dez toques mudos e o amor calou

Dois, três, oito toques e nenhuma voz pra me acalmar. O silêncio às vezes é uma persistência dolorida. O telefone tocou por dezenas de vidas e nenhuma alma me atendeu. Sabe, menina, liguei porque senti um vazio, um peito amargo e pesado. Meu sofá pareceu grande e meu café gelado demais. Não teve mais timbre seu nos últimos tempos. Não teve mais café compartilhado. E mesmo quando me esforço para encontrar barulhos pela casa, seus passos apressados ou quem sabe sua respiração, eu vejo que não há. A casa anda incomodamente quieta.

Vou te contar uma besteira que aconteceu hoje. Dessas coisas vagas e bonitas que acontecem, mas geralmente ninguém percebe. Eu tava bem no meio do meu vazio, caoticamente perdida nos meus pensamentos, e entre um suspiro e uma angustia me tocando a alma, um cílio meu caiu. Besta, né? Mas eu estava escorada na mesa e senti ele me roçar a pele e cair, feito uma lágrima. Acho que ele foi a lágrima que não consegui expurgar hoje.

Lembro de um dia calmo, entre seus abraços e estadias frequentes, entre os filmes doces e as músicas calmas, numa daquelas tardes ensolaradas onde eramos muito mais nós do que qualquer essência há de traduzir, você viu um cílio meu cair e pairar em meu rosto. E num ato tão singelo quanto afetuoso, guardou-o.

Eu caí com meu cílio hoje. Numa queda pesada e triste, me arremessei ao chão. Naquela tarde onde guardara meu cílio, ele caíra doce e ameno. E você guardou ele num gesto de me guardar por dias sem fim. Guardou.

Às vezes penso que esses pequenos acontecimentos, quase banais, tomam significados tão imensos. Eu continuei guardada em seus bolsos, entre sua camisa e o peito nu. Fiquei ali e não mais cai. Mas assim como quem parte leva e deixa coisas, você partiu e meu cílio virou lembrança perdida. Virou história.

Porque, só deus sabe, o amor me foi uma corrente vibrante que percorreu meu corpo naquele dia. E hoje, essa memória me traz seis tons de uma melodia triste e solitária.

Você sequer ouve meus telefonemas mudos. Você não há de ver a saudade derrubada e escorrida me tocando a pele. Oito, nove toques. Esperei o décimo só pela certeza de que o amor não é um toque estridente.

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