Aos afetos embaçados que nos salvam da sórdida crueza

Ah, menina. Você agora me chega como um sussurro esperado. Como uma palavra não dita por dias sem fim, mas que se aguarda, por deus, como eu aguardei. Atinei os ouvidos, silenciei a casa, baixei a televisão já quase muda, só pra me ater a todos os sons. Por dias foi um silêncio insuportável.

Mas chegou. Num dia, entre um café e um cigarro, entre o sofá marrom envelhecido e minha alma desgastada, você surgiu. Não, não quero que soe como se você fosse uma presença alimentada e criada e esperada. Você foi um surpresa doce, ainda que sabida.

Mas te digo num afago desnorteado: me és como a falta de meus óculos. Um embaçar de mundo onde apesar de tudo continuar exatamente caótico, eu apenas foco no que há de mais próximo. E eu, que me resguardo, me enlaço ainda que muda aos meus afetos, mantenho próximo o que me há de ser amor.

Quando, por fim, você se aproxima, é seu timbre, sua estadia, seu embaralhar que me atenta.

Por deus, eu te escreveria sinais de meu âmago amante em cada pedaço teu. Te entregaria os afetos doces e calmos e sórdidos e. Não só isso. Eu te admito em instabilidade. Só eu sei como me é sofrível retirar minhas lentes, baixar meus óculos, perder-me da segurança e da nítida visão do mundo. Pois, porra, o amor se sustenta na turva visão de que tudo é um pouco mais afável do que de fato é.

E se eu tenho medo, te admito, morro sufocada na necessidade de não mais ter. Quando sua tez me é tangível, quando seus olhos piscam próximos aos meus, a euforia e o amargor me abraçam. Tenho medo de te tocar, ainda que a ânsia dos dedos meus me deixem eufórica. Então estico o braço e me atenho, me detenho, só pelo medo tolo de que você possa se esvair. Se desmanchar em minha frente. Então me sossego em te olhar, me mantenho num registro contínuo de quem tu me és. Seus olhos. Cada ensejo, contorno, cada detalhe que eu sequer hei de mencionar.

Mas, pequena, saiba que te decoro, te contorno, te teço e bordo em meu eu para que, dia após dia, você e toda a paz que me causou, me sejam cada vez mais presentes. Ainda que silenciosamente presente em ti, teu afeto me causa estragos internos que, deus, ainda não sei lidar.

Ah, minha pequena, por fim te confesso que não saberia dizer uma palavra sequer. Mas que cada segundo de paz que me causa é um universo que me pergunto se sou eu que te mereço. Um espaço brando que carrega meu riso após tua chegada e eu, mergulhada nesse afetuar-me a ti, me pergunto se posso enfim te tocar com todos os meus dedos e ensejos.

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