cena repetida um milhão de vezes e em nenhuma delas você permanece em mim.

O seu não estar aqui anda ressoante e amargo. A falta tua torna-se cada vez mais tangível e intragável do que toda a sua presença, e, por deus, ainda que você não tenha de fato partido, também nunca chegou. Nunca me veio em distração, em permanência, nunca me chegou com ensejos de permanecer, de florescer nesse meu eu que sufoca em cada suspiro teu.

Ah, pequena, eu haveria de ter coragem de te bordar em sete tons oa meus afetos por ti. Eu que te escrevi um sem fim de confissões em cartas nunca lidas, nunca entregues, me admito que deveria ter a coragem de te enunciar esse precisar de ti, assim como bordei nas paredes dessa suja essência minha que, porra, te preciso. Te preciso entre todos os seus toques e dedos e alma. Entre as estadias curtas e cada riso frouxo. Te preciso mesmo sem precisar, pois me deixo embalar no ritmo do seu timbre. Menina, decorei cada pífio trejeito teu e, amando, tatuei na pele minha. Te preciso.

Mas você me recobre da sua insistência de não chegar. Não estar. E numa insustentável tentativa de enlaçar meus afetos aos teus, eu me dilacero, morro caindo no precipício de mim mesma. E sempre antes de atingir o chão, e perceber-me sozinha nisso que chama-se Nós, eu repito tola e inutilmente Eu estou aqui. Estou aqui. Estou aqui. Três vezes, quase uma simpatia, quase uma súplica doce para que, quem sabe, você me note e me queria mais só que nas suas espaçadas vontades de mim.

Mas somente eu estou. Na casa que fica grande demais em meio à minha solidão, você a ocupa só com o seu não estar. E isso que deveria ser amor é tão somente uma cena repetida um milhão de vezes e em nenhuma delas você permanece em mim.

É preciso coragem, menina. Uma coragem danada pra ir embora. Logo eu que mal sei te pronunciar meus afetos por medo de te ser muito, de exagerar minha presença, também não me desvincilho de ti, não tiro suas memórias dos bolsos, não parto dessa casa. Não sei abandonar seus olhos calmos.

Morro uma centena de vezes em cada silêncio seguido da certeza de que continuo sendo por dois. E ainda assim aceito. Não vou embora e te admito em cada retorno. Não abandono a casa e mesmo que cruel, permaneço tingindo em solitude com cem tons diferentes meu afeto.  Continuo pintando até a folha rasgar, o lápis quebrar, até minha alma ferir incurável. Só assim, talvez, eu mate em mim esse ser por dois e que deveria ser em dois.

Mas não suporto as feridas suas. Não suporto a dor em ti. Então me recubro de você, me escoro em suas histórias e vontades, me cubro da essência tua e aceito cada dor e cada medo, só para que não haja dor e medo em ti. Tomo tuas vontades para que elas sejam minhas também, mesmo que morrendo por cada uma delas serem opostas aos desejos meus.

Por fim, pequena, eu repito todos os dias que não há em mim coragem de ser nada além disso, desse sórdido eu que apenas se equilibra entre o medo do excesso e da ausência. Me tornei alguém que existe tão somente pra sustentar o afeto mudo. Sempre há alguém a romper o sentimento pela morte constante de si próprio, quem dera não fosse eu.

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