Um corpo decomposto pela necessidade de ser

Hoje me sentei em frente à janela. Janela esta que eu costumava me debruçar, perder o olhar, pairar a alma. Minha janela de angústias e sossegos. Há tempos eu não me perdia em meus ensejos, desavisos, relutâncias. Há tempos eu não olhava mais pelas janelas.

Não, pequena, engana-se se pensou que era desastroso quando me perdia entre tantos pensamentos. Eu era bem mais organizada. Mas a vida às vezes fica pesada, doída. Então vamos passando reto pelas janelas, sem tempo de suspirar de deixar as angústias escorrerem pelas frestas. Fui acumulando dias, meses, fui me acumulando. Me excedi.

Já não ando me cabendo mais, menina.

E como soa choroso esse retrato desavisado de nós mesmos, não é? Digo, vamos nos acumulando, nos deixando num canto triste, vamos esquecendo como que faz pra ser a gente. Entramos no automático…

Quase um soco no estômago. Um passo falso entre o que somos e o que eramos. Deveríamos ser. Me vi passar diante meus próprios olhos, mas quase um corpo vazio. Uma alma meio suja. Ah, pequena, arranha-me as entranhas habitar meu eu. Dói ser-me esse eu sórdido de essência fria. Um corpo decomposto pela necessidade de ser e pela incapacidade de ser. Ser o quê? Por deus, pequena. Ser o quê?

Pois, te juro, essa janela parece um tanto quanto suja. Ou lá fora já não reflete um valer a pena. E quando você, doce e fugaz, me beijava a testa, eu podia sentir o sopro da vida me arrepiando a alma. Alma arrepia?

Mas e agora? Porra, e agora, menina? As cortinas quase fechadas, um céu quase negro. Deus não confia em mim, mas tudo bem, eu também não confiaria. Eu amei pela última vez suas doces palavras e sua doce presença e. Ninguém mais abriu as janelas e agora a noite apagou a cidade.

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