O retrato de bem-te-quer

Hoje a xícara virou e a toalha branca estampou uma macha aflitiva.

Hoje o café esfriou mais rápido.

Mais amargo, o cigarro queimou ligeiro. Queimou meus dedos. Marcou um traço n’alma.

Hoje eu desliguei a televisão. Nada teve som. Nem cor.

Nem eu.

Sua foto na parede me estampa a saudade apertada. Sua roupa esquecida me lembra que a casa está vazia.

Sua vinda me desabrocha um riso frouxo. E o medo agora me dá ojeriza. Não por ti, nem por mim. Mas por essa aflitiva necessidade de sentir. Sentir, porra.

Eu que há muito não sentia nada, nem tormento, nem um peito apaziguado. Não tinha sol ameno, nem tempestade enfurecida.

E agora sua foto está pendurada na parede. No peito. Meus olhos olham os olhos teus, e você sequer aqui está.

Agora o café frio, manchado na toalha branca me faz acender outro cigarro. Me faz buscar um vinho tinto. Logo eu que sempre detestei bebidas doces. Mas é só pra ver se alguma coisa me recobra os toques seus. Toques doces. Amenos.

E quando não me liga, não me vem, morro me consumindo. Há algum resto teu entre meus dedos. Três garrafas, cigarros e uma solidão retumbante no meu peito.

Mas tudo bem, tudo bem. Os dias também têm sido complicados. Mas logo tu me retornas. Retornas? Há de vir com sua paz, seu riso e seus olhos que me desconcertam. Me vem para que então eu me dê a paz, a calmaria? O sossego de teus braços e abraços?

Juro que me retomo a consciência. Juro que amanhã começo a comer direito, largo o cigarro, esqueço dessas bebidas que me ardem a garganta. Mas me vem. Não me abandona alta e fodida, debruçada nessa mesa manchada da sua ausência. Não me esquece escorada na falta que você me faz. Não me mata dilacerada pelo não te ter e não te saber e não me saber também. Porra, me descubro bordada em ti. E agora me desmancho na sua não presença.

Entre esse trago e esse gole, te suplico. Me precise. Um pouco, apenas um terço do que te preciso agora. Olha pra trás antes de partir só pra eu ter certeza de que você vai, mas quer ficar. Vai, mas me retorna. Só pela certeza de que, porra, você vai mas me leva.

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