Meu afeto mudo pra calar a solidão

Hoje minhas reservas se esgotaram. Mesmo quando os dias iniciam em calmaria, há de ocorrer tempestuosas aflições. O dia consumiu metade de mim, e a outra metade está dilacerada entre o mal-me-quer do teu jardim. Consumiu minha paz e brisa leve, consumiu a respiração e meus dedos sobre os teus.

Meu dia calmo esfriou os cafés. Os cafés amargos que você costumava beber mancharam o chão da sala, se espalharam pela mesa, amargaram minh’alma também.

Meu amor foi recoberto do não mais querer as lembranças em casa, em mim. Nem as boas. Por isso te peço, pega tuas coisas. Tuas blusas esquecidas e derrubadas na beirada da cama, pega tuas fotos, teu perfume fixado nas paredes, pega tuas lembranças todas e se retira de mim. Fecha a porta para que não haja risco de nenhum retorno, nenhum incômodo.

Ah, pequena, mas eu te peço perdão. Não soube lidar com seus ventos inconstantes, não soube dar ritmo à valsa tua. Pisei nas bordas de nossa roupa e acabei despida. Precisei dos seus sentimentos para o meu calor e morri de frio. Por deus, dias e mais dias tentando me aquecer de um afeto que viria tão somente pra me provocar risos doces, mas não mais. Nunca mais do que meus olhos caçando os seus, não mais do que a constante e fatigada descoberta de que seus olhos não acham os meus. E eu constantemente cruzei o seu olhar. Eu busquei, eu me joguei num sem fim de falas tuas pra ver se você me verbalizava, mas morri muda em sua boca. Sou uma palavra que queria ser dita, mas foi guardada. Cansei de ser a linha mal escrita da tua folha manchada de vinho.

Pois te peço agora, com meu peito desmanchado em mil retalhos, pega as coisas tuas, as roupas e fotos, pega o perfume fixado nas paredes, as memórias vividas em cada cômodo, pega a saudade que vai  habitar junto à ausência que irá se instalar na casa e em mim. Pega tudo que há de ser teu e vai. Bate a porta e emudece de vez em mim, já que nunca soube, de fato, me ser um tilintar dançante, só um barulho alto demais que me ensurdeceu aos poucos, me tirou a paz e as noites de sono. Me tirou de mim.

E por fim te peço, num apreço sôfrego, leva também o que couber de mim em ti. Seja a lembrança ou meu eu inteiro, de corpo, alma, vísceras e meu afeto mudo.

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