Entre a porra das cobertas escoradas ao chão

A casa agora ficou mais muda. A televisão, que antes ocupava os silêncios, emudeceu-se. Num dia agonizante, ela não ligou, não fez som. Logo a televisão, que mesmo sem prender minha atenção, invadia meus ouvidos e me dava o aconchego do barulho, do não estar só. Fazia a casa parecer um tanto menos vazia, um tanto menor. Eu que me abracei aos sons e acômodos depois de sua partida, pois tudo pareceu grande demais, vazio demais, silencioso demais.

Pois digo ainda, emudeci três dias. Calei-me, me vesti de suas lembranças, me alimentei de suas promessas ainda que vagas. Deitei e dormi coberta pela saudades tua. Ocupei-me dos barulhos. Dentro de mim era tamanho caos que nada me trazia calmaria. Mas nem tudo foi desamparo por todo o tempo. Os silêncios foram chegando, os dias tornando-se mais amenos, até mesmo dóceis. Cheguei a achar acalanto em alguns deles, ainda que seus olhos não me vigiassem, que seus dedos não me tocassem.

Por fim, deparei-me com a mais cruel e satisfatória verdade: deixei de te gostar. Não, amar? Amar não se deixa. Te amei por um sem fim de dias e hei de amar quem tu me eras. Doce, calmo, transgressor. Me roubando a sensatez e, de volta, me trazendo o riso frouxo. Parei de te gostar. Quando?

Não sei…Quando deixou de me amar também?

Na tarde fria de que não veio me ver. Talvez entre uma manhã e outra, entre seu corpo quente ao lado do meu. Entre a porra das cobertas escoradas ao chão. Não importa. O amor despetalou-se.

Agora acendo esse cigarro e penso, porra, penso que me doeu tanto sentir os cafés esfriarem solitários. Doeu deixar meus cigarros queimarem sem sua risada ao fundo. Sentir o vazio da cama e dos chuveiros e seus passos guiando meus timbres, doeu pra caralho.

Mas agora, e tão somente agora, acendo e bebo meus pedaços. Trago meus afetos. Recomeço de um vazio, um emudecer, uma casa grande. Começo de uma melodia triste.

Você me virou saudade, lembrança. Você, agora, passa em minha rua, diante meus olhos e já sei que não te amo. A falta arde por quem tu foras. E se não é mais, também não há de me ser.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s