Sua vinda espaçada entre o mau me quer e sua flor despetalada

Queria te escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Queria escrever uma carta, um bilhete amassado só pra te enunciar esse aperto que tenho sentido. Não é por você, não é pela culpa, sequer é pelo medo. É que me enclausuro, por vezes, nesses períodos patéticos de precisar mas não saber escrever. Uma necessidade aflitiva de borrar e rabiscar um pedaço qualquer de papel só pra que os sentimentos não me consumam por inteiro, não me dilacerem.

Mas olha pra mim. Olha e me diz se pode me ver. Porque agora me sinto destroçada pelo chão da sala. Me sinto em mil pedaços que nunca saberei juntar novamente. Mas tudo bem, depois da meia noite as luzes são forçadamente apagadas e a rua toda fica num breu silencioso. Eu fico também. Aqui dentro é um deserto sem fim. Meu medo percorre cem vezes meus pulsos e me ateiam penumbras do caos. Minha necessidade de ser voz, ser tom, ser cor morre engasgada nos meus silêncios. Então te peço perdão por quase nunca saber o que dizer. Porra, eu sei. Sei bem o que quero e o que devo dizer. E queria dizer pra ficar. Eu já te disse? Porque quando você suspira eu tenho uma vontade danada de te enlaçar. E tudo que posso fazer é continuar rabiscando esses pedaços sujos de papel amassado. Só posso escrever cem linhas tortas, em cem páginas velhas, sobre meu sem fim de amor amargo. A gente vai respirar afeto por cem dias e depois as luzes se apagam pra sempre.

Ah, pequena. Não é por maldade. Mas você que não me conhece entre meu caos e meu desassossego. Pois te escrevo e repouso meu papel na cabeceira, na mesa, no braço do sofá. Despretensiosamente esqueço meus bilhetes pelos cantos da casa para que assim, quem sabe, você descuidadamente leia-os. E nesses bilhetes torpes eu confesso um âmago em segredos e minha vida termina aqui. A gente morre um tanto todo dia. Mas tudo bem, eu ainda tô esperando seus cafés amargos me recobrarem a vontade viver. Ah, pequena, me cansa tanto despejar meus timbres de vida na vida alheia. Me cansa – ainda que não pareça – ser quem sou: uma alma meio suja buscando um socorro e salvação.

Mas, veja só!, passa de meia noite e as luzes se apagaram. O silêncio me rouba a atenção e você não bateu à porta.Você não tem batido ultimamente. Meus pulsos andam rodeados de sofridão. Mas eu continuo esperando suas visitas. Seu timbre pela casa. Sua vinda espaçada entre o mau me quer e sua flor despetalada. Mas tudo bem – Escuta! Faz-se silêncio lá fora, mas aqui é um caos eterno. Tá ouvindo o barulho? Tá ouvindo um corpo meio vago que emudece em respeito às luzes apagadas? Não quero assustar quem fenece de fora pra dentro.

Mas eu repito: tudo bem. Tudo bem, pequena. Meus bilhetes já estão longos pra quem não sabe o que dizer. Adormeço para que as horas passem depressa. Tomo cafés amargos e calmantes pesados. Tomo chá de camomila e confesso no espelho um amor que ninguém mais há de ouvir. Meu afeto me causa ojeriza. Pobres de nós, menina.

Mas me deito num quarto escuro esperando meus fantasmas me devorarem. Me comem a alma, o cerne e a carne. Espero sangrar, mas acho que só me restam lágrimas pesadas demais. Vou me deitar e esperar você não mais voltar. Porque ainda que tão somente te confesse amor no mais sórdido dos meus delírios, amo. E ainda que minha confissão seja rabiscada em bilhetes ilegíveis, morro nesse amor. Mas sei, por deus, sei que não te abandono nunca. Que por dias e meses e anos sem fim eu esperaria suas vindas. Esperaria suas visitas ainda que minha alma um tanto resignada já não espere mais. Mas é o que se repete sempre: eu adormeço pelo cansaço do aguardo. Ninguém vem por muito tempo. Você não há de vir também.

Mas te peço, calma e incondicionalmente, junta esses papéis velhos antes de sair e não mais voltar. Junta suas memórias caligrafadas em folhas sujas. Junta tudo que te és de direito e de relato. E leva embora para que nada disso me berre tua presença. Depois da meia noite tudo é silêncio, mas tuas memórias são copos de vidro arremessados contra meu peito.

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