te encontro, mas não te reconheço

Achei que era clichê aquelas velhas falas de “você bagunçou minha vida”. Sabe, esses filmes melosos onde alguém vem e tira o ritmo do outro. Piegas, eu sei. Mas você fez exatamente isso: me desritmou. Tirou meu compasso. Só que de um modo triste. Por deus, deveria ser proibido entrar na vida de alguém, fazer moradia e sumir. Deixar tudo lá, roupas, fotos, lembranças, domingo calmos e um caos instaurado e…. cadê o dono dessa desordem em mim? Sumiu.

Menina, te escrevo essa última carta só pra te dizer que não tem mais espaço em mim. Já não suporto lidar com essa tristeza. E se tenho suportado, ainda que me arrastando em minhas mazelas, não quero. Não posso mais querer suportar. Pois tem doído. Feito sangrar, machucado pra caralho isso tudo. Tem me feito sentar, me escorando na janela, e ver que os dias têm passado, a vida tem corrido entre dedos meus e eu? Eu tenho me mantido aqui, agonizando nesse caos que não me encaixo. Lutando contra tudo que está em mim, mas não me pertence.

Pois se eu era triste, era do meu modo. Em meu ritmo, numa tristeza calma, que eu sabia lidar. E depois? Depois que rompi meus limites, meus medos, rompi minhas medidas porque a felicidade ao lado teu me fazia correr um pouco mais, querer um pouco mais, você continuou e, de repente, me vi correndo sozinha.

Bom seria se a coragem que me destes tivesse sobrevivido a sua partida. Bom seria se a felicidade de novos limites resistisse a ausência tua. Mas, porra, eu tive um medo danado de continuar caminhando por aqui. Não havia mais força, nem vontade em meus passos. E, por fim, me escondi de novo. Me mantive inerte à vida.

Agora o papel pesa, a caneta borra, a letra treme. O ruim de perder as pessoas é que, diferente dos objetos, elas estão exatamente onde as vimos pela última vez. Você está aqui, bem dentro de mim. Está na minha fala, no meu choro, na minha depressão. Você está no medo da vida, na solidão dos fins de tarde, você está intrinsecamente em mim, mas não divide os dias. Você ficou nas lembranças, nos dedos entrelaçados, nas dobras do lençol. Ficou em cada objeto que me lembro de ter tocado. E, porra, você está no perfume pela casa, nas roupas esquecidas, nas palavras mal ditas. Malditas. Você está onde não consigo te recuperar, te tocar, te trazer de volta. Está onde te encontro, mas não te reconheço.

Sua bagunça continua aqui. Suas ânsias por me fazer ir mais longe ainda me ressoam. Mas não há coragem. O que te digo então? Nesta última carta, o que te rabisco? Já não haverá espaço para as velhas intimidades. Já não haverá toque, dedos e afeto que rompam a estranheza do reencontro. Só eu sei como isso me dói. Me fere. Me dilacera. Seus traços tão íntimos me soarão detalhes estranhos. E mesmo tendo decorado cada contorno seu, haverá um abismo na nossa intimidade que me afastará dos toques seus. As despedidas são cruéis.

Os retornos mais ainda.

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