Centenas de afetos meus por ti me transbordam

Eu andava lendo boas coisas. Boas rimas. Andava ouvindo boas músicas, boas histórias. Por deus, eu andava tão leve e descompromissada em ser qualquer coisa que não eu mesma. Andava.

Por fim, não ando mais. Depois de ti, pequena, me tornei um conto seu, uma estrofe tua. Rima e poesia. Sonora e latente. Muda e um sem fim de significados seus.

Os dias últimos foram de cansativos ecos e ressoares teus. Seus dedos, seus toques, seus timbres. Tudo ecoa em mim. Uma, duas, dez vezes. Centenas de afetos meus por ti me transbordam. E meus traços repetem os traços teus. E meus timbres copiam os timbres teus. Menina, meus ensejos são seus olhos distraídos, encantadora e sagazmente perdidos em mim. Mas não se perdem. Não me adentram, não me tocam. Seus olhos não me tecem mais.

Andei lendo bons livros. Entre eles, nenhum que verbalizou seu tracejo. Depois de ti, as palavras ficaram soltas e sem nexo. Menina, me ressignifico em mil dicionários e nada me devolve a mim. Mil sentidos e você não se encontra em nenhum. Seu espaço vago em mim é mais do que um vão. É uma desordem que me desconstrói. Me refiz em centenas de palavras e só uma ainda ecoa aqui: fica.

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As coisas têm sido frias. Frias e amargas.

Meus banhos não me aquecem mais, mesmo que a água me arda a pele.

Mesmo quando se há partidas, pedaços inteiros do outro ainda ficam e resistem e inundam seu pouco corpo. O resto do resto que ainda se mantém. Agora minha voz soa rouca, fraquejada pela saudades. Não, pequena. Os anos nos ensinam a sobreviver às partidas de nossos afetos. Mas sabe o que dói? Os pedaços que nos partem. A saudades de quem eu fora, dos risos que dera, das expectativas que tinha.

Por deus, quase fui alegre e doce e afável. Quase. Quase me abracei por dentro e senti paz. Juro, menina. Quase toquei os dias calmos, quase acordei com a leveza de quem não se fere pelo mundo. Agora dói. De novo e de novo e há de doer por um sem fim de mundos.

A solidão me asfixia a alma. Me escancara as feridas.

São 4da manhã e meu cigarro queima a alma; Logo eu que sempre odiei a fumaça angustiante dos seus. Logo eu que apaguei e limpei e pedi para que não saísse comprar essas porra de cigarros. Talvez fosse medo de você não voltar. Pois bem, agora saio eu. Ando fumando e bebendo e esquecendo xícaras de café vazias pela casa. Cafés amargos, bebidas fortes, cigarros pretos.

São 4 da manhã e tenho acompanhado sua vida de longe. Acho que anda bem. Claro que todos temos nossas recaídas e, deus, eu demorei a ter as minhas. Agora? Bom, entre uma tragada e outra, entre uma ressaca e a dor do mundo de caindo dos olhos, eu tenho piorado. Me senti mais sozinha do que de costume. Essa semana as ausências me comeram carne, as pontas dos dedos, me comeram as entranhas.

Essa semana o telefone ficou mudo, os emails não chegaram e acho que sequer abri as janelas. Essa semana a dor corroeu o mais célebre dos meus receios, adentrou minhas esperanças e ocupou meus espaços vagos. A dor e a saudade de mim invadiram minhas veias, correram pelo meu corpo e se fixaram no peito. Hoje nenhum corpo morto esteve mais decomposto do que minha alma.

E eu dormi abraçada ao receio do que me veste, me recobre. Meus cigarros arderam em brasa e a solidão me fez temer quem sou. Por deus, a solidão torna-se pior não pela ausência da respiração alheia, mas por escancarar a possibilidade de você ser exatamente quem tu és. Torna-se doloroso. Ninguém está pronto para ser quem é, ainda que queira, ainda que ache querer. Nosso mais recôndito eu é algo tenebroso e sórdido. Algo que não se revela pois não se assume. Meu eu está camuflado pela incertezas e derrotas de um sem fim de dias. Mas a solidão tem trazido quem sou mais à pele. Tenho estado a minha própria vista. A solidão esburaca até os corpos mais densos.

Menina, meus dedos queimaram pelo cigarro aceso. Meu café esfriou e a bebida já não me basta. Essa noite, e só mais hoje, eu me obrigo a sair comprar cigarros. Por deus, como eu queria um outro corpo pra me tragar.

Não olho mais o relógio. Agora marco o tempo perdida entre meus cigarros. Eram quatro da manhã e eu estava sozinha. Eram quatro da manhã e antes você dividia as noites comigo.

Era a sua presença que ocupava minhas ânsias, meus delírios. Era você que residia em mim, nas bebidas, nos cigarros. Porra, eu nem fumava. A cama, antes apertada, nos aconchegava e meu peito se desmanchava em aconchego. Você me foi moradia e hoje parece um eco incômodo.

Meu cigarro queima e poderia fumar por dias sem fim, até morrer sufocada. Até o oxigênio me faltar. Poderia. Mas agora eles acabaram. Acendi o último. Assim como você que queimou em brasa, foi fogo ardente e, num sopro cruel, se apagou em mim. Te traguei e nada mais restou senão teu gosto amargo em mim.