Um palco sem atores, onde resta eu e meu inocupável vazio.

Há tempos que os dias emudeceram. Há tempos que a casa está agonizantemente vazia e quieta e.

O tempo passou num ritmo que me dói. E mais do que dor, num ritmo que não sei discernir. No começo foi dor dilacerante. Extenuante. Foi uma dor aguda que me exasperou, me consumiu. Me sugou as noites, os dias e a paz. Depois me rompeu em agonia. O desejo que a saudade e a falta tua me largassem. Demorou. Por deus, como a repetição da ausência tua me consumiu.

Mas, ainda que em traços lentos, o ciclo do amor se contempla e termina. O amor, o afeto, a admiração e todo o resto do pacote se encerram. Um ciclo comum, um trajeto que exaure-se em si. Não há amor eterno, não há afeto que sobreviva quando abandonado.

Há tempos que a presença tua não me causava mais saudades. Não, engano-me. Não me causou saudades, nem nostalgia, nem nada do gênero. Foi o vazio que me tomou. Me dei conta de que nada mais me compõe. Nem amor, nem ojeriza. Nem apego, saudades, sequer vontade de recomeçar. Não me restam espaços vagos. Estou estranhamente preenchida de vazios, espaços ocos, enormes espaços vagos que ecoam em mim. Por deus, como explico, ainda que a mim mesma, que não me cabe nada pois estou exaustivamente vazia?

Pequena, eu esperei você me deixar. Pois é uma rotina dolorida que me cerca. Meus amores plenos, lúcidos, ludibriados de desejo, são repetida e incansavelmente destinados a me deixar. Amei, por deus, como te amei. Em fúria, ensejo, clamor. O furor de nossos abraços e corpos tracejados numa rima prefeita. Te amei.

Os poucos corpos compostos de alma que fui capaz de amar em plenitude rompante me repetem esse abandono. Quase que uma cena ensaiada. Um teatro perfeito onde meu papel é carregar um desatino amante. Por fim, sentar-me e esperar o abandono. O eco do vazio.

Logo eu que resgato uma essência de cada corpo vão. Logo eu que quase nunca me percebo entre os afetos, quando por fim me flamejo em amores, respiro dele até o último suspiro, sou esquecida no canto do palco sujo. Uma cena bem ensaiada. Um vazio torpe. Sórdido. Um palco sem atores, onde resta eu e meu inocupável vazio.

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