toque gélido de um amor que era pra ser fogo, mas ainda é uma faísca congelada

São 3 da manhã. Sinto a solidão me abraçar a alma e o cigarro já não basta. Não o tipo necessário de solidão. Por deus, eu prezo pelos meus momentos de calmaria, onde me fecho e me isolo em mim, e tudo faz sentido. Ou não. É puro caos. Mas ainda é meu.

Digo que tem dias que o peito tem um peso indigesto. Nem cheio, nem vazio. Estranhamente desajustado à vida. Como num suspiro melancólico, um vento de domingo. Porque as companhias faltam, as conversas falham, os dias ficam nublados e abre-se um espaço inocupável do coração. Se eu te dissesse que tento, por deus, como tento ocupá-lo com um alguém. Mas é sempre nas esquinas sujas, nas tempestades no meio da multidão sem rosto, é sempre na massa decomposta que vaga entre um sinal aberto, um troco esquecido na mesa do bar, é lá que as almas se confrontam, se sintonizam. E a minha, deus, a minha se vincula aos estranhos, aos incomovíveis, aos que não se retribuem em estadias mais longas, em desejos de ficar.

Pois quando o vazio berra e o espaço vago fica cada vez mais presente, eu vejo a solitude me costurar os olhos. Eu sinto o toque gélido de um amor que era pra ser fogo, mas ainda é uma faísca congelada. Num rompante, num estrondo que nunca sei bem quando se iniciou, eu já me debrucei no meu afeto. No meu anseio de desejar e morrer em desejo. Quando me percebo, já bordei as cores, os olhos, os tons alheios. Escrevi na pele, consumi, devorei na ânsia de ter afeto. Morri de fome. Morro todas as vezes. Em cada sórdida vez que haveria de ser amor.

Me encurralo de amor. Me despejo de amor. Me alimento da asfixia de amar. E ainda assim morro da falta, da escassez do que não vem. Porque só o amor, por si, não basta. Não há de bastar nunca. Ele, pobre sentimento insuficiente, se exime do sentir-se e bastar-se. Ele suplica por ser somado. E eu insisto em manter-me muda. Amedrontada por pronunciar e deixar uma ferida aberta. Amedrontada pela fútil capacidade de deixar o amor virar amor. Deixar esse meu excesso de sentimento virar timbre, virar pronúncia na rouquidão sonora, e então eu não saber o que dizer e fazer e, sórdida, não saber o que sentir. Se, por fim, eu anunciar, morrerei de minhas angústias afetuosas. Só, e tão somente, porque o medo borda minhas tranças, minha tez, o medo de não saber o que fazer para continuar digna de um afeto recíproco me isola. Por fim, amo muda. Pra dentro e cada vez mais fundo. Acumulando amor em doses de engasgo. Seu afeto me dilacera.

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