partes minhas que antes eu nem sentia falta, ou nem sentia a presença.

Aprender a se despedir, esse é o ponto mais cruel do aceitar o fim. Mesmo que a dor tenha amenizado, os dias tenham seguido menos ameaçadores, mesmo quando a ferida para de sangrar, as despedidas são constantes.

Eis que te digo, menina, nada é efêmero e pontual. Sequer o adeus. Pois as despedidas, assim como as chegadas, são graduais.

Você partiu e, no princípio, eu não quis aceitar a ausência tua. Me apeguei aos gritos, ainda que mudos, de retornos, de súplicas pela sua presença. Adormeci calada e exausta pelos meus pedidos que tornaram-se sussurros. Você não veio.

Depois vieram a dor, a agonia, a sórdida presença do vazio. Do nada. Veio a pesada ausência tua. Vieram dias ruins, chorosos, coloridos à tons agudos e frívolos. Vieram ressacas emocionais. Vieram dias melhores.

Comecei limpando a casa. A de dentro e a de fora. Num certo tempo, não havia mais roupas tuas misturadas as minhas. Não havia fotos nos porta retratos. Não deixei que restassem lembranças tuas escancaradas em minhas feridas. Há de se dar espaço para que a dor cesse, acalme.

Estamos sempre dando adeus. E quando, de fato, deixei você ir embora, suspirei e fui fazer compras. Não, pequena. Não roupas, não para preencher o dia. Compras de casa. Dessas chatas, que dão preguiça de fazer. Porque quando alguém se vai, há sempre alguém que fica. E o que ou quem fica precisa continuar. Quem se vai tem seus motivos, tem toda uma rotina – ou a criação dela – para acompanhar. E nós teremos a nossa. Talvez com algumas lacunas, ausências e tropeços nos dias. Talvez um café da manhã solitário. Talvez uma compra no super mercado chata, sem risos frouxos e sem dividir a banalidade das boas companhias. Mas continuamos tendo que fazer compras e acordar cedo e viver e.

Há sempre despedidas em nós. E há sempre uma parte que fica, que resiste. Há lembranças e há, sobretudo, a necessidade de aprendermos que não dá pra morrer a cada partida. Há muito mais nosso que fica, que resiste.

Ainda que você tenha ido, aprendi a viver com sua ausência. Aprendi que quando alguém se vai, leva de nós algumas coisas que se criaram com esse alguém. Leva nos bolsos e no peito, na alma e nos olhos. Aprendi, também, a me despedir de partes minhas que antes eu nem sentia falta, ou nem sentia a presença.

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