um vazio cinza e morno e cru

Divido a sala com trinta corpos estranhos. Mas estou sozinha. São só lembranças, resquícios que habitam a casa, a sala, a mente. Acho que o perfume que restou, o gosto que fora doce, acho que as promessas. Porra, metade do meu eu se desfez quando a porta bateu. Outra metade está definhando aos poucos de ausências.

Mas não espero mais. Porque te amo e ainda havendo amor, sei que não voltas. É como esperar um sorriso melancólico nos corpos decompostos. É como arder em brasa de um fogo que já se apagou. Não volta.

Mas não há força que me salve e me impeça de sofrer e sentir e querer e. Te aceitei antes mesmo de você vir. Te perdoei antes de ouvir suas desculpas. Te bordei em minhas pele antes de saber se você ficaria. Morri, por deus, morri em todas as fatigantes e extenuantes vezes que caí sozinha. Por dias sem fim. Me recolhi em pedaços, me refiz, me ajeitei ainda que meio errada, meio torta. Desse modo meio tropegante que consegui. Então você voltou. De novo e de novo e mais uma centena de vezes. Me despedaçando. Me destroçando. Fazendo de mim uma flor sem pétalas, um vazio cinza e morno e cru. Ainda te amo.

E se, por deus, agora te peço que vá, é porque amo. Demasiada, sórdida e extenuante. Amo. E digo que não haveria de se poder invadir o corpo, alma e vísceras alheio e partir, como se você não tivesse feito moradia. Mas, por fim, só me pergunto se te pedi pra partir porque quero deixar de te amar, ou se preciso parar de despetalar-me contigo pra poder continuar amando.

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