tá estampada na pele, ferindo a carne, amargando as bebidas.

Menina, não sei se tem pensado em mim, se tem me quisto ainda que longe. Mas, como um pedido solitário de quem já lhe fora amor, me deseja coisas boas. Me deseja um caminho novo, mais leve. Ainda que sem você eu tenha que caminhar sozinha, mas deseja que meu caminho seja mais doce.

Deseja, por fim, que eu não precise mais desejar ninguém para me fazer crer que os dias valem a pena. Pois os anos têm passado, e meus meses correm o calendário. Tudo que tenho são coleções de medo e angústia. Tudo que tenho me desassossega, me fere, me mata. E não morro. Por deus, não me mata o bastante para fazer a dor parar.

Então, pequena, só me deseje coisas doces. O telefone hei de tocar um dia.

Não lhe soa estranho que logo eu sofra tanto por ausência de amor? Digo, eu que amo tanto, tão tórrida e veementemente. Logo eu, que me despedaço em amores e afetos e, por deus, me consumo de ensejos. Eu, que me alimento dos amores, me abandono, vivo e recrio um eu todinho moldado pelo amor. Esse eu, isso que sou, morre na angústia da falta de amar. Não, falta de amar não. Na falta de amor.

Digo, amo. Amo muito. Exacerbadamente. De um jeito que chega a me doer. Mas sou incapaz de trazer à realidade esse afeto. Ele me é tão forte e devastador que sequer me atrevo a perpetuá-lo. Vou vivendo meus dias em amores solitários. Em sofrimentos de não reciprocidade, pois morreria vinte vezes mais profundamente a certeza da morte do afeto.

Prefiro, por deus, prefiro mantê-lo sob meu manto infeliz da solitude. Prefiro guardar o desejo em meus bolsos e sofrer com o peso da ausência do meu afeto.

Preciso desses amores tórridos para me salvar de mim. Preciso escapar da falta de afeto por mim para que assim, e tão somente assim, haja continuação, haja vontade de persistir um dia, um mês. E, saiba, não confesso meus amores pois não sei ao certo digna de qual amor sou eu. Tenho medo de merecer um amor menos do que esse que me alimenta. Pois então deixo-o em minhas entranhas. Não confesso meus desejos. Não amo. Apenas alimento a dor de desejar. Pois amor inconfesso é desejo sórdido, dolorido, escabroso. Amor silenciado é um desgaste emocional, um ferida dolorida encoberta por mil sorrisos largos.

Ah, se soubessem que amo tanto que me fere o cerne. E, ainda assim, não me acho digna de amar, de receber amor. Aceito aquelas paixões fúteis, desejos amargos, meias palavras doces. Lido com isso. Com o amor que há de me sufocar, não arrisco me desnudar. Ao amor que há de equilibrar meus sentimentos, não dou brecha. Não dou meus dedos. Não permito que me enlacem os pulsos.

Ao amor, meu sufoco. Meu silêncio. Não hei de merecer. Afogo-me no meu amar mudo. E te amo.

desnudar

Sua blusa caiu de meu guarda roupa como sua presença caiu de meus anseios. Mas não houve dor. Digo, houve uma sensação estranha, um despertencer. Houve um peso caindo tão rente aos meus pés, como num sôfrego alívio. Um sórdido alívio. Mas não era dor. Sua blusa se desenrolou de minhas roupas e caiu. Solitária e descomunal ao chão. Caiu sem dor, assim como sua voz me toca os ouvidos e não te reconheço mais. Não dói. Por deus, não me soa como dor.

Por dias quis te ligar. Ir ao encontro de sua voz que um dia me fora de um reconforto. Sua voz já me trouxe calmaria, sossego, segurança. Ensaiei por dias a ligação. Queria te contar besteiras que já nos foram tão rotineiras. Quase te sentia parte de mim. Meus segredos eram teus e nenhum pedaço meu era recôndito a ti. Mas esse amor se despediu de mim como uma brisa gélida. Ríspido e gradual. Como um soco no estômago que me feriu e, segundo após segundo, tornou-se mais denso, mais forte, mais insuportável. Até cessar. Ou até eu me acostumar à dor, sentir toda a intensidade dela e me abraçar ao que me restou de… de quê? Restou-me nada. Lembranças, talvez. Sua blusa branca manchada de saudades e receios.

Te confesso agora que entre risos e choros, novidades e calmarias, quis te ligar e contar que, por deus, como queria compartilhar esses meus dias contigo. E na sua ausência dolorida, eu quis sua presença pra me salvar de mim. Por fim, quando sobrevivi aos meus dias introspectos, quis telefonar pra contar que tenho estado bem. Tenho passado dias razoáveis, com risos efêmeros, alegrias contidas. Mas que tudo vêm sendo conquistas doces depois que tornei-me eu, e deixei o nós.

Mas não liguei. Não telefonei porque sua voz, antes tão acolhedora, me soa estranha. Descompassada. Não te contei novidades de meus dias calmos pois sua presença aos meus olhos me causou um estranhamento. Te reconheço, sei de sua temperatura, seus toques, seus timbres. Ainda que tão familiares, me estranham a tez, a alma. Não te conheço mais. Um estranho presente. Guardo, então, sua memória que ainda me é familiar. O mesmo que me assossegava, o mesmo que me acolhia. Nem te devolvo a blusa. Você me parece tão sordidamente diferente que sequer sua roupa antiga deve te vestir como antes.

Misantropia

O telefone não tocou durante o dia. Agora meu relógio quase parece parado. Digo quase pois vejo seus ponteiros tremelicarem, mexendo-se segundo após segundo, e ainda assim as horas levam eternidades para passar. Confesso, por deus, confesso que me enganei dizendo que precisava telefonar, só para tirar do gancho e constatar: sim, o telefone ainda funciona. Mas ninguém ligou. Nesta noite, as horas vagueiam em minha mente e as solidões me torturam. E eu me afundo num sem fim de sofá desconfortável. Me anulo em televisões vazias, me angustio na chuva que ressoa a cada gota e me faz abraçar a angústia de viver nesse dia sem fim. Sem paz. Sem vida.

Por deus, a solidão me agarrou os braços, mãos e alma. Solidão de amigos, palavras e, a pior e mais pesada delas, minha própria misantropia. Me anulei. Por dias venho habitando um corpo vazio, vago, sem perspectiva. Por dias carrego esse sem fim de mim, sem alma, um amontoado em decomposição de vida. Estou exausta. Exaurida. Lancei mão de minhas certezas e o que me resta agora é um café amargo e já meio gelado, num sofá marrom angústia, e um telefone mudo. Ninguém me liga. Não faz mal. Eu já não ligo pra mim também.