Amar é um ato de abandono

Então completo minhas solitudes com sua foto amassada, numa sôfrega tentativa de me ocupar de ti. Dobrada ao meio onde só me importa a metade tua. E tudo em mim morre pelo vazio que me ocupa. Por deus, menina, eu passaria um sem fim de vida olhando sua imagem. Num retrato doce, repito, doce, eu decoro os olhos teus, eu decoro a alma tua.
Eu queria falar sobre sua foto, só deus sabe como eu falaria por linhas e mais linhas da sua imagem, que me parece feliz e calma e. Falaria que me deu um aperto danado no coração de te olhar. Menina, o amor morreu e ressurgiu sórdido e avassalador 3  vezes enquanto olhei aquele papel meio amassado, meio mal amado – não sei te ser o afeto que seu timbre tilinta. Aproximei do peito só pra te ter mais perto. Meu amor é quase uma súplica. O seu, uma renúncia.

Meu amor morreu novamente enquanto me dei conta de seus olhos despretensiosos fotografados. De seu riso frouxo, de sua alma estampada numa essência leve. Te contornei em três tons de afeto e agora te bordo em minha pele só pra te ter mais perto.

Amar também é se despedir. Sim, minha pequena. Passamos dias inseridos em profunda solidão, mas quando enfim cedemos aos afetos esquivos do mundo, quando ainda que em resistências aceitamos a invasão de uma alma inteiramente estranha à nossa, iniciamos um processo igualmente cruel de despedidas.

Ah, veja como os desejos constroem sórdidas ilusões: os dias pesados e sujos e mal amados são sentidos e vividos e somados a mais dias vazios. Um rotina crua e quase morta, repetida dezenas e dezenas de vezes. Nossos dias ficam nublados e o cinza nos deixa em modo automático. Ah, menina, me diz que não andou passando uns períodos de desligamento, sem novidades, sem perspectiva?

Mas alguém surge em meio às tardes mudas, e em meio às brisas amenas a gente deixa escapar das mãos nosso querer estar só. Amar é um ato de abandono. Deixei que o vento, ainda calmo, levasse o cinza dos meus dias, a paz do silêncio, deixei que levasse a rotina repetida e a trégua d’alma.

Menina, te digo em suplício, no início tudo me fora um sinal do flagelo, mas aceitara e quisera e até mesmo vibrara pelo desassossego que me embalou e haveria de me engolir. Consenti. Somos humanamente tolos, quase num anseio por quem nos faça sangrar em troca de alguma segurança. A dor é sempre mais pungente do que os abraços em meio às tardes de caos.

Então os ventos sopraram mais forte e o que antes apenas me bagunçava os cabelos, me arrepiou a pele. Mas ainda numa sinestesia ímpar. Num dar-me sentido ao que eu não mais sentia. O amor me levou a solidão dos dias. Soprou forte e me arrancou o conforto de estar só. Aos poucos, me arrancou a paz, a rotina e me tirou do meu caminho diário.

Mas sua presença me era escassa e frágil. Uma proteção que pouco me afincava ao chão. Um casaco que não me protegera mais dos ventos. E agora eles são fortes, vendavais que me roubaram os dias bons, as músicas doces e a paz do cerne. O amor arrancou as cortinas e você não veio para fechar as janelas. Eles destruiu a casa, me despedaçou pelo chão. Fiquei três dias ou uma vida inteira, já não sei dizer, estilhaçada no meio desse caos, e você não me foi amor.

Mas amar é despedir-se. Eu me despedi da calidez e da quietude. Me despedi da solidão bem-vinda nos meus cafés. Me despedi da paz e dos dias bons. Então me despedi dos risos leves e da esperança de suportar o vendaval. Agora, menina, estou ainda juntando os pedaços, mas começo a me despedir de você. Seu amor não me sustenta, não me assegura e não me assossega. Seu amor não me vem em dia certo, nem em horas alternadas. Seu amor não me aquece em meio ao caos que ele me causa. Me tirou a roupa, a pele e a alma, e mesmo que eu tenha me vestido de ti, a porra do seu amor não me recobre. Tenho morrido de frio em meio ao inferno.

Me despeço de você para que possa o vendaval amenizar, apaziguar. Preciso juntar o que resta de mim.

Veja, pequena. Não é que eu não queira o caos que tua presença me causa. Quero. Porra, te quero num sem fim de dias, te quero como quem se sustenta apenas pelo existir alheio. Mas nada em ti me garante presença, estadia. Então se me vens, eu aceito num ato de sobreviver e ver todo o amor soprar para a alma tua. Mas quando tu me vais, sem retorno, sem garantia de volta, eu retorno a me estilhaçar em tantos pedaços que nada parece capaz de me organizar novamente.

O que eu te digo se tudo em mim te é amor, num querer mais do que bem-querer, mas tudo em mim sufoca pela falta do teu corpo e tua alma e teu eu? Sou consumida pela falta da presença, do toque. Morri três vezes na última linha, menina. Morri com a calma dos seus olhos fotografados em mim.

 

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