Juro que tenho tentado me manter em pé. Firme e em pé. Forte e em pé. Ainda que nem sempre tenha restado muito de mim nessas tentativas.

A solidão tem me abraçado por dias sem fim. O medo tem me afastado de mim. Por deus, eu sinto uma ânsia de sair sem rumo, sem nada mais, só para quem sabe assim tropeçar em alguma coisa que faça sentido. Eu tenho lutado por mim e contra mim. Comigo, com o mundo e com quem eu acredito ser. Mas não sou.

Eu tenho requentado os cafés. Pedido bebidas amargas que me acalmem a tristeza. Me alicercem a alma. Eu tenho fumado cigarros sem fim. Logo eu que viva de chá verde e vegetais frescos Logo eu que mentia pra mim me fazendo crer que estava certa, segura, estava.

Mas não estou. Porra, não estou. Presa em mim e sem saber o que fazer com tanto eu, ainda que morrendo de ausências minhas. Perdi minhas expectativas numa esquina suja e fria. Esqueci minhas aspirações num bolso fundo demais. Por deus, eu não tenho tido vontade, e se tenho vontade não me há coragem. E se, por piedade divina, me resta coragem, não há persistência. Viver tem sido uma sombra negra. Viver tem me sufocado. Cada furor rasgado a vísceras expostas. Existir tem sido árduo e pesado e cansativo. Deus, não tenho mais sabido me habitar.

partes minhas que antes eu nem sentia falta, ou nem sentia a presença.

Aprender a se despedir, esse é o ponto mais cruel do aceitar o fim. Mesmo que a dor tenha amenizado, os dias tenham seguido menos ameaçadores, mesmo quando a ferida para de sangrar, as despedidas são constantes.

Eis que te digo, menina, nada é efêmero e pontual. Sequer o adeus. Pois as despedidas, assim como as chegadas, são graduais.

Você partiu e, no princípio, eu não quis aceitar a ausência tua. Me apeguei aos gritos, ainda que mudos, de retornos, de súplicas pela sua presença. Adormeci calada e exausta pelos meus pedidos que tornaram-se sussurros. Você não veio.

Depois vieram a dor, a agonia, a sórdida presença do vazio. Do nada. Veio a pesada ausência tua. Vieram dias ruins, chorosos, coloridos à tons agudos e frívolos. Vieram ressacas emocionais. Vieram dias melhores.

Comecei limpando a casa. A de dentro e a de fora. Num certo tempo, não havia mais roupas tuas misturadas as minhas. Não havia fotos nos porta retratos. Não deixei que restassem lembranças tuas escancaradas em minhas feridas. Há de se dar espaço para que a dor cesse, acalme.

Estamos sempre dando adeus. E quando, de fato, deixei você ir embora, suspirei e fui fazer compras. Não, pequena. Não roupas, não para preencher o dia. Compras de casa. Dessas chatas, que dão preguiça de fazer. Porque quando alguém se vai, há sempre alguém que fica. E o que ou quem fica precisa continuar. Quem se vai tem seus motivos, tem toda uma rotina – ou a criação dela – para acompanhar. E nós teremos a nossa. Talvez com algumas lacunas, ausências e tropeços nos dias. Talvez um café da manhã solitário. Talvez uma compra no super mercado chata, sem risos frouxos e sem dividir a banalidade das boas companhias. Mas continuamos tendo que fazer compras e acordar cedo e viver e.

Há sempre despedidas em nós. E há sempre uma parte que fica, que resiste. Há lembranças e há, sobretudo, a necessidade de aprendermos que não dá pra morrer a cada partida. Há muito mais nosso que fica, que resiste.

Ainda que você tenha ido, aprendi a viver com sua ausência. Aprendi que quando alguém se vai, leva de nós algumas coisas que se criaram com esse alguém. Leva nos bolsos e no peito, na alma e nos olhos. Aprendi, também, a me despedir de partes minhas que antes eu nem sentia falta, ou nem sentia a presença.

Entre a porra das cobertas escoradas ao chão

A casa agora ficou mais muda. A televisão, que antes ocupava os silêncios, emudeceu-se. Num dia agonizante, ela não ligou, não fez som. Logo a televisão, que mesmo sem prender minha atenção, invadia meus ouvidos e me dava o aconchego do barulho, do não estar só. Fazia a casa parecer um tanto menos vazia, um tanto menor. Eu que me abracei aos sons e acômodos depois de sua partida, pois tudo pareceu grande demais, vazio demais, silencioso demais.

Pois digo ainda, emudeci três dias. Calei-me, me vesti de suas lembranças, me alimentei de suas promessas ainda que vagas. Deitei e dormi coberta pela saudades tua. Ocupei-me dos barulhos. Dentro de mim era tamanho caos que nada me trazia calmaria. Mas nem tudo foi desamparo por todo o tempo. Os silêncios foram chegando, os dias tornando-se mais amenos, até mesmo dóceis. Cheguei a achar acalanto em alguns deles, ainda que seus olhos não me vigiassem, que seus dedos não me tocassem.

Por fim, deparei-me com a mais cruel e satisfatória verdade: deixei de te gostar. Não, amar? Amar não se deixa. Te amei por um sem fim de dias e hei de amar quem tu me eras. Doce, calmo, transgressor. Me roubando a sensatez e, de volta, me trazendo o riso frouxo. Parei de te gostar. Quando?

Não sei…Quando deixou de me amar também?

Na tarde fria de que não veio me ver. Talvez entre uma manhã e outra, entre seu corpo quente ao lado do meu. Entre a porra das cobertas escoradas ao chão. Não importa. O amor despetalou-se.

Agora acendo esse cigarro e penso, porra, penso que me doeu tanto sentir os cafés esfriarem solitários. Doeu deixar meus cigarros queimarem sem sua risada ao fundo. Sentir o vazio da cama e dos chuveiros e seus passos guiando meus timbres, doeu pra caralho.

Mas agora, e tão somente agora, acendo e bebo meus pedaços. Trago meus afetos. Recomeço de um vazio, um emudecer, uma casa grande. Começo de uma melodia triste.

Você me virou saudade, lembrança. Você, agora, passa em minha rua, diante meus olhos e já sei que não te amo. A falta arde por quem tu foras. E se não é mais, também não há de me ser.

Escrevi trinta linhas e apaguei

cada uma delas.

Sete lágrimas pra cada palavra

Meu caderno manchado da tristeza de

ser exatamente isso.

Nada mais

Eu desisto hoje

ontem,

o amanhã nunca prometeu.

Eu desisti na sétima linha, no sétimo dia

são só palavras e ninguém vem te resgatar hoje.

Faz tempo que não te escrevo. Não, não que eu te remeta muitas cartas, aliás, nunca enviei nenhuma. Mas te escrevi algumas vezes. Preenchi algumas linhas com meus sentimentos esgotados pela dor do mundo.

Me deu uma vontade súbita de te escrever. Não, uma vontade súbita de me sucumbir às páginas vazias pra tentar, ainda que em vão, me esvaziar um pouco. Hoje, enquanto ouvia uma música melancólica e aguda, me doeu o peito. Hoje o dia foi pesado. Mais do que costuma ser. E, ao procurar a letra dessa música, pensei que ela poderia ser a tradução melodica desses meus dias ocos. “Vou trabalhar, já não aguento mais brigar”.

Te escrevo com um nó na garganta e um coração destroçado. Logo eu que nunca te enviei nada, me desmancho em lágrimas pois já não suporto mais sentir. Não sei também se você me lê. Se me leu algum dia. Mas, caso tenhalido, sabe que falo de amor. Falo de você em cada texto meu, falo de afeto que me falta vindo de ti. Pois entre nós há sufoco, asfixia. Há dependência e engano. Logo eu que mal sei lidar com minhas neuroses, sufoco-me presa nas suas. Nos seus medos. Angústias. Paranoias. Logo eu, que falo tanto sobre amores e afetos, sinto que é exatamente isso que me falta.

Me dói lembrar que tenho te gostado pouco. Ou quase nada. Me dói pensar que não consigo gostar das pessoas, ainda que eu saiba que isso é inato meu. Desculpe, não ando gostando nem de mim. Aliás, menos ainda de mim. Tenho me odiado um tanto quanto. Me desprezado num ponto que me fere ser quem sou. E me fere ser quem não sou.

De novo, de novo, tenho vivido dias de desistência. Mas já não sangra como antes, pois só se desiste uma vez da vida. Depois? Depois é retorno, repetência, outras tentativas. Mas só se morre uma vez. E assim também só se mata uma vez.

Escrevo sem saber com que propósito. Talvez tirar um pouco de mim esse peso. Ou dar tempo desse choro cessar. Escrevo sem saber como terminar. Escrevo pra, quem sabe, caligrafar esse sufoco que é lutar contigo todos os dias, numa mistura de carência e ojeriza. Escrevo sem saber como finalizo. Talvez abraçada à dor. Talvez ela já tenha me abraçado.

Por fim, termino dizendo que não te entrego nenhuma palavra, pois igual à música, já não suporto mais brigar. Não tenho te entregado muitas coisas, e nem a mim mesma. Pois do amor que te tinha, resta-me asfixia.

Mãe.

um eco que ressoa, não mais um barulho que me ensurdece

Preciso te dizer, pequena. O amor em seus começos, meios ou finais, ele soa oco. Diferente de um preenchimento pleno, ou de um vazio agudo. Ele é oco. Um caos que não pode ser habitado, um espaço vago que perpetua em seu peito e consome sua essência. Seu riso vira um retrato mudo em sépia. Digo, ainda, que achei que morreria. Por deus. Era um oco tão extenuante, que sua ausência parecia me fazer morrer. E ainda que os dias passassem, me sentia repetindo o mesmo dia de sua rompante ausência. Quando me dei conta de que o fim era fim, e a dor era extenuante, quando me dei conta de que não valeria a pena viver sozinha o nós que por tanto tempo me assegurei. Por fim, quando me vi presa nessa liberdade de não ser o nós, ser apenas o eu, me dei conta que o vazio ainda me habita. E habitará por dias sem fim. Mas te digo, o amor se cura, passa. Não há nada eterno nesse nosso caos, então o amor não há de ser também.

Pequena, há sempre alguém que machuca mais, ama mais, é mais o nós de todo o amor. Por fim, fui eu. Mas passa. Ainda que doa dizer, o amor há de virar passado quando se deixa ele passar. Então deixei doer, sangrar e quase me matar. Deixei sofrer, arder e por fim, deixei que ele deixasse de ser amor. Virou saudades. Virou um eco que ressoa, não mais um barulho que me ensurdece.