Caligrafar

Vamos escrever sobre os dias nublados. E os filmes mudos. Vamos escrever sobre cafés frios, bebidas amargas. Sobre carteiras de cigarros vazias.

Vamos escrever em folhas brancas demais, nossa caligrafia borrada, nossa letra turva. Nossa essência fria

Vamos escrever sobre jantares solitários e flores mortas.

Flores despetaladas. Rosas negras. Vamos escrever até a última linha sobre mazelas e sentimentos crus e amargos e peitos apertados. Vamos falar sobre amores mal digeridos, brigadas espalhadas sobre o chão da sala. Vamos escrever sobre o medo, o abandono e a solidão.

Noites mal dormidas, camas vazias, sobre corpos que não são abraçados.

Vamos escrever sobre partidas. Pois todos sempre têm que partir e eu continuo a ficar. Eu sento no meu sofá interno e fico esperando a hora que os meus afetos irão embora. E para onde todos vão?

Vamos escrever até a tinta acabar. A dor acabar. Ou ser totalmente caligrafada.

Depois, quando a última linha for preenchida, você me vem. Me atravessa a sala e fica. Fica, pois depois de tantas letras só nos resta calmaria, sossego e riso frouxo. Só há de restar sol ameno, calor aconchegante. Há de restar um estar junto e isso há de bastar. Os espaços divididos e todo o resto se faz em páginas de ensejos.

Se vier, me basta. Não haverá necessidade de escrever o que será doce. Repito, para que seja leve, e há de ser. Se você vier, basta.

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