Sobram fins de tarde e buracos incuráveis n’alma

O reflexo me é uma fotografia incômoda. Me olho e quase não me reconheço nesse espelho um tanto sujo. Na verdade a dor que me dói e dilacera e faz sangrar é que, porra, eu me reconheço sim. Sou eu, nesse reflexo turvo e borrado, esse corpo que diz ser eu e sou, mas não deveria.

O que o tempo destrói em nós não reflete nesses espelhos. O que o tempo constrói também não. Mas as imagens refletidas são também construídas pelos olhos de quem as vê.

Sabe, eu poderia dizer um sem fim de amarguras tatuadas em minha pele, e diria muitas mais melodias que entristecem meus olhos e sujam esses reflexo. Mas hoje foi um dia pesado demais.

Me peguei presa em suas fotografias. Me peguei sorrindo pelas memórias que já me foram alegrias eufóricas, depois tornaram-se dores ferozes e cruéis, e agora são pequenos espaços que, por vezes, me retomam em subtas lembranças, ainda alegres e doloridas. Uma mistura incerta de passados e sentimentos. Mas eu sorri. Me apertou o peito, então eu chorei. Porque nossas fotos ainda preenchem espaços, lembranças, ainda culminam sentimentos e dores e dias que me foram seguros. Foram. Você me foi um porto, uma estadia, ainda que cheia de constantes surpresas. Você me foi uma brisa leve e um vendaval indomável. Você me foi. E se foi também.

Como há de ser. Tudo é um processo de chegar, criar raízes e despedie-se. Ficou o quanto devia, podia ou. Ficou pelo tempo que te foi preciso. Enquanto te fui precisa.

Essas imagens que agora me compõe um misto de saudades e ojeriza, um soco no estômago e uma lembrança amena, me refletem um outro eu que não sei pra onde foi, como e nem por que foi. Não sei o que restou de mim daqueles dias seguros e calmos e amáveis. Meus dias eram doces.

Agora os espaços se compõe de novos corpos e novas almas e novas essências que prometem preencher-me dessa segurança e euforia, mas eu guardei minha coragem num bolso tão fundo que sequer me arrisco a procura-la. Guardei minhas vontades de apresentar-me vulnerável e atirar-me nesse sem fim de incertezas, de um modo que não sei se quero reaprender a sentir. E se quero, não sei se posso ou se estou pronta. Deixar que outro te invada é um processo doloroso. Amar nada tem de doce ou bonito. Pois os amores são processos longos e sórdidos de deixar-se roubar. Deixar que um outro alguém te roube de ti sem garantia alguma que te devolve, ou que se doará também. E a gente nunca volta intacta. Nunca volta. Porra, a gente deixa a porta de casa aberta, depois entrega as chaves, o corpo e a essência. A gente vai se entregando como se em cada doar-se não houvesse um abismo de medo e corrosão dilacerando cada fragmento da nossa alma.

Amar é um modo de morrer e continuar respirando. Morrer e continuar aceitando a dor, como quem se deixa queimar apenas pela beleza da chama. Amar, por fim, é aceitar que a solidão também é sentida a dois. E depois sobram dores, cicatrizes e fotos. Sobram fins de tarde e buracos incuráveis n’alma. Sobram reflexos turvos de um alguém que pouco se parece com a alegria dividida nas velhas memórias. Uma chama corroendo com esplendor a beleza de nossos reflexos já manchados.

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