O amor anda me causando ojerizas.

Tenho escrito muitas cartas. Mentira, cartas não. Rascunhos, pedaços de papel manchados de café e borrados de saudades. Tenho enviado deus sabe pra quem linhas rabiscadas de solidão, pesadas de nostalgia. Porra, acho que meus guardanapos têm sido fontes de lamentos e amores esgotados tanto pelo excesso de sentimento não recíproco, quanto pela ausência de sentir algo. Sentir. Menina,te digo num pesar assombroso, não tenho sentido. Não que eu fosse de muitos encantos e sequer me afeiçoava com frequência. Você sabe, pequena, sabe como demorei a abrir portas, a te convidar para uma moradia em mim. Demorei pois os afetos me invadem. Os amores me corrompem numa intensidade quase incapacitadora. E, por fim, quando sinto, sinto demais. Sinto em extrema euforia, sofridão.

E agora? Agora escrevo em mais um rascunho pesado de… de quê? Pois não chega a ser saudades. Sua não. Talvez, e digo apenas talvez, do riso que me era mais doce e mais frouxo ao lado teu. Digo que talvez sinta a falta de seu timbre e sua solidão junto a minha. Talvez tuas roupas esquecidas, tua voz rouca, teus olhos despretensiosamente esquecidos nos meus. Mas não de ti. O amor esgotou-se. Minhas portas fecharam-se e nem de longe quero visitas. Nem passagens rápidas. Não quero afetos, não quero dedos entrelaçados, não quero – por deus – porra nenhuma que me sufoque e desatine e asfixie. Não quero recobrar-me os ensejos.

Sinto quem sabe falta da sensação do afeto, não do próprio afeto.

Aliás, não. Nem isso. Sinto falta de me sentir mais presente em mim. Coisa que antes era pouca, agora tem sido cada dia mais escassa. Me abandonei à esmo. Me larguei numa rua escura e corri de mim de olhos fechados. Quadras depois tropecei e não me acho mais. Não sei de mim, de ti, de nada. Deixo, portanto, esses bilhetes tortos para, quem sabe, alguém me achar. Ou eu me achar. Eu, eu, eu. Repito. Ninguém mais anda me sendo interessante. Resta-me dar-me a mim. Me sufocar de mim, eu e minha solidão, forçar-me a me ser, em ter e bastar-me. Devolver-me e assim, quem sabe, conseguir sentir afeto novamente.

O amor morre em várias faces.

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