Sobram fins de tarde e buracos incuráveis n’alma

O reflexo me é uma fotografia incômoda. Me olho e quase não me reconheço nesse espelho um tanto sujo. Na verdade a dor que me dói e dilacera e faz sangrar é que, porra, eu me reconheço sim. Sou eu, nesse reflexo turvo e borrado, esse corpo que diz ser eu e sou, mas não deveria.

O que o tempo destrói em nós não reflete nesses espelhos. O que o tempo constrói também não. Mas as imagens refletidas são também construídas pelos olhos de quem as vê.

Sabe, eu poderia dizer um sem fim de amarguras tatuadas em minha pele, e diria muitas mais melodias que entristecem meus olhos e sujam esses reflexo. Mas hoje foi um dia pesado demais.

Me peguei presa em suas fotografias. Me peguei sorrindo pelas memórias que já me foram alegrias eufóricas, depois tornaram-se dores ferozes e cruéis, e agora são pequenos espaços que, por vezes, me retomam em subtas lembranças, ainda alegres e doloridas. Uma mistura incerta de passados e sentimentos. Mas eu sorri. Me apertou o peito, então eu chorei. Porque nossas fotos ainda preenchem espaços, lembranças, ainda culminam sentimentos e dores e dias que me foram seguros. Foram. Você me foi um porto, uma estadia, ainda que cheia de constantes surpresas. Você me foi uma brisa leve e um vendaval indomável. Você me foi. E se foi também.

Como há de ser. Tudo é um processo de chegar, criar raízes e despedie-se. Ficou o quanto devia, podia ou. Ficou pelo tempo que te foi preciso. Enquanto te fui precisa.

Essas imagens que agora me compõe um misto de saudades e ojeriza, um soco no estômago e uma lembrança amena, me refletem um outro eu que não sei pra onde foi, como e nem por que foi. Não sei o que restou de mim daqueles dias seguros e calmos e amáveis. Meus dias eram doces.

Agora os espaços se compõe de novos corpos e novas almas e novas essências que prometem preencher-me dessa segurança e euforia, mas eu guardei minha coragem num bolso tão fundo que sequer me arrisco a procura-la. Guardei minhas vontades de apresentar-me vulnerável e atirar-me nesse sem fim de incertezas, de um modo que não sei se quero reaprender a sentir. E se quero, não sei se posso ou se estou pronta. Deixar que outro te invada é um processo doloroso. Amar nada tem de doce ou bonito. Pois os amores são processos longos e sórdidos de deixar-se roubar. Deixar que um outro alguém te roube de ti sem garantia alguma que te devolve, ou que se doará também. E a gente nunca volta intacta. Nunca volta. Porra, a gente deixa a porta de casa aberta, depois entrega as chaves, o corpo e a essência. A gente vai se entregando como se em cada doar-se não houvesse um abismo de medo e corrosão dilacerando cada fragmento da nossa alma.

Amar é um modo de morrer e continuar respirando. Morrer e continuar aceitando a dor, como quem se deixa queimar apenas pela beleza da chama. Amar, por fim, é aceitar que a solidão também é sentida a dois. E depois sobram dores, cicatrizes e fotos. Sobram fins de tarde e buracos incuráveis n’alma. Sobram reflexos turvos de um alguém que pouco se parece com a alegria dividida nas velhas memórias. Uma chama corroendo com esplendor a beleza de nossos reflexos já manchados.

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Um tracejo menor que nada

Lá fora chove. Ou aqui dentro. Já não sei mais definir o que tem desaguado em mim. Os tons feios e os espaços escuros são manchas constantes em meus dias. Mentira. Os dias se acumularam e a tristeza se instaurou em mim há meses. Nenhuma luz tem recostado em minha pele.

A chuva faz um barulho que agoniza, enquanto isso tudo em mim é despedaçado. Um tracejo menor que nada, quase um estilhaço d’alma.

Alma. Quase não resta. Minha euforia incia em dias incertos e logo se consome. Me consome. Passo dias presa nessa fresta que me salva do meu abismo. Por deus, isso que me sustenta e me impede de cair é também o que me amarra, cerca. Minhas feridas não cicatrizam e em meus pulsos estão penduradas as dores de três vidas e nenhuma paz.

A tristeza se mistura ao escuro e tudo vira um breu pesado demais. Sobe pelos meu dedos, pulsos, braços e me embala pela noite. Uma música sofrida. Um som mudo que me tampa os ouvidos. Vou ouvindo pra dentro, cada vez mais fundo em mim. Cada vez mais ensurdecedor. Meu peito dói pelo silêncio que não vem. As noites são longas e os dias quase nunca nascem.

Os braços frios dos poemas de morte se misturam ao alcance das garrafas e cigarros e drogas e calmantes. Porra, e qualquer coisa que me afaste de mim.

Não tem mais luz. Na rua acabara há pouco. Em mim nem lembro mais.

Recitar

Eu poderia escrever um sem  fim de linhas. Preencher essas folhas quase brancas, um tanto envelhecidas, com todas as rimas tuas. Só eu sei quanta poesia já achei em seus cabelos macios.

Eu poderia ainda falar sobre tantos encantos teus e vozes e cores e o modo descompassado que você guia seus olhos quando não sabe ao certo o que fazer. Eu ainda falaria de suas manias, de seus versos, de sua rima e de todo o seu eu. Falaria da calmaria e do caos que meus dias ficam ao lado teu. Falaria sobre como já listei seus trejeitos que mais me fazem sorrir, e, por deus, as folhas seriam poucas, escassas.

Eu poderia passar dias em meus relatos mudos sobre meu afeto que berra na rua vazia. Talvez você não saiba ao certo que tu tamborilas doze melodias em mim e cada uma tem me acompanhado por entre as linhas preenchidas.

Eu falaria tantas mais coisas que não haveria dias, meses ou espaço para listar. Tudo bem, sem me ler em minhas entregas amantes, apenas te entrego uma folha branca e um coração lotado.

cena repetida um milhão de vezes e em nenhuma delas você permanece em mim.

O seu não estar aqui anda ressoante e amargo. A falta tua torna-se cada vez mais tangível e intragável do que toda a sua presença, e, por deus, ainda que você não tenha de fato partido, também nunca chegou. Nunca me veio em distração, em permanência, nunca me chegou com ensejos de permanecer, de florescer nesse meu eu que sufoca em cada suspiro teu.

Ah, pequena, eu haveria de ter coragem de te bordar em sete tons oa meus afetos por ti. Eu que te escrevi um sem fim de confissões em cartas nunca lidas, nunca entregues, me admito que deveria ter a coragem de te enunciar esse precisar de ti, assim como bordei nas paredes dessa suja essência minha que, porra, te preciso. Te preciso entre todos os seus toques e dedos e alma. Entre as estadias curtas e cada riso frouxo. Te preciso mesmo sem precisar, pois me deixo embalar no ritmo do seu timbre. Menina, decorei cada pífio trejeito teu e, amando, tatuei na pele minha. Te preciso.

Mas você me recobre da sua insistência de não chegar. Não estar. E numa insustentável tentativa de enlaçar meus afetos aos teus, eu me dilacero, morro caindo no precipício de mim mesma. E sempre antes de atingir o chão, e perceber-me sozinha nisso que chama-se Nós, eu repito tola e inutilmente Eu estou aqui. Estou aqui. Estou aqui. Três vezes, quase uma simpatia, quase uma súplica doce para que, quem sabe, você me note e me queria mais só que nas suas espaçadas vontades de mim.

Mas somente eu estou. Na casa que fica grande demais em meio à minha solidão, você a ocupa só com o seu não estar. E isso que deveria ser amor é tão somente uma cena repetida um milhão de vezes e em nenhuma delas você permanece em mim.

É preciso coragem, menina. Uma coragem danada pra ir embora. Logo eu que mal sei te pronunciar meus afetos por medo de te ser muito, de exagerar minha presença, também não me desvincilho de ti, não tiro suas memórias dos bolsos, não parto dessa casa. Não sei abandonar seus olhos calmos.

Morro uma centena de vezes em cada silêncio seguido da certeza de que continuo sendo por dois. E ainda assim aceito. Não vou embora e te admito em cada retorno. Não abandono a casa e mesmo que cruel, permaneço tingindo em solitude com cem tons diferentes meu afeto.  Continuo pintando até a folha rasgar, o lápis quebrar, até minha alma ferir incurável. Só assim, talvez, eu mate em mim esse ser por dois e que deveria ser em dois.

Mas não suporto as feridas suas. Não suporto a dor em ti. Então me recubro de você, me escoro em suas histórias e vontades, me cubro da essência tua e aceito cada dor e cada medo, só para que não haja dor e medo em ti. Tomo tuas vontades para que elas sejam minhas também, mesmo que morrendo por cada uma delas serem opostas aos desejos meus.

Por fim, pequena, eu repito todos os dias que não há em mim coragem de ser nada além disso, desse sórdido eu que apenas se equilibra entre o medo do excesso e da ausência. Me tornei alguém que existe tão somente pra sustentar o afeto mudo. Sempre há alguém a romper o sentimento pela morte constante de si próprio, quem dera não fosse eu.

Meu afeto mudo pra calar a solidão

Hoje minhas reservas se esgotaram. Mesmo quando os dias iniciam em calmaria, há de ocorrer tempestuosas aflições. O dia consumiu metade de mim, e a outra metade está dilacerada entre o mal-me-quer do teu jardim. Consumiu minha paz e brisa leve, consumiu a respiração e meus dedos sobre os teus.

Meu dia calmo esfriou os cafés. Os cafés amargos que você costumava beber mancharam o chão da sala, se espalharam pela mesa, amargaram minh’alma também.

Meu amor foi recoberto do não mais querer as lembranças em casa, em mim. Nem as boas. Por isso te peço, pega tuas coisas. Tuas blusas esquecidas e derrubadas na beirada da cama, pega tuas fotos, teu perfume fixado nas paredes, pega tuas lembranças todas e se retira de mim. Fecha a porta para que não haja risco de nenhum retorno, nenhum incômodo.

Ah, pequena, mas eu te peço perdão. Não soube lidar com seus ventos inconstantes, não soube dar ritmo à valsa tua. Pisei nas bordas de nossa roupa e acabei despida. Precisei dos seus sentimentos para o meu calor e morri de frio. Por deus, dias e mais dias tentando me aquecer de um afeto que viria tão somente pra me provocar risos doces, mas não mais. Nunca mais do que meus olhos caçando os seus, não mais do que a constante e fatigada descoberta de que seus olhos não acham os meus. E eu constantemente cruzei o seu olhar. Eu busquei, eu me joguei num sem fim de falas tuas pra ver se você me verbalizava, mas morri muda em sua boca. Sou uma palavra que queria ser dita, mas foi guardada. Cansei de ser a linha mal escrita da tua folha manchada de vinho.

Pois te peço agora, com meu peito desmanchado em mil retalhos, pega as coisas tuas, as roupas e fotos, pega o perfume fixado nas paredes, as memórias vividas em cada cômodo, pega a saudade que vai  habitar junto à ausência que irá se instalar na casa e em mim. Pega tudo que há de ser teu e vai. Bate a porta e emudece de vez em mim, já que nunca soube, de fato, me ser um tilintar dançante, só um barulho alto demais que me ensurdeceu aos poucos, me tirou a paz e as noites de sono. Me tirou de mim.

E por fim te peço, num apreço sôfrego, leva também o que couber de mim em ti. Seja a lembrança ou meu eu inteiro, de corpo, alma, vísceras e meu afeto mudo.

Amar é um ato de abandono

Então completo minhas solitudes com sua foto amassada, numa sôfrega tentativa de me ocupar de ti. Dobrada ao meio onde só me importa a metade tua. E tudo em mim morre pelo vazio que me ocupa. Por deus, menina, eu passaria um sem fim de vida olhando sua imagem. Num retrato doce, repito, doce, eu decoro os olhos teus, eu decoro a alma tua.
Eu queria falar sobre sua foto, só deus sabe como eu falaria por linhas e mais linhas da sua imagem, que me parece feliz e calma e. Falaria que me deu um aperto danado no coração de te olhar. Menina, o amor morreu e ressurgiu sórdido e avassalador 3  vezes enquanto olhei aquele papel meio amassado, meio mal amado – não sei te ser o afeto que seu timbre tilinta. Aproximei do peito só pra te ter mais perto. Meu amor é quase uma súplica. O seu, uma renúncia.

Meu amor morreu novamente enquanto me dei conta de seus olhos despretensiosos fotografados. De seu riso frouxo, de sua alma estampada numa essência leve. Te contornei em três tons de afeto e agora te bordo em minha pele só pra te ter mais perto.

Amar também é se despedir. Sim, minha pequena. Passamos dias inseridos em profunda solidão, mas quando enfim cedemos aos afetos esquivos do mundo, quando ainda que em resistências aceitamos a invasão de uma alma inteiramente estranha à nossa, iniciamos um processo igualmente cruel de despedidas.

Ah, veja como os desejos constroem sórdidas ilusões: os dias pesados e sujos e mal amados são sentidos e vividos e somados a mais dias vazios. Um rotina crua e quase morta, repetida dezenas e dezenas de vezes. Nossos dias ficam nublados e o cinza nos deixa em modo automático. Ah, menina, me diz que não andou passando uns períodos de desligamento, sem novidades, sem perspectiva?

Mas alguém surge em meio às tardes mudas, e em meio às brisas amenas a gente deixa escapar das mãos nosso querer estar só. Amar é um ato de abandono. Deixei que o vento, ainda calmo, levasse o cinza dos meus dias, a paz do silêncio, deixei que levasse a rotina repetida e a trégua d’alma.

Menina, te digo em suplício, no início tudo me fora um sinal do flagelo, mas aceitara e quisera e até mesmo vibrara pelo desassossego que me embalou e haveria de me engolir. Consenti. Somos humanamente tolos, quase num anseio por quem nos faça sangrar em troca de alguma segurança. A dor é sempre mais pungente do que os abraços em meio às tardes de caos.

Então os ventos sopraram mais forte e o que antes apenas me bagunçava os cabelos, me arrepiou a pele. Mas ainda numa sinestesia ímpar. Num dar-me sentido ao que eu não mais sentia. O amor me levou a solidão dos dias. Soprou forte e me arrancou o conforto de estar só. Aos poucos, me arrancou a paz, a rotina e me tirou do meu caminho diário.

Mas sua presença me era escassa e frágil. Uma proteção que pouco me afincava ao chão. Um casaco que não me protegera mais dos ventos. E agora eles são fortes, vendavais que me roubaram os dias bons, as músicas doces e a paz do cerne. O amor arrancou as cortinas e você não veio para fechar as janelas. Eles destruiu a casa, me despedaçou pelo chão. Fiquei três dias ou uma vida inteira, já não sei dizer, estilhaçada no meio desse caos, e você não me foi amor.

Mas amar é despedir-se. Eu me despedi da calidez e da quietude. Me despedi da solidão bem-vinda nos meus cafés. Me despedi da paz e dos dias bons. Então me despedi dos risos leves e da esperança de suportar o vendaval. Agora, menina, estou ainda juntando os pedaços, mas começo a me despedir de você. Seu amor não me sustenta, não me assegura e não me assossega. Seu amor não me vem em dia certo, nem em horas alternadas. Seu amor não me aquece em meio ao caos que ele me causa. Me tirou a roupa, a pele e a alma, e mesmo que eu tenha me vestido de ti, a porra do seu amor não me recobre. Tenho morrido de frio em meio ao inferno.

Me despeço de você para que possa o vendaval amenizar, apaziguar. Preciso juntar o que resta de mim.

Veja, pequena. Não é que eu não queira o caos que tua presença me causa. Quero. Porra, te quero num sem fim de dias, te quero como quem se sustenta apenas pelo existir alheio. Mas nada em ti me garante presença, estadia. Então se me vens, eu aceito num ato de sobreviver e ver todo o amor soprar para a alma tua. Mas quando tu me vais, sem retorno, sem garantia de volta, eu retorno a me estilhaçar em tantos pedaços que nada parece capaz de me organizar novamente.

O que eu te digo se tudo em mim te é amor, num querer mais do que bem-querer, mas tudo em mim sufoca pela falta do teu corpo e tua alma e teu eu? Sou consumida pela falta da presença, do toque. Morri três vezes na última linha, menina. Morri com a calma dos seus olhos fotografados em mim.

 

dez toques mudos e o amor calou

Dois, três, oito toques e nenhuma voz pra me acalmar. O silêncio às vezes é uma persistência dolorida. O telefone tocou por dezenas de vidas e nenhuma alma me atendeu. Sabe, menina, liguei porque senti um vazio, um peito amargo e pesado. Meu sofá pareceu grande e meu café gelado demais. Não teve mais timbre seu nos últimos tempos. Não teve mais café compartilhado. E mesmo quando me esforço para encontrar barulhos pela casa, seus passos apressados ou quem sabe sua respiração, eu vejo que não há. A casa anda incomodamente quieta.

Vou te contar uma besteira que aconteceu hoje. Dessas coisas vagas e bonitas que acontecem, mas geralmente ninguém percebe. Eu tava bem no meio do meu vazio, caoticamente perdida nos meus pensamentos, e entre um suspiro e uma angustia me tocando a alma, um cílio meu caiu. Besta, né? Mas eu estava escorada na mesa e senti ele me roçar a pele e cair, feito uma lágrima. Acho que ele foi a lágrima que não consegui expurgar hoje.

Lembro de um dia calmo, entre seus abraços e estadias frequentes, entre os filmes doces e as músicas calmas, numa daquelas tardes ensolaradas onde eramos muito mais nós do que qualquer essência há de traduzir, você viu um cílio meu cair e pairar em meu rosto. E num ato tão singelo quanto afetuoso, guardou-o.

Eu caí com meu cílio hoje. Numa queda pesada e triste, me arremessei ao chão. Naquela tarde onde guardara meu cílio, ele caíra doce e ameno. E você guardou ele num gesto de me guardar por dias sem fim. Guardou.

Às vezes penso que esses pequenos acontecimentos, quase banais, tomam significados tão imensos. Eu continuei guardada em seus bolsos, entre sua camisa e o peito nu. Fiquei ali e não mais cai. Mas assim como quem parte leva e deixa coisas, você partiu e meu cílio virou lembrança perdida. Virou história.

Porque, só deus sabe, o amor me foi uma corrente vibrante que percorreu meu corpo naquele dia. E hoje, essa memória me traz seis tons de uma melodia triste e solitária.

Você sequer ouve meus telefonemas mudos. Você não há de ver a saudade derrubada e escorrida me tocando a pele. Oito, nove toques. Esperei o décimo só pela certeza de que o amor não é um toque estridente.

Sua vinda espaçada entre o mau me quer e sua flor despetalada

Queria te escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Queria escrever uma carta, um bilhete amassado só pra te enunciar esse aperto que tenho sentido. Não é por você, não é pela culpa, sequer é pelo medo. É que me enclausuro, por vezes, nesses períodos patéticos de precisar mas não saber escrever. Uma necessidade aflitiva de borrar e rabiscar um pedaço qualquer de papel só pra que os sentimentos não me consumam por inteiro, não me dilacerem.

Mas olha pra mim. Olha e me diz se pode me ver. Porque agora me sinto destroçada pelo chão da sala. Me sinto em mil pedaços que nunca saberei juntar novamente. Mas tudo bem, depois da meia noite as luzes são forçadamente apagadas e a rua toda fica num breu silencioso. Eu fico também. Aqui dentro é um deserto sem fim. Meu medo percorre cem vezes meus pulsos e me ateiam penumbras do caos. Minha necessidade de ser voz, ser tom, ser cor morre engasgada nos meus silêncios. Então te peço perdão por quase nunca saber o que dizer. Porra, eu sei. Sei bem o que quero e o que devo dizer. E queria dizer pra ficar. Eu já te disse? Porque quando você suspira eu tenho uma vontade danada de te enlaçar. E tudo que posso fazer é continuar rabiscando esses pedaços sujos de papel amassado. Só posso escrever cem linhas tortas, em cem páginas velhas, sobre meu sem fim de amor amargo. A gente vai respirar afeto por cem dias e depois as luzes se apagam pra sempre.

Ah, pequena. Não é por maldade. Mas você que não me conhece entre meu caos e meu desassossego. Pois te escrevo e repouso meu papel na cabeceira, na mesa, no braço do sofá. Despretensiosamente esqueço meus bilhetes pelos cantos da casa para que assim, quem sabe, você descuidadamente leia-os. E nesses bilhetes torpes eu confesso um âmago em segredos e minha vida termina aqui. A gente morre um tanto todo dia. Mas tudo bem, eu ainda tô esperando seus cafés amargos me recobrarem a vontade viver. Ah, pequena, me cansa tanto despejar meus timbres de vida na vida alheia. Me cansa – ainda que não pareça – ser quem sou: uma alma meio suja buscando um socorro e salvação.

Mas, veja só!, passa de meia noite e as luzes se apagaram. O silêncio me rouba a atenção e você não bateu à porta.Você não tem batido ultimamente. Meus pulsos andam rodeados de sofridão. Mas eu continuo esperando suas visitas. Seu timbre pela casa. Sua vinda espaçada entre o mau me quer e sua flor despetalada. Mas tudo bem – Escuta! Faz-se silêncio lá fora, mas aqui é um caos eterno. Tá ouvindo o barulho? Tá ouvindo um corpo meio vago que emudece em respeito às luzes apagadas? Não quero assustar quem fenece de fora pra dentro.

Mas eu repito: tudo bem. Tudo bem, pequena. Meus bilhetes já estão longos pra quem não sabe o que dizer. Adormeço para que as horas passem depressa. Tomo cafés amargos e calmantes pesados. Tomo chá de camomila e confesso no espelho um amor que ninguém mais há de ouvir. Meu afeto me causa ojeriza. Pobres de nós, menina.

Mas me deito num quarto escuro esperando meus fantasmas me devorarem. Me comem a alma, o cerne e a carne. Espero sangrar, mas acho que só me restam lágrimas pesadas demais. Vou me deitar e esperar você não mais voltar. Porque ainda que tão somente te confesse amor no mais sórdido dos meus delírios, amo. E ainda que minha confissão seja rabiscada em bilhetes ilegíveis, morro nesse amor. Mas sei, por deus, sei que não te abandono nunca. Que por dias e meses e anos sem fim eu esperaria suas vindas. Esperaria suas visitas ainda que minha alma um tanto resignada já não espere mais. Mas é o que se repete sempre: eu adormeço pelo cansaço do aguardo. Ninguém vem por muito tempo. Você não há de vir também.

Mas te peço, calma e incondicionalmente, junta esses papéis velhos antes de sair e não mais voltar. Junta suas memórias caligrafadas em folhas sujas. Junta tudo que te és de direito e de relato. E leva embora para que nada disso me berre tua presença. Depois da meia noite tudo é silêncio, mas tuas memórias são copos de vidro arremessados contra meu peito.

Suplício de Tântalo

Pequena, olha que besteira te conto agora. Me promete que não ri, porque é serio, mas é bonito ao mesmo tempo. Hoje na rua vi uma frase rabiscada na parede “foi tao bom que ate os vizinhos acenderam um cigarro”. menina, juro pra você que na hora pensei em nós. Sabe quantos cigarros tenho acendido durante suas vindas? Não sabe. É claro que não sabe porque você não sabia que pouco fumava antes de tu me chegares. Que me era um vício cíclico de minhas angústias, e que somente os dias de alma nublada me causavam regojizo por tragar. Talvez, e digo apenas talvez, a solidão me cobrasse ter algo nas mãos. E já que os dias eram mudos e frios e crus e solitários, os cigarros me eram companhias que ocupavam meu sentir, me causam seguranças por consumir qualquer outra coisa que não eu mesma. Digo num misto de agonia e euforia: trago um sem fim de cigarros só pra tentar acender sua alma, sua essência. Esse você que não me deixa chegar perto, mas não permite que me afaste. E, por deus, como isso me dilacera e me reconstrói tão somente pra me estilhaçar novamente. Pois tu me és a distância. O risco que me convida a pular o abismo que eu sei não alcançar. Então fumo toda a carteira para acalmar a alma, sossegar a dor que me corrói o cerne. Mais um me jurando ser o último, e eu que queria te ter entre os dedos meus continuo segurando apenas esses cigarros que beiram me queimar os dedos, a alma. Me sustento na tentativa de não te perder mesmo que nada me assegure sua estadia. Então emudeço e mantenho esse abismo distante, porque se não te alcanço, também não te assusto. Estou sendo sordidamente humana e sentimental, alimentando um afeto que me atiça apenas pelo espaço retumbante que me afasta. Te ensejo sem fim porque me és de uma distância que finjo ser incólume. E posso fingir por um sem fim de vidas, só para que ainda haja proximidade o bastante para eu me machucar pelo seu não estar. E numa sádica tentativa de gostar de mim, eu te venero num amor que só me desassossega num timbre cruel. Morro. De novo. Uma centena de vezes e queimo meus dedos na brasa, nos seus olhos. Eu queimo e você acende um cigarro em mim. Então fumo mais um só pra te acompanhar. Mas tudo bem. Tudo bem. Os amores têm matado muita gente também. A morte é lenta e a dor insustentável.