vou tocar novas flores. Vou e te deixo livre para ir também

Sabe, pequenas, às vezes as coisas precisam ficar bem ruins. Digo, beirar ao limite do trágico para que possamos largar esses desassossegos. Às vezes precisamos de um choque que rompa o elo com as situações, com as pessoas Assim e tão somente assim deixamos partir, acabar, deixamos estabelecer como um passado.

Isso soa tão frágil e humanamente tolo. Acostumar-se às dores, aos medos, aos dias ruins. Acostumar-se ao amor que não tilinta, aos dedos que não tocam, às flores que repousam mortas sob a mesa. Romper ciclos dói. Quebrar a costura insistente em que nos habituamos para manter as aparências é sofrível. Sim, pequena. Mas é preciso.

Não se pode passar a vida toda nessa busca por… por o quê? Eu passei dias sem fim costurando as pétalas caídas naquelas flores mortas. Sem perfume, sem vida. Um emaranhado que se escorava na mesa. E eu, insistente, me mantive tentando reviver aquilo que um dia me fora amor, afeto. Me fora toque doce. Não mais. Suas flores engoliram sete formas de amor e todas elas emudeceram entre cada despetalar.

Mas não se engane, minha pequena. Que isso não te soe como uma caligrafia de despedida, que não te pareça que ando remoendo desafetos, ou que me dói admitir esse despedir. Você me veio três vezes e em nenhuma delas as flores reviveram. As portas se abriram mais uma dezena de vezes, e em nenhuma você me adentrou. Por isso espero que entre cada linha minha soe evidente meu desapego, meu abandono às flores mortas. Que soe doce, mas determinado. Que soe afável, mas firme. Desapego-me de suas flores esmaecidas e de minhas esperanças de portas abertas pois, enfim, senti mais necessidade de tracejar novos toques de pétalas do que continuar espetando os dedos enquanto tento costurar cada pétala mal amada.

E vou, pequena. Por fim, vou tocar novas flores. Conhecer, aspirar. Morrer de asfixia em novas coisas. Mas de modo leve, aos poucos, ao ritmo meu. Vou e te deixo livre para ir também. A liberdade é um ato de amor.

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