desnudar

Sua blusa caiu de meu guarda roupa como sua presença caiu de meus anseios. Mas não houve dor. Digo, houve uma sensação estranha, um despertencer. Houve um peso caindo tão rente aos meus pés, como num sôfrego alívio. Um sórdido alívio. Mas não era dor. Sua blusa se desenrolou de minhas roupas e caiu. Solitária e descomunal ao chão. Caiu sem dor, assim como sua voz me toca os ouvidos e não te reconheço mais. Não dói. Por deus, não me soa como dor.

Por dias quis te ligar. Ir ao encontro de sua voz que um dia me fora de um reconforto. Sua voz já me trouxe calmaria, sossego, segurança. Ensaiei por dias a ligação. Queria te contar besteiras que já nos foram tão rotineiras. Quase te sentia parte de mim. Meus segredos eram teus e nenhum pedaço meu era recôndito a ti. Mas esse amor se despediu de mim como uma brisa gélida. Ríspido e gradual. Como um soco no estômago que me feriu e, segundo após segundo, tornou-se mais denso, mais forte, mais insuportável. Até cessar. Ou até eu me acostumar à dor, sentir toda a intensidade dela e me abraçar ao que me restou de… de quê? Restou-me nada. Lembranças, talvez. Sua blusa branca manchada de saudades e receios.

Te confesso agora que entre risos e choros, novidades e calmarias, quis te ligar e contar que, por deus, como queria compartilhar esses meus dias contigo. E na sua ausência dolorida, eu quis sua presença pra me salvar de mim. Por fim, quando sobrevivi aos meus dias introspectos, quis telefonar pra contar que tenho estado bem. Tenho passado dias razoáveis, com risos efêmeros, alegrias contidas. Mas que tudo vêm sendo conquistas doces depois que tornei-me eu, e deixei o nós.

Mas não liguei. Não telefonei porque sua voz, antes tão acolhedora, me soa estranha. Descompassada. Não te contei novidades de meus dias calmos pois sua presença aos meus olhos me causou um estranhamento. Te reconheço, sei de sua temperatura, seus toques, seus timbres. Ainda que tão familiares, me estranham a tez, a alma. Não te conheço mais. Um estranho presente. Guardo, então, sua memória que ainda me é familiar. O mesmo que me assossegava, o mesmo que me acolhia. Nem te devolvo a blusa. Você me parece tão sordidamente diferente que sequer sua roupa antiga deve te vestir como antes.

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