Misantropia

O telefone não tocou durante o dia. Agora meu relógio quase parece parado. Digo quase pois vejo seus ponteiros tremelicarem, mexendo-se segundo após segundo, e ainda assim as horas levam eternidades para passar. Confesso, por deus, confesso que me enganei dizendo que precisava telefonar, só para tirar do gancho e constatar: sim, o telefone ainda funciona. Mas ninguém ligou. Nesta noite, as horas vagueiam em minha mente e as solidões me torturam. E eu me afundo num sem fim de sofá desconfortável. Me anulo em televisões vazias, me angustio na chuva que ressoa a cada gota e me faz abraçar a angústia de viver nesse dia sem fim. Sem paz. Sem vida.

Por deus, a solidão me agarrou os braços, mãos e alma. Solidão de amigos, palavras e, a pior e mais pesada delas, minha própria misantropia. Me anulei. Por dias venho habitando um corpo vazio, vago, sem perspectiva. Por dias carrego esse sem fim de mim, sem alma, um amontoado em decomposição de vida. Estou exausta. Exaurida. Lancei mão de minhas certezas e o que me resta agora é um café amargo e já meio gelado, num sofá marrom angústia, e um telefone mudo. Ninguém me liga. Não faz mal. Eu já não ligo pra mim também.

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