Entre minha alma e meu décimo suicídio

Você se perde entre as cortinas e os lençóis. Você me escapa como quem se desmancha entre os dedos meus, quase uma areia fina.

A cortina cobre seu olho esquerdo e ainda assim sua alma berra nessa sala. Te decoro em cada detalhe, mesmo os que não vejo. E eu me sento nesse sofá envelhecido esperando a solidão me abraçar. Porque ela sempre volta.

E mesmo que seus bilhetes me digam que o café está na mesa e você volta, eu sei, porra, eu sei que uma hora há de não voltar. Então me instalo sorrateira no seus bolsos. Me envolvo nos seus pulsos, pescoço e alma. Ocupo cada espaço teu para que, quando você se vá, reste lembranças em ti.

Mas tua presença me fere. Me rouba de mim. Tua presença é uma corda azul amarrando meus pulsos. Entao me espalho pela sala em mil pedaços. A sala que não te sustenta mais, a sala que teu corpo não ocupa, agora fica pequena demais pra me abrigar. Então continuo dilacerada pelo chão. Entre o sofá e seu canto favorito. Entre minha alma e meu décimo suicídio. Entre minha paz e minha guerra. Entre tudo que sou e que você me rouba. Por fim, me espalho entre me deixar ser em ti e o tempo que demora até seus bilhetes acabarem. Sua presença acabar. Eu acabar.

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