Não me seja mais do que posso suportar

Eu rechearia cada dia meu com tua presença. Por deus, eu faria o mar transbordar de ti. Teu riso, teus olhos doces e exageradamente redondos. Seu olhar perdido acastanhado. Mas te imploro que não me queira igualmente. Digo, queira! Me queira, me faça bem. Mas como te explico que metade de mim anseia por um desejo, uma reciprocidade, e a outra metade afasta de mim toda a insensatez de deixar-me vulnerável? Sim, amar é permitir o fracasso como apoio, quase tocando-lhe a tez.

Então te peço, aos poucos, aos encantos doces, aos toques leves, ao mau amor que nunca se rende nos fins, não me ame, ainda que seja amor. Não me borde de afetos ainda que tenhamos o desejo escancarado na pele. Não me seja nada além do que me desassossega, senão te perco. Senão te emolduro nos intransigentes ecos do meu eu. Ecos que não ouço mais por medo. Medo de me ensurdecerem. Medo de me serem mais real do que eu mesma posso me ser. Não me seja mais do que posso suportar, senão eu desisto. Eu abandono. Eu vou me refugiando cada vez mais em mim, me decoro, me consumo e não te resta nada. Não me seja amor. Não me seja.

Escapismo

O filme repete a cena que eu já devo ter visto uma centena de vezes. Um daqueles filmes que a gente assiste encantadoramente. Repetidas e repetidas vezes. Mas desta vez algo ressoava diferente. A cena, ainda que exatamente como deva ser, parece estranha. Mal ensaiada, mal representada. Os atores não se encaixam no papel, as falas soam artificiais. Tudo fora do ritmo, ainda que seja o mesmo filme.

Me dou conta de que não é o filme que soa artificial. É a vida. Sou eu. Estou estranhamente deslocada no meu próprio roteiro. Estou perdida entre meus atos e as cenas não têm muita conexão. Parecem desalinhadas, como se alguém embaralhasse o roteiro e eu, perdida, tentasse acompanhar fingindo naturalidade.

Os dias passam crus. Em tons de sépia. Em tons e timbres mortos. Deus, tenho tentado me manter em pé, mas a desobrigação da rotina me desobriga a viver. Digo, vivo pela rotina, pela aula, pelo trabalho. Morro entre esses acontecimentos. Fico num estado catatônico nos intervalos das obrigações humanas.

Como no filme, tudo ao meu redor soa como escapismo. Trabalhar, acordar, comer. E é! Porra, é. Mas meus escapismo se encerram na obrigação de quem vive: sobreviver. Me obrigo às árduas tarefas de trabalhar e comer. Às vezes me afogo numa bebida ou num cigarro que queima entre meus dedos. Mas na maioria dos dias eu apenas me recosto na minha inexatidão de vida. Me escoro na sofridão solitária de precisar continuar apenas porque sequer me restam forças para desistir. Se pudesse, ah se a vida me permitisse, eu dormiria por uns cem dias. Mas continuo inalterada. Presa nesse papel desajustado. Tudo soa artificial, frio, asqueroso. Tudo soa frívolo e ineficaz. Até meu sono pesa e não me descansa. Não me escapa.

Rumo

Quando o vazio ressoa, não é exatamente a falta da presença alheia que incomoda. É claro que a saudade é um vestígio de que bons momentos cessaram, mas ainda permanecem como bons momentos. Sabe do que sinto falta, pequena? Da facilidade de encontrar um bom lugar para tomar café no meio da tarde. Sinto falta de como a brisa sussurrava doce em meus ouvidos, sinto uma falta extenuante de como era fluído sair de casa. Talvez os cafés nem fossem tão bons, o vento nem sempre soprasse na direção certa, talvez sair de casa fosse uma tarefa mais simples quando não é preciso caçar companhias. Pessoas tão atarefadas, e nós também. Mas, de repente, a gente arranja brechas na agenda pois o vento ou o café estarão, com certeza, magníficos. E se não estiverem a gente ri. A gente troca de café, a gente caminha pro outro lado.

Porque é a companhia alheia, o impulso alheio que torna nossa casa um recinto tão sem graça. Torna nossa solidão não suficiente. Pois vejo, menina, que agora meu café amargo esfria na xícara e a janela está fechada. Me obrigo a acreditar em minha própria companhia pois, de momento, ninguém parece interessante o bastante para querer romper as rotinas, as agendas. Mantemos nossa vida. Não é o fim do mundo. Mas É o fim das tardes e agora, nessa tarde, meu eu sente falta de uma caminhada e um café compartilhado.

Incólume

Esse era um dia típico onde você costumava ir embora. Depois de dias de risos unidos e camas bagunçadas, era hora de retomar a rotina. Dias calmos, com leve ventania, dias de agonia. Digo, eram dias que antecediam a retomada da semana. Eram domingos de preguiça e amenidades. Era nos domingos que você se despedia. Ainda que as despedidas fossem curtas, sempre me restava um fim de dia sem grandes acontecimentos. Um sol ardido e um vazio incólume. Faz tempo que você se foi pela última vez, mas os domingos ainda se repetem nesse clima estranho e eufórico. Sim, apesar de calmos e malemolentes, são dias que me agonizam, me deixam em estágios eufóricos e catatônicos. Não sei lidar com dias assim. Talvez pela lembrança de que já me foram agonias melhores, talvez apenas pela sensação de inocupação. Sinto a falta tua como quem morre entre suspiros de tédio. Ainda que, por deus, eu não soubesse me bastar com tua presença, ainda que ansiasse pela despedida tua que, enfim, me devolveria meu dia inerte, inócuo. Ainda que sua estadia me suplantasse as mazelas de estar acompanhada e isolada de minhas solidões. Eu costurei em mim, por deus, eu bordei e teci cada riso doce, cada toque de nossos dedos afagados pela tez do outro. Eu te fui repouso, e você me foi segurança, desatino. Meus domingos foram agonias, calmarias, fugas e desencontros. Mas todos acompanhados do pleno prazer e desvario de estar-me junto a ti. Não agora. Resta-me eu com as manchas permanentes de sua não presença. Do que um dia tu me fora, de quando esteve e agora, desocupada, não me sossego.

Um palco sem atores, onde resta eu e meu inocupável vazio.

Há tempos que os dias emudeceram. Há tempos que a casa está agonizantemente vazia e quieta e.

O tempo passou num ritmo que me dói. E mais do que dor, num ritmo que não sei discernir. No começo foi dor dilacerante. Extenuante. Foi uma dor aguda que me exasperou, me consumiu. Me sugou as noites, os dias e a paz. Depois me rompeu em agonia. O desejo que a saudade e a falta tua me largassem. Demorou. Por deus, como a repetição da ausência tua me consumiu.

Mas, ainda que em traços lentos, o ciclo do amor se contempla e termina. O amor, o afeto, a admiração e todo o resto do pacote se encerram. Um ciclo comum, um trajeto que exaure-se em si. Não há amor eterno, não há afeto que sobreviva quando abandonado.

Há tempos que a presença tua não me causava mais saudades. Não, engano-me. Não me causou saudades, nem nostalgia, nem nada do gênero. Foi o vazio que me tomou. Me dei conta de que nada mais me compõe. Nem amor, nem ojeriza. Nem apego, saudades, sequer vontade de recomeçar. Não me restam espaços vagos. Estou estranhamente preenchida de vazios, espaços ocos, enormes espaços vagos que ecoam em mim. Por deus, como explico, ainda que a mim mesma, que não me cabe nada pois estou exaustivamente vazia?

Pequena, eu esperei você me deixar. Pois é uma rotina dolorida que me cerca. Meus amores plenos, lúcidos, ludibriados de desejo, são repetida e incansavelmente destinados a me deixar. Amei, por deus, como te amei. Em fúria, ensejo, clamor. O furor de nossos abraços e corpos tracejados numa rima prefeita. Te amei.

Os poucos corpos compostos de alma que fui capaz de amar em plenitude rompante me repetem esse abandono. Quase que uma cena ensaiada. Um teatro perfeito onde meu papel é carregar um desatino amante. Por fim, sentar-me e esperar o abandono. O eco do vazio.

Logo eu que resgato uma essência de cada corpo vão. Logo eu que quase nunca me percebo entre os afetos, quando por fim me flamejo em amores, respiro dele até o último suspiro, sou esquecida no canto do palco sujo. Uma cena bem ensaiada. Um vazio torpe. Sórdido. Um palco sem atores, onde resta eu e meu inocupável vazio.

Eu estou aqui, eu estou aqui, eu estou aqui.

Repito, ainda que soe estranho. Preciso me dizer constantemente que estou aqui, exatamente aqui, para me lembrar de continuar. Por mais que para mim o aqui é exatamente onde estou, mas numa nota mental repetida como um mantra faz parecer mais real. Estar aqui.

Lembra-se de quem é? Você lembra da necessidade de se permanecer e, mais do que isso, se pertencer?

Eu. Estou. Aqui.