Matei incontáveis vezes meu amor por ti e juntei os pedaços dele espalhados pelo chão

Meses atrás meu peito era pesado. Um peso sujo que me afundava no sofá e me fazia escorar-me em paredes e cantos escuros. Mas o tempo é um bom remédio, minha pequena. As angústias de solidão foram, aos poucos, ficando mais leves. Já não prendiam mais minha circulação. Voltei a respirar.

Não que meus dias agora sejam doces. Não. São ocos, espaçados, longínquos. Eu berro pra dentro e posso sentir o estremecer da minha alma diante um sem fim de ecos. Ah minha menina, se soubesses quantos cafés e cigarros e bebidas amargas eu consumi para tentar me preencher de alguma coisa. Coisa essa que sua partida me roubou. Peguei o telefone uma dezena de vezes esperando sua voz rouca do outro lado. Porra, eu sequer sabia seu telefone. E você não me ligou. Por dias o telefone mudo foi meu suplício, meu escárnio, o berro do silêncio me rasgava os ouvidos. Ensurdeci.

Toquei nossas fotos num apego sôfrego. Adormeci noites incontáveis entranhada às poucas coisas que você esquecera aqui. Matei incontáveis vezes meu amor por ti e juntei os pedaços dele espalhados pelo chão. Tentei costurar em mim os resquícios de suas lembranças. Tentei te fazer em mim mais presente mesmo quando sua ausência me empurrava pra um abismo de mim mesma.

Mas o tempo, pequena. O tempo acalmou meu eu. Deu-me chance de arrumar esse caos que ficou. O tempo me fez criar pequenas coragens pra admitir que sua ausência seria constante. Ainda que em recaídas, ainda que o telefone me cobrasse uma voz que eu não ouviria mais, eu sobrevivi.

Não há mais fotos, nem roupas, nem perfumes seus há tempos. Não há presentes. Não há esperança. E digo, com alívio, não há mais dor. Aquele susto cruel que me tomava quando as lembranças tuas me atingiam. Era quase um soco no estômago. Agora suas lembranças quase não me tomam mais. Respiro.

Mas o vazio no meu peito ainda existe. Um buraco estranho que não consigo ocupar, que não consigo deixar ninguém ocupar. Porra, menina. Ele sequer tem suas memórias jogadas lá, e ainda assim não consigo ocupá-lo.

Um vazio pesado. Um telefone mudo. Um saber choroso que você não estará lá, mas não saber deixar ninguém preencher.

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