Me permito ser nada mais

Passei dois terços da vida tentando viver. Sabe, menina, o mundo nem sempre soa doce, límpido. Passei incontáveis dias lutando com forças imensuráveis e tentando ser qualquer coisa mais próxima de um ser vívido. Desisti. Entrei no meu período de retrocesso, de desligamento. Caí naquele círculo inócuo de degradação e penitência.

Logo eu que, quando quis sobreviver, escolhia o cardápio saudável, os bons sentimentos, as boas essências. Agora me debruço na minha derrota autopunitiva. Me encarcero em bebidas exageradas, cigarros que me amargam a boca, escolho as noites invertidas e me esparramo na minha incapacidade de ser alguma coisa qualquer. Me permito ser nada mais, apenas pra poder ainda ser alguma coisa.

Mas, te asseguro, menina, não dura pra sempre. O fim não há de me alcançar tão em breve. Logo me recupero, me recomponho. Passo uma semana à chá verde e yoga. Pratico meditação e me desintoxico com saladas. A alma talvez não. Fico solitária dentro de mim e me encarrego de novos livros, novas músicas, me entorpeço de museus, filosofia, poesia. Mas continuo sozinha, pois o amor não me permitiu passagem. Pois deixar-me invadir ainda é sórdido. Não me deixo amar em instância alguma pois os abandonos são frequentes. Não dá pra me dividir.

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