Me permito ser nada mais

Passei dois terços da vida tentando viver. Sabe, menina, o mundo nem sempre soa doce, límpido. Passei incontáveis dias lutando com forças imensuráveis e tentando ser qualquer coisa mais próxima de um ser vívido. Desisti. Entrei no meu período de retrocesso, de desligamento. Caí naquele círculo inócuo de degradação e penitência.

Logo eu que, quando quis sobreviver, escolhia o cardápio saudável, os bons sentimentos, as boas essências. Agora me debruço na minha derrota autopunitiva. Me encarcero em bebidas exageradas, cigarros que me amargam a boca, escolho as noites invertidas e me esparramo na minha incapacidade de ser alguma coisa qualquer. Me permito ser nada mais, apenas pra poder ainda ser alguma coisa.

Mas, te asseguro, menina, não dura pra sempre. O fim não há de me alcançar tão em breve. Logo me recupero, me recomponho. Passo uma semana à chá verde e yoga. Pratico meditação e me desintoxico com saladas. A alma talvez não. Fico solitária dentro de mim e me encarrego de novos livros, novas músicas, me entorpeço de museus, filosofia, poesia. Mas continuo sozinha, pois o amor não me permitiu passagem. Pois deixar-me invadir ainda é sórdido. Não me deixo amar em instância alguma pois os abandonos são frequentes. Não dá pra me dividir.

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pedaço oco seu, cada lágrima suja

Este é um texto sobre meus últimos passos solitários. Por deus, não é uma carta afável de dias  doces. Menina, hoje o dia foi longo, foi dolorido. Hoje os passos teus ecoaram pelo peito meu. Procurei em cada silêncio seus barulhos pela casa. Nada. Nenhuma respiração, nenhum bater de portas, nenhum retorno. Pois não há presença tua. Mas costumava haver. Havia timbre seu ressoando pela casa, escorrendo pelos meus braços, pingando dos meus dedos. Havia perfume teu pela cama, pela roupa, pela minha curva entre a cintura e as costas. Menina, Eu queria agora te escrever qualquer porra que me assegurasse alegria. Queria dizer que andei lendo bons livros e dando boas risadas, talvez lhe escreveria que andei saindo e bebendo com pessoas encantadoras. Mas, por deus, nada disso é verdade, e o mundo se projeta cinza e frio fora de tudo que um dia já me fora segurança de ti.

Você sabe, pequena, sempre soube como me é cruel deixar-me invadir por qualquer pessoa. Como o íntimo me fere. E você, que aos poucos me adentrou e se alojou de modo dolorido mas satisfatório, me fez moradia. E, porra, eu me desfiz de meus temerosos eus em amor a ti. Me abandonei solitária ao lado desse te querer e, mais do que bem querer, te aceitei em seus tilintares, ritmos e pecados. Amei cada pedaço oco seu, cada lágrima suja. E agora? agora me despejo nessas folhas vagas e frias, entre cafés amargos e fracos, tentando me caligrafar do que um dia eu fora. O que eu fora? Por deus, ao menos me traga de volta. Me traga a paz da solidão, me traga meus espaços vagos, meus defeitos sórdidos, me traga qualquer porra que me silenciei a agonia de não te ouvir mais. Não te tocar.

Dos maiores desafetos, a dor se exalta na ausência que nos habita. Não é o seu não-estar que me dilacera o peito, é a porra da sua ausência que flameja e me diz que eu também não estou.

Te segui em mil olhares e, por deus, como me dilacerou a alma te ver chorar. Me desfiz em mil penúrias ao te ver, em um milésimo de segundos, se desfazer em lágrimas. Menina, se te descrevesse a cena que tu me protagonizou, diria que vi um mundo a parte, uma bolha sua no meio daquela gente toda. Como o ser humano é desprezível. Enquanto um corpo todo se desmancha em lágrimas sofridas, a gente finge ignorar e não sentir nada mais, nem compaixão, nem pena, nem vontade de se aninhar aos braços estranhos e chorar junto. Porque a gente vai acumulando lágrimas e dores e medo e solidão. Mas o mundo não dá tempo nem aval para chorarmos e termos medo e termos receio.

Então, um dia, entre um riso forçado e uma conversa amena, o tempo dá um brecha, e a gente desmorona. A gente chorar pesado, sofrido. E por mais que ao nosso redor todos se sintam cansados e infelizes, ninguém se atreve a cruzar os olhares, a perceber aquele ser imerso em sofridão, porque isso causa dor, acorda receios internos e mal estares.

Menina, vi seu rosto passar de um riso frouxo a um mar de lágrimas. E tudo que fiz foi me prender a mim mesma e me doer por dentro. Compartilhar suas lágrimas e sua dor em silêncio. Tudo que fiz foi te desejar paz, calma e amor. Te emanei bons pensamentos, porque o mundo não me deixa te enlaçar os braços meus.

Às vezes o mundo o cruel, quase sempre é injusto. Mas, pequena, há tanta gente nesse mundo. Se eu pudesse te verbalizar qualquer coisa, diria pra não se deixar passar assim. Diria apenas pra dar uma chance a você mesma. Dias mais leves. Pois, por fim, a tristeza nos machuca os ombros.

O mundo pareceu grande demais esta noite. Meus dedos que tamborilaram entre seus timbres, agora se agarram ao vazio do meu eu. Essa noite lágrimas secas me transbordam os olhos.

Sabe, pequena, não tenho tido muitas vontades, muitas coragens ultimamente. Ando me escondendo em mim, num eu cada vez mais fundo. Um profundo de mim que desconheço. É vazio. E frio. E angustiantemente perturbador Tenho caído num sem mim de almas minhas e, por deus, não me reconheço em nenhuma.

Fui tão mais corajosa ao lado teu. E como me dói, pequena. Porra, me dói pra caralho saber – e tomar consciência – que sou um eu tão mais vívido e límpido e tão mais eu quando tenho um corpo e alma a que me apoiar. Por dias e mais dias fui um corpo quase dócil, quase alegre, quase. Quase me permiti ser eu mesma ao teu lado. Por você e tão somente por ti, menina. Agora não mais.

Os dias que agora correm mudos, a calmaria que adormeceu e deu lugar ao caos, o não me pertencer me habita. Sou um solidão desenfreada. Não me caibo, e nem sei me fazer caber pois, porra, não faço ideia do que sou. Do que ser. Do que, por fim, fazer para ser.

suas bebidas ainda me amargam a boca

Em noites frias de cafés amargos a solidão me abraça com braços largos. Me vesti de centenas de despedidas e não havia seu aconchego. Não havia perfume seu, nem olhos calmos. Não havia nenhum toque seu. A solidão me vestiu como uma roupa grande, sufocante.

Acho um tanto triste como os olhos meus vagam pela a casa e se deparam com a fotos esquecidas, com os objetos perdidos. Por deus, ainda há roupas tuas pela casa. Mas nenhuma presença. Nenhum corpo para vesti-las. Acho choroso como suas bebidas ainda me amargam a boca, como seu cigarro me queima a memória.

Já não sei mais nada sobre quem tu és. Tudo que sei foi do que te guardei. Sua carteira de cigarro intocada. Ando fumando demais. Suas bebidas fortes. Ando dormindo de menos. Nem sei se ainda sai comprar cigarros, se quiser te acompanho num dia desses.

Não sei mais seu timbre, nem de suas roupas, sua vida, seus afetos. Ainda há afeto por mim? Por deus, ainda há alguma lembrança minha em ti? Pois você ainda habita a casa. Por vezes, me adentra a alma, invade minhas narinas ainda que seu perfume não esteja nas cobertas.

Você, esta noite me invadiu o âmago. Apertou o peito. Esta noite você se fez ausente como há tempos não fazia. Me doeu tropeçar no fato de que já não te conheço. O que me resta já nem sei se ainda o é.

Então, pequena, o que sobrou do meu amor? O que sobrou do que amo, já que tudo que conheço de ti foi fugazmente abandonado? Você se deixou à esmo, pairando em mim e foi ser um outro alguém. Não me resta muito a não ser minha solidão presente e latente nesse eco do que tu me foras um dia. Amor. Hoje, vazio inocupável.