quando os tilintares forem menores, eu saberia permanecer em ti

Antes fossem só os dedos meus que escorressem e marcassem as mesas da casa. Antes fossem só os toques que suscitam e se encolhem e se exaltam e se exalam pela casa. Mas é ânsia, a austera fadiga, o bem querer tímido e fugaz que escorre e respinga pelo chão. Bordei minha pele de dentro pra fora com o toque teu.

Ah, as palavras não rompem mais o silêncio. Digo, nunca romperam. Nunca, nessa minha exaustiva tentativa de ser um algo a mais, eu soube quebrar os silêncios que me protegem das dores. E me protegem de mim. Eu quis, por deus, eu quis dizer qualquer coisa que te fizesse ver que seu afago é de um encaixe tímido mas certeiro ao meu. Eu quis dizer tanta coisa que se traduzisse num pedido de estadia. Fica. Fica entre dedos e toques meus. Fica entre olhos, lenços e timbres. Aprende a me ficar entre os olhares de quem não apenas está, mas permanece. Perene, entre dias e noites, entre ventos e despedidas. Fica entre as ausências e os retornos.

E deus sabe o quanto eu quis dizer que aprenderia a ficar também. Ainda que nas minhas constantes fugas e escapes, ainda que rodeada pelos ensejos e desatinos, eu quereria ficar. E quando os tilintares forem menores, quando o céu for de um fogo nublado, e o cinzeiros transbordarem solidões, eu digo que saberia permanecer em ti. E você em mim.

Mas quando os tons teus se deparam com os tons meus, emudeço. Não por não mais te querer. Se é que nesse pouco tempo deixei, por apenas um segundo, de respirar os perfumes teus. Apenas por medo de romper essa aura que me envolve. Então emudeço, me calo, me anulo para que você continue a me ser presença.

Mesmo querendo dizer qualquer coisa, qualquer pedido sórdido para que me seja laço e abraço, um desejo de te fazer moradia, pele habitada, não falo, não me arrisco pelo medo de ser exagero meu. Como uma mariposa que, num farfalhar de asas, se esvai, se afugenta. Então me obrigo no desassossego de te ter à distância. Meus olhos fixos nos risos frouxos, nos risos contidos. Entre meus olhos de soslaio te emano desejos de quem admira os últimos segundos das mariposas: não se mexa, não se vá. Não se vá. Não se vá.

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