Faz tempo que não te escrevo. Não, não que eu te remeta muitas cartas, aliás, nunca enviei nenhuma. Mas te escrevi algumas vezes. Preenchi algumas linhas com meus sentimentos esgotados pela dor do mundo.

Me deu uma vontade súbita de te escrever. Não, uma vontade súbita de me sucumbir às páginas vazias pra tentar, ainda que em vão, me esvaziar um pouco. Hoje, enquanto ouvia uma música melancólica e aguda, me doeu o peito. Hoje o dia foi pesado. Mais do que costuma ser. E, ao procurar a letra dessa música, pensei que ela poderia ser a tradução melodica desses meus dias ocos. “Vou trabalhar, já não aguento mais brigar”.

Te escrevo com um nó na garganta e um coração destroçado. Logo eu que nunca te enviei nada, me desmancho em lágrimas pois já não suporto mais sentir. Não sei também se você me lê. Se me leu algum dia. Mas, caso tenhalido, sabe que falo de amor. Falo de você em cada texto meu, falo de afeto que me falta vindo de ti. Pois entre nós há sufoco, asfixia. Há dependência e engano. Logo eu que mal sei lidar com minhas neuroses, sufoco-me presa nas suas. Nos seus medos. Angústias. Paranoias. Logo eu, que falo tanto sobre amores e afetos, sinto que é exatamente isso que me falta.

Me dói lembrar que tenho te gostado pouco. Ou quase nada. Me dói pensar que não consigo gostar das pessoas, ainda que eu saiba que isso é inato meu. Desculpe, não ando gostando nem de mim. Aliás, menos ainda de mim. Tenho me odiado um tanto quanto. Me desprezado num ponto que me fere ser quem sou. E me fere ser quem não sou.

De novo, de novo, tenho vivido dias de desistência. Mas já não sangra como antes, pois só se desiste uma vez da vida. Depois? Depois é retorno, repetência, outras tentativas. Mas só se morre uma vez. E assim também só se mata uma vez.

Escrevo sem saber com que propósito. Talvez tirar um pouco de mim esse peso. Ou dar tempo desse choro cessar. Escrevo sem saber como terminar. Escrevo pra, quem sabe, caligrafar esse sufoco que é lutar contigo todos os dias, numa mistura de carência e ojeriza. Escrevo sem saber como finalizo. Talvez abraçada à dor. Talvez ela já tenha me abraçado.

Por fim, termino dizendo que não te entrego nenhuma palavra, pois igual à música, já não suporto mais brigar. Não tenho te entregado muitas coisas, e nem a mim mesma. Pois do amor que te tinha, resta-me asfixia.

Mãe.

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