sorrateira, escrevi na tua folha inacabada

Você escreveu dezessete linhas inteiras e partiu antes do ponto final. Você deixou a caneta pairando na mesa, numa beirada agonizante. Você deixou metade de mim presa entre as frases mal acabadas.

E eu que aceitei os papeis manchados, as xícaras transbordadas, aceitei as canetas sem tinta só para poder te ver escrever.

E entre cada linha eu espalhei meu bem querer. Mas você esqueceu das vírgulas. Das pausas. Restaram os suspiros e uma caligrafia borrada. Faltaram folhas. Mentira, folha ainda tem, o que me falta são seus dedos longos de toques leves. Falta você.

E você partiu antes da linha virar parágrafo. Antes do timbre virar ritmo. Antes da alma tilintar doce. E não te ouvi mais, não te li mais.

Sequer te mando o fim que, sorrateira, escrevi na tua folha inacabada. Não me atrevo também a acreditar nos meus rabiscos tortos. O que, por fim, sobrou foi minha letra preenchendo o vazio angustiante, um eco repetido incansáveis vezes pra fingir que teve mais, um algo a mais que não somente eu relendo suas palavras doces. Doces mas vazias. Doces mas ilusórias. Em mim ecoa seu tom, seu timbre, seu verso, ainda que nada disso seja seu.

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2 comentários sobre “sorrateira, escrevi na tua folha inacabada

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