um sórdido eu amante que deseja mais do que a si mesmo ser amado

Era isso. Foi como um bloco pesado me atingindo. Enfim me dei conta de que o amor é um comprimido incapaz de engolir. Uma cura, o antídoto da vida em suas mãos, e a impossibilidade de descer por sua garganta.

Ah, pequena. Meu cigarro queima entre os dedos e derruba cinzas mais negras do que deveria. Acho que a tristeza altera as cores. Não, a culpa não é sua, nem minha. Aliás, sequer é culpa. Digo, há em mim uma estranha euforia de encontrar nos humanos essa angústia amável que carrego no peito. E eu mesma não sei me render aos amores e encantos e afetos que desejo. Porra, eu sequer sei ser amor.

Mas passo meus dias anulada. Dias e meses. Longos períodos onde me desligo do mundo e de todos esses corpo vazios e decompostos pelo não-amor. Me desligo da necessidade de laços, de conexões. O amor se torna uma ojeriza, uma constante que posso facilmente evitar. Não preciso de esforço algum para enclausurar-me em mim, passando meus dias numa solidão reconfortante. Não odeio as pessoas, não odeio sexo, não odeio os relacionamentos fodidos e as mazelas sentimentais que eles causam. Apenas me abstraio naturalmente a ponto de nada me fazer falta.

Mas então entre um dia de trabalho cansativo e as reclamações de cafés não tão quentes, o afeto ressurge. Merda. Ele está lá. De um modo estranho ele esteve sempre lá, dentro do meu peito aguardando o momento de explodir com força. E então ele reconstrói essa vontade de estar presente, ele molda um buraco fundo no peito e eu quero preenchê-lo. Quase como num sussurro amante. Um pouco mais alto. Mais. Mais alto. Até ficar insuportável.

Geralmente isso ocorre quando já há alguma presença. Quando alguém desperta os olhos e ensejos. Os dedos, pulsos e cãibras. Alguém estranhamente afável que se instala em minha rotina.

Mas os relacionamentos são espaços fodidos da vida. São alimentados pelo desejo nosso e pela frustração. Os meus são. Invariavelmente. Digo, não que eu planeje esses dias doces de encantos e ilusão. Mas planejo a calmaria. Os dias de paz ao lado deste ser que me encanta. E há de me encantar todos os dias. Confesso, por deus, confesso que mesmo amargurada das frustrações, meus amores continuam a me causar um encanto devastador.

Meu cigarro queima e você não vem. Porra, você nunca vem. E isso me mata. Me dilacera. Pois me apego ao amor como uma tatuagem à pele. E morro. Morro quatro vezes por suspiro. Morro ao me dar conta que morrer não me desobriga de te amar e que meu desejo continua escrito nesse caderno queimado pelo cigarro.

Então eu desejo. Te desejo. Que venero. E me emudeço num medo sôfrego de ser demais e deixar transparecer esse sórdido eu amante que deseja mais do que a si mesmo ser amado. Reciprocidade é uma bebida amarga demais.

Mas me encanto cada dia mais pelos olhos de quem despertou o afeto em mim. Decoro seus timbres, seus toques. Vibro nos pequenos e despretensiosos atos. Eu me torno desprezível. Bebo as últimas gotas de minha sensatez e vomito toda a ânsia de ser bem quista. Minhas páginas repletas do nome seu, ainda que as folhas estejam em branco.

Eu escrevo. Linhas e mais linhas carregadas de um súplica silenciosa. Deus, se ao menos meus afetos aprendessem a me ler. Nunca soube ser nada mais do que um vazio melancólico.

Mas eu amo. Morro de amores. Afogada e dilacerada pelo amar, e por não saber expressar. E por esperar um dia, enfim, ter poesia de quem amo. Ser quem escreve. Mas continuo me ocupando de corpos meio vazios. Morrendo por amar e por não saber ao certo o que fazer com um sentimento que não sustenta, mas me atiça. Não me contempla, mas me dá gotas de satisfação: por deus, ainda sou capaz de sentir.

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toque gélido de um amor que era pra ser fogo, mas ainda é uma faísca congelada

São 3 da manhã. Sinto a solidão me abraçar a alma e o cigarro já não basta. Não o tipo necessário de solidão. Por deus, eu prezo pelos meus momentos de calmaria, onde me fecho e me isolo em mim, e tudo faz sentido. Ou não. É puro caos. Mas ainda é meu.

Digo que tem dias que o peito tem um peso indigesto. Nem cheio, nem vazio. Estranhamente desajustado à vida. Como num suspiro melancólico, um vento de domingo. Porque as companhias faltam, as conversas falham, os dias ficam nublados e abre-se um espaço inocupável do coração. Se eu te dissesse que tento, por deus, como tento ocupá-lo com um alguém. Mas é sempre nas esquinas sujas, nas tempestades no meio da multidão sem rosto, é sempre na massa decomposta que vaga entre um sinal aberto, um troco esquecido na mesa do bar, é lá que as almas se confrontam, se sintonizam. E a minha, deus, a minha se vincula aos estranhos, aos incomovíveis, aos que não se retribuem em estadias mais longas, em desejos de ficar.

Pois quando o vazio berra e o espaço vago fica cada vez mais presente, eu vejo a solitude me costurar os olhos. Eu sinto o toque gélido de um amor que era pra ser fogo, mas ainda é uma faísca congelada. Num rompante, num estrondo que nunca sei bem quando se iniciou, eu já me debrucei no meu afeto. No meu anseio de desejar e morrer em desejo. Quando me percebo, já bordei as cores, os olhos, os tons alheios. Escrevi na pele, consumi, devorei na ânsia de ter afeto. Morri de fome. Morro todas as vezes. Em cada sórdida vez que haveria de ser amor.

Me encurralo de amor. Me despejo de amor. Me alimento da asfixia de amar. E ainda assim morro da falta, da escassez do que não vem. Porque só o amor, por si, não basta. Não há de bastar nunca. Ele, pobre sentimento insuficiente, se exime do sentir-se e bastar-se. Ele suplica por ser somado. E eu insisto em manter-me muda. Amedrontada por pronunciar e deixar uma ferida aberta. Amedrontada pela fútil capacidade de deixar o amor virar amor. Deixar esse meu excesso de sentimento virar timbre, virar pronúncia na rouquidão sonora, e então eu não saber o que dizer e fazer e, sórdida, não saber o que sentir. Se, por fim, eu anunciar, morrerei de minhas angústias afetuosas. Só, e tão somente, porque o medo borda minhas tranças, minha tez, o medo de não saber o que fazer para continuar digna de um afeto recíproco me isola. Por fim, amo muda. Pra dentro e cada vez mais fundo. Acumulando amor em doses de engasgo. Seu afeto me dilacera.

Eu encontrei a paz e a agonia.

A calmaria e o desassossego.

Sobre a guerra eu estendo a bandeira da paz. E sob nossos pés eu sinto a brasa queimar a sétima essência nossa.

Eu me somo em sua solidão e te dou meu amanhecer. Meu entardecer. Eu te dou minha noite, meu tom, minha escuridão e todas as noites pro resto da minha vida. Eu dou a voz, o timbre rouco e, em troca, te peço sua respiração calma. A armadilha d’alma. Te dou o direito de ir e voltar. Te peço apenas o desejo de ficar.

Os olhos repousados, semicerrados, a cabeça que pende no colo meu. Te ofereço os toques, os dedos longos, as poesias, ainda que nunca mais eu saiba escrever. Te ofereço os cafés, as xícaras, a sede. As noites em claro. E os dias também. Te ofereço a primeira fresta de sol que há de tocar os cabelos teus. E se não tocar, se não se atrever, atrevo-me eu. Toco a ti e a mim. Toco a nós e me desmancho em raios, me disperso pelo chão e me acumulo em seus olhos.

quando os tilintares forem menores, eu saberia permanecer em ti

Antes fossem só os dedos meus que escorressem e marcassem as mesas da casa. Antes fossem só os toques que suscitam e se encolhem e se exaltam e se exalam pela casa. Mas é ânsia, a austera fadiga, o bem querer tímido e fugaz que escorre e respinga pelo chão. Bordei minha pele de dentro pra fora com o toque teu.

Ah, as palavras não rompem mais o silêncio. Digo, nunca romperam. Nunca, nessa minha exaustiva tentativa de ser um algo a mais, eu soube quebrar os silêncios que me protegem das dores. E me protegem de mim. Eu quis, por deus, eu quis dizer qualquer coisa que te fizesse ver que seu afago é de um encaixe tímido mas certeiro ao meu. Eu quis dizer tanta coisa que se traduzisse num pedido de estadia. Fica. Fica entre dedos e toques meus. Fica entre olhos, lenços e timbres. Aprende a me ficar entre os olhares de quem não apenas está, mas permanece. Perene, entre dias e noites, entre ventos e despedidas. Fica entre as ausências e os retornos.

E deus sabe o quanto eu quis dizer que aprenderia a ficar também. Ainda que nas minhas constantes fugas e escapes, ainda que rodeada pelos ensejos e desatinos, eu quereria ficar. E quando os tilintares forem menores, quando o céu for de um fogo nublado, e o cinzeiros transbordarem solidões, eu digo que saberia permanecer em ti. E você em mim.

Mas quando os tons teus se deparam com os tons meus, emudeço. Não por não mais te querer. Se é que nesse pouco tempo deixei, por apenas um segundo, de respirar os perfumes teus. Apenas por medo de romper essa aura que me envolve. Então emudeço, me calo, me anulo para que você continue a me ser presença.

Mesmo querendo dizer qualquer coisa, qualquer pedido sórdido para que me seja laço e abraço, um desejo de te fazer moradia, pele habitada, não falo, não me arrisco pelo medo de ser exagero meu. Como uma mariposa que, num farfalhar de asas, se esvai, se afugenta. Então me obrigo no desassossego de te ter à distância. Meus olhos fixos nos risos frouxos, nos risos contidos. Entre meus olhos de soslaio te emano desejos de quem admira os últimos segundos das mariposas: não se mexa, não se vá. Não se vá. Não se vá.

sorrateira, escrevi na tua folha inacabada

Você escreveu dezessete linhas inteiras e partiu antes do ponto final. Você deixou a caneta pairando na mesa, numa beirada agonizante. Você deixou metade de mim presa entre as frases mal acabadas.

E eu que aceitei os papeis manchados, as xícaras transbordadas, aceitei as canetas sem tinta só para poder te ver escrever.

E entre cada linha eu espalhei meu bem querer. Mas você esqueceu das vírgulas. Das pausas. Restaram os suspiros e uma caligrafia borrada. Faltaram folhas. Mentira, folha ainda tem, o que me falta são seus dedos longos de toques leves. Falta você.

E você partiu antes da linha virar parágrafo. Antes do timbre virar ritmo. Antes da alma tilintar doce. E não te ouvi mais, não te li mais.

Sequer te mando o fim que, sorrateira, escrevi na tua folha inacabada. Não me atrevo também a acreditar nos meus rabiscos tortos. O que, por fim, sobrou foi minha letra preenchendo o vazio angustiante, um eco repetido incansáveis vezes pra fingir que teve mais, um algo a mais que não somente eu relendo suas palavras doces. Doces mas vazias. Doces mas ilusórias. Em mim ecoa seu tom, seu timbre, seu verso, ainda que nada disso seja seu.

Pega essas asas quebradas e dança, menina. Ou sonha.

Paredes dançam e se desmancham sob meus pés e olhos e toques. Nada permanece. Estático.

Tudo fica mudo e sem cor, mas meus dedos tamborilam em desespero. O chão se desfez uma centena de vezes e eu continuo caindo.

Ah, menina. Tentei, por deus, como tentei sorrir e me fazer à feição alheia. Tentei manter o tom cordial, a voz carnal, a frívola essência de manter-me sã, coerente. Morri doze vezes entre cada suspiro. E as portas já não se abriam mais. E os risos já não me significavam mais. E os choros há muito não me comoviam. Me consumi, me alimentei de mim, fui me devorando de dentro pra fora e morri de fome.

Sentei num espaço vago, num canto escuro de mim. Fechei os olhos e fiquei. Fiquei. Fiquei.

Pois os fins são assim, menina. A gente vai ficando até não ter mais nada que não a gente mesmo. Mas e se eu não existo mais, afinal o que restou? Pega essas asas quebradas e dança, menina. Ou sonha. Entre minhas paredes demolidas e meu caos vago, um abismo de fim me suspende. Assim como uma mariposa, vivi 24 horas. Morri ao cair num sem fim de mim. Minhas asas quebradas já não batem mais, então me sustento na ilusão de flanar, dançar, dormir no meu escambro de pesadas asas quebradas.