pedaços de amor e cigarros entre os dedos

É bom ter um lugar para voltar. É o que dizem. Mas para voltar é preciso, ao menos às vezes, partir. Então torna-se acolhedor voltar. Os cheiros mesmos, as luzes foscas, a paisagem inebriante. É bom voltar e saber em quais gavetas se escondem os cigarros, em qual porta adormecem os antigos fantasmas. É bom voltar.

Mas para isso, ao menos uma vez, é preciso partir. É o que dizem.

As pessoas estão sempre partindo. Não é uma sentença triste, é a verdade. Meus amores todos, dos que me teceram o corpo ou a alma – pois nunca os dois-, partiram. Dos que sequer me prometeram estadias longas ou mesmo os que não tinham a pretensão de romper caminhos.

As pessoas estão sempre partindo. Às vezes elas voltam. Eu, como não tenho lugar para voltar, nunca parto. Estou sempre debruçada nesse velho caminho sem novidades. Sei exatamente onde ficam os fantasmas e os cigarros, e nunca abandonei o barco. Fico a esmo,  recebendo quem chega e, ao velho costume dessa vida sórdida, me despedindo. Será que as pessoas sabem para onde vão quando partem? Porra, para onde vai tanta vida e tanto corpo e tanta alma?

E eu passaria todos os meus dias ouvindo suas histórias de chegada e partida, e te ouviria por mais um sem fim de vidas se você pudesse não me partir.

Mas te peço sabendo que nada me adianta pedir. As pessoas estão sempre partindo pra algum lugar que não me foi confessado. Elas sabem de alguma coisa que não pude ou não quis descobrir. Pra onde vão vocês com meus pedaços de amor e cigarros entre os dedos?

Tudo bem. Todos têm que partir. Não é uma frase triste. É uma constatação amena e bucólica. Quando os cigarros acabam e todas as gavetas são revistadas e todas as solidões são expostas, o amor sobreviveu e mesmo assim haverá a hora de se partir. O que te faz voltar quando sai comprar cigarros?

Pelas palavras sem caligrafia

O relógio da parede não funciona e já não me importo. Há tempos parei de me dar conta das horas que estou aqui. Esse relógio – vezes lento, vezes ligeiro – passava dolorido desde que me escorei nessa mesa para te caligrafar. Por deus, confesso que têm seu perfume os fantasmas que me pesam o peito e anseiam por te escrever. E escrevo porque não me atrevo a falar e romper qualquer coisa boa e fina e lúgubre que nos envolva.

Eu tentei te escrever no momento exato em que a tristeza e a saudade me invadiram. Aquele sutil momento em que, no meio de uma risada solta, as memórias te tomam como um sopro frio. E deus há de saber como é dolorido o tropeço na tristeza em meio às banalidades. Pesa. Pesa de um jeito estranho, pois sua memória me vestiu como um casaco grande demais.

Quando a tristeza ainda é um cobertor largo, você não pode evitá-lo, não pode e não sabe como esconder. Mas eis que as memórias vão tornando-se mais vagas, mais espaçadas. Então, num dia desses, em meio as quase alegrias banais, as memórias te sopram, te vestem. E você sem lembrar ao certo como era antes delas, e desacostumado ao cobertor pesado, se veste numa resignação do não estar.

Mas eu seria injusta, corrompendo sua memória. Eu poderia te dizer que em cada timbre meu ecoa um sem fim de ausências tuas. E que tenho tentado me ocupar e preencher para que seus vãos em mim doam menos. Deveria escrever que o vazio dessa folha não há de ser comparado ao vazio meu. E eu, logo eu que nunca sou fiel aos meus bolsos pesados de dores, não sei o que fazer com a sua nao-presença. Tento ser cordial, tento ser o timbre doce que tu haverá de carregar por dias sem fim depois de mim. Depois de mim – as palavras desaguam em minha alma e ferem.

Mas ficaria tanto por dizer e tanto que não sei se posso ou devo dizer. Pelo medo e pelo incerto de ser uma confissão maior do que você saberá ler. Ou, ainda, uma confissão que eu sagazmente saberei lidar depois de enunciada. Pois sei, porra, sei cada timbre de afetos meus por ti que ritmam em mim e trançam minhas pernas e ocupam meus dedos sem anéis.

Agora que me dou conta da falta do relógio – que assim como você, esteve aqui, mas me fez atravessar esse tempo num ritmo diferente, sem a vontade ou a necessidade de vê-lo passar -, e agora que meu café esfriou, meu cigarro descansa sem brasa, e meu peito suspira aliviado por eu saber como te escrevo – já que não há mais tempo, nem cigarros e cafés, não há mais você.

Procurei um sentimento que te traduzisse. Procurei estar presente, mesmo quando eu mesma fugia de mim e de tu e de nós. Procurei não romper essa bolha fina que segurou minhas dores e afetos todos por ti. Mas deve haver  um nome para aquele exato momento que você sente a paz em meio ao caos. É isso que te escrevo: carregarei por quantas vidas hei de me caber a paz e o caos que tu me causou, e nesse instante eu confesso em ti e em mim que te procuro ainda em cada tilintar. A bolha fina se rompeu, mesmo num frenético ritmo de medos e saudades, meus afetos serão sempre tingidos com a paz que tu me trouxe.

Se puder, e deus queria que tu possa, me ter em meio aos seus risos frouxos e rotinas amenas, eu enfim saberei que te fui tudo que pude. Pois é assim que te tenho agora: você me invade nas banalidades e eu lembro que seria bom dividir minhas letras contigo.

Falsa simetria

18 lágrimas escorreram rápida e pesadamente até eu suspirar. No meio de um choro sofrido, mas que há dias anda me acompanhando e pesando o peito e doendo a alma, de subto uma agonia se instalou eu mim. Entre minhas dores notei uma coisa banal, mas que em meio àquela tristeza me soou desmedida e sordidamente injusta: eu tinha as suas mãos. Porra, são cópias exatas e cruéis de suas mãos. Quem me conhece sabe que odeio a continuidade de meus braços. Odeio cada dedo roliço e levemente torto. Odeio o formato, os toques, numa aversão incômoda. Por deus, minhas mãos são cópias exatas das suas. E talvez seja por isso que eu as odeie tanto. Pelo modo igual que te alimento desafetos.

Não que eu tenha motivos, além dos estéticos, para detestá-la, mas por serem partes visíveis que me relembram que sou um pedaço seu também, eu me esboço em desafetos e ojerizas. Eu que tanto me esforço pra distanciar-me de tudo que me liga a ti, que me rememora a ti, de tudo que de algum modo me berra que nenhum esconderijo há de apagar nossos laços. Agora minhas mãos me deixam claro que sou cada vez mais você. Numa triste agonia.

Ja não sei, e temo saber, se me impregno de desamor a mim por ser uma extensão ridícula sua, copiando seus tracejos e tropeços, ou se sou cada dia mais uma cópia sofrível da sua vivência por me alimentar de desafeto. Quase que num flagelo, numa auto punição.

Detesto suas palavras falsas e seu amor sufocante. Detesto seu toques vazios e sua necessidade de me bordar flores mortas. Eu posso sentir meu amor emergir e morrer em seus segundos, antes mesmo de eu saber que é amor. E sinto cada pétala jogada ao chão fenecer em meus desprezos disfarçados de cuidado. Eu sinto o gatilho do meu quase amor se ativar, eu sinto uma eufórica necessidade de te provar amor. Eu sou boa, eu sou boa o bastante. Eu sou?

Eu quase sinto meu corpo de enunciar afeto, mas eis que sua imagem me fere a visão como uma lança cega, me rasga o corpo e mancha de um vermelho veludo todo o chão branco. Não há amor nessa sala. Não há capacidade de ser afeto. Não há vida que  resista. Em três passos eu senti uma vida de desprezo. Não posso, ou não sei ser capaz das partidas e abandonos. Então continuo aceitando seus atos agoistas. Me prendo à dor para que a sua essência sofra menos, ainda que isso seja toda a morte que há em mim.

Minhas mãos são a cópia fiel das suas. Minhas dores são alimentadas pelas suas. Minhas janelas fechadas são molduras de quadros que tu pintaras: uma falsa simetria de liberdade. Minha asfixia em tons cinzas.

.fim

Mando essa carta pra lugar algum, numa sôfrega esperança de que alguém – um alguém – me veja, me leia, me salve.

São 3 da manhã e meu último cigarro se esfalece em brasa no cinzeiro. São 3 da manhã e eu ainda faço poesia ruim com tudo que me mata.

Não há cigarros que me acalmem, bebidas amargas ou cafés que me ocupem as mãos. Há tempos nada mais me ocupa. Me distrai. Me submerge em mim.

São 3 da manhã, porra. E meu vazio destroçou meu peito, minha faísca apagou junto ao cinzeiro e o rádio não toca mais nada. Nenhuma literatura, nenhum sentido.

Idolatrei seis mortes em mim e nenhuma foi capaz de me levar. Agora me debruço no que restou desse meu eu insólito depois da euforia, da paz, do desejo. Me debruço no que restou dos meus sonhos, meu futuro, dos toques que agora não mais tocam, nem tecem sentido algum.

São 3 da porra dessa manhã, e ninguém aqui ao lado. Lá fora todos dormem e ninguém me resgatou. Mas dizem que depois da meia noite os sentidos são carreiras vazias dentro da gaveta: uma ilusão e nenhuma calmaria.

Eu pedi socorro em três timbres mudos.
Eu pedi socorro sete
vezes naquela noite e ninguém
ouviu.

“Tudo bem” eu pensei
“Tudo bem”
Tudo bem.

 

Ninguém tem ouvido muito.
Passos apertados e
as janelas fechadas e
os empregos desgostosos.
Ninguém se importa . eu também
não.

 

Mas eu não os culpo, agora eu trago cada abandono junto ao peito.
Eu trago como cigarros amargos
Tudo bem, estamos todos um tanto
mortos

 

Tudo bem, estamos só tentando salvar qualquer coisa nossa
Tudo bem… Ninguém vai
ouvir. [Eu tambem nao ouviria

É só um poema sujo numa noite vazia.

Posso ver a tristeza no movimento lento das nuvens e meu coração sangrou seis vezes

Porque eu fiquei aqui. Nesse exato local, presa entre minhas certezas e o desmanchar de todas elas. Então pela décima vez hoje eu me sento diante a janela em que você se escorava, eu tento achar vestígios seus nesse canto escuro da sala, eu tento afagar minha alma com memórias que me matam. Mas só resta a chuva ecoando lá fora e dentro de mim. Mais do que o barulho constante das gotas, é um misto de paz e agonia o romper desse abismo silencioso em mim. Como explico que o silêncio é estranhamente incômodo, e que viver aqui, nessa casa, nesse eu, tem sido uma dor crua, dura. Um afincar-me cada vez mais denso, cada vez mais sórdido. E lá fora chove. Ou aqui dentro, já não sei mais. A sua janela continua aberta e as gotas que vêm de fora me respingam, me tracejam o rosto, as gotas me molham e não me movo. Não fecho as janelas, não baixo as persianas. Deixo que a chuva se empoce, pouco a pouco entre meus pés, deixo que as gotas se misturem às pequenas lágrimas pingadas ao chão. Um chão frio, duro e mal acabado da indiferença. Posso ver o dia nascer e morrer diante dessa janela e eu resisto à vida, ao mundo. Posso ver a tristeza no movimento lento das nuvens e meu coração sangrou seis vezes.
Não, por deus, não te culpo. Não há culpas e receios. Não há erros. A vida é um constante ato de se despedir. Sou eu, porra, sou eu que continuo ficando. Permanecendo estática e inerte nessa vida. Sou eu que permaneço me escorando em lembranças quase apagadas pelo tempo, permaneço buscando perfumes que já não mais exalam, e flores que não mais desabrocham, e presenças que não mais estão. Sou sempre eu que continuo tola e desprezivelmente me mantendo nesses lugares mesmos. Nessa porra de casa que carregou poucas vidas alheias, mas com uma intensidade assustadora, numa veemência exaurante que as paredes ainda hão de  carregar tracejos de almas e lembranças que agora me sao inóspitas. Mas repito, não há ressentimento contigo. Suas despedidas são partes graduais e necessárias da vida. Você me chegou e numa estadia serene me bordou o corpo e a alma. O mais fundo do meu eu, meu cerne tingido em tons vívidos e vibrantes, agora se respalda em um sépia manchado.

Mesmo quando o amor rompeu o silêncio, quando não me confessei, mesmo quando meus pecados mudos me fecharam os olhos, eu amei. Amei bem mais a ti, porque é esse o alimento do meu eu. Um sem fim de dias encarcerada em mim, prisioneira de mim na mais absoluta ojeriza alheia. Eis que enfim o corpo alheio me enlaça. E nessa raras conexões onde os afetos são recíprocos, eu me abandono. Eu mudo de essência, e passo a habitar o mais consumível e dilecerável amor. Nada em mim é outra coisa senão meu afeto. Porra, o amor me cansa porque ele me suga, me exaure, me toma todas as forças e, por fim, me abandona. Eu amo cada riso, gesto e cor tua. Eu amo cada defeito, cada mania que me machuca, cada palavra que não me salva. Amo suas vindas em meio à semana, e amo cada agonia da sua voz. Ainda que haja a certeza de outros afetos e outros corpos e outras almas em tua vida, e ainda que isso me dilacere e torne minhas noites longas agonias, ainda não sou capaz de não amar. Ainda que me mate, fira, ainda que destroce meu eu num sem fim de pedaços, cada fragmento meu espalhado pelo chão é um ato absurdo de amor.
E agora que me confesso pro seu vazio, pro seu não mais estar aqui, eu continuo amando a dor que tu me causa. Pois te admito, te preciso e, mais do que manter laços, preciso do abandono. O processo de despedida é onde enfim morro para, quem sabe, eu me reabitar. Tu precisa me deixar escorada nas lembranças tuas para que essa chuva me lave de ti. Espero que o frio da água me limpe de cada vestígio teu e assim, e tão somente assim, eu me recupere, me reabite, me retorne.
Eu adoto suas manias, me adapto ao seu timbre, eu ajusto minhas medidas, eu decoro e esboço suas cores. Eu me perco e já não sei quem sou.
Então tudo bem, eu digo. Eu repito uma centena de vezes para me fazer acreditar. Vai passar, vai passar, assim como já passou outras vezes. O abandono me obriga a reocupar a casa comigo. Eu volto, eu reorganizo, eu trago as malas de volta na esperança de ainda lembrar quem sou, ainda saber. Deus queira que eu ainda seja.
Eu vou respirar, porque agora a chuva se emaranhou com minhas lágrimas empoçadas. A chuva gelou minha pele e quase sinto frio. Quase sinto alguma coisa que não sua ausência. Suas lembranças já não me comportam confortavelmente. Chove lá fora e aqui dentro. Mas tudo bem. Tudo bem. Ninguém vai me ver chorar enquanto chover. O vazio é um sentimento amigável.

Buk, poemas e cigarros

Odeio poemas. Odeio pela minha incapacidade de tomar ritmo. Pela minha ânsia de adquirir rotina entre as linhas.

Poemas começam sem sentido e, no auge da sua compreensão, eles se rompem. Acabam. Um fim certo que virá na próxima linha. Duas ou três, mas não mais do que isso.

Eis que são 3 da tarde de uma quarta feira e meu peito estraçalha-se entre poemas sujos de um velho bêbado. Bukowski falou de amor em 50 páginas diferentes, todas de modo cru, feio, vulgar. Falou de amor bêbado, fumando 24 cigarros e vomitando entre as meias e os batons esquecidos de mulheres que amou. Bukowski nunca enganou, romantizou ou decorou suas linhas. Falou de modo duro e grotesco. Falou de amor. E nenhuma das suas páginas soa pesada e má e feia.

Li 5o poemas de bukowski e em meio ao cigarros dele e os meus, e a cerveja dele e a minha, e entre o blue bird dele e o meu que eu, incansável, tento calar em meu peito, eu continuo morrendo da dor dele.

Ninguém escreveu poemas sujos com tanta dor. E Buk falou da dor com afinco e peso e. Oitenta tons de amor misturados às manchas de vinho ruim. Oitenta linhas que se misturam em meus cigarros e.

Buk é uma boa companhia em tardes de agonia.

Sua cerveja e seus cigarros e seu vinho ruim. Seu modo de maldizer o amor.

São 3 da tarde e meu último cigarro significa que não posso mais ler poemas, meu velho.

Eutimia

Te escrevo na esperança de quem escreve como uma salvação. Você, porra, você que mesmo sem saber e, por deus, sem sequer desconfiar, me salvou um sem fim de vezes, me segurou pelas mãos e braços e me manteve um pouco mais segura, um pouco mais sã, um pouco mais. Me manteve. E se eu pudesse dizer que tu me salvou de mim, e naqueles dias amargos em que o mundo me foi cruel foi sua lembrança e sua presença que me asseguraram mais um tempo de estadia. Ainda que áspera e crua, ainda que sofrida e me dilacerando a alma, me mantive aqui por ti.

Não, não que eu acreditasse que minha insistência valeria nesse mundo de ojerizas e mazelas. Mas ouvir por mais um dia seu timbre rouco me assossegou aqui. Me fez engolir o medo e a dor de permanecer viva. E fiquei. Deus, fiquei só porque seus ensejos e sua silhueta contra a luz me traziam mais calma do que todos os fantasmas e todos os receios e toda a dor que me consomem dia após dia.

Você não sabe o quanto me doem as noites amargas, e sequer desconfia que meus risos forçados são tentativas de apaziguar esses monstros que dormem ao lado meu. Esses, que antes se escondiam nos armários e debaixo da cama, agora se agarram aos meus pulsos em plena luz do dia. Monstros que me tiram o sono, a eutimia, me abracam pela beirada da cama e me impedem de sentir qualquer coisa que não medo. Um vazio agudo e uma insistente permanência no limbo, no temor sobrejacente, no quase morrer. Mentira, no morrer em sua máxima instância. Na avidez de morrer e permanecer insólita e inexoravelmente respirando num corpo decomposto pela necessidade de sentir.

Mas, por deus, eu te admito de longe para que você não se vá, não se assuste. Te olho de relance para que não me note e eu não seja uma presença incômoda. Para que assim, e talvez apenas assim, você não me abandone. Ainda que não esteja de fato em mim, o seu quase estar ainda me salva da asfixia de mim. Eu persisto te olhando pela paz que tu me causa. Te olho pelos ensejos e pela sensação de quase vida que me suscita. Quase vivo. Te olho como quem agradece pelos segundos em que vivi, pelo coração que bateu. Te olho pelo sangue que pulsou e por fim te agradeço pela estadia.

Me despeço em palavras para que minha voz não atrapalhe a voz tua, não rompa a tua fala. Nem meus movimentos dispersem os olhos teus. E se minhas dores e lágrimas e medo agora me consomem, saiba que cada segundo de vida me valeu apenas pela ávida sensação de te viver. Se fui, por deus, se eu pude ser pra ti um terço do peso de uma lágrima minha, eu te fui muito. Eu te fui tudo que acho poder ser. Mal sei minha capacidade de ser algo mais do que esse bloco turvo e vago num mundo melindre, mas você me foi tudo e todos. Me foi o dia e a noite. Me foi bem querer em pétalas incontáveis. Me foi as mais belas flores do um jardim que sequer eu sabia cultivar. Me foi a agonia e a paz. E só eu sei o quão mais a paz. Mas ainda assim me foi a agonia que eu abraçaria todos os dias, a insônia que eu admiti com riso frouxo. Você me foi a calmaria dos dias, a vontade de viver um pouco mais.

Agora te escrevo e deixo minhas letras corridas em cima da mesa, no sofá ou na cama. Pouco importa. Não quero que me leia pois não quero me encerrar em ti. Não quero que minhas letras tortas sejam meu ponto final em ti. Não quero que minha dor e meus monstros internos sejam as memórias últimas. Quero que me guarde como alguém que te sorriu e entregou os toques todos, num combinar ressonante da tez branca e a alma leve. Quero que me leve no bolso e no peito, ser afagos e um bom lembrete na sua alma.

Mas caso retorne nesta casa, de certo esse bilhete te espera repousado em algum canto da casa que, espero, ainda ressoe nossos tilintares. Então te digo que nada te tire o enlevo, que minha ausência não te tire o encanto que um dia eu fora. E se me lê, que eu ainda seja quem um dia te fora uma boa companhia.

A vida me pesou, e os dias há muito me doíam. E se resisti foi porque sua paz me era tamanha que nenhum vento foi capaz de me abalar entre os braços e abraços teus. Seja como for, estou te emanando pétalas doces, amor e bem querer. Estou, aonde quer que eu esteja, te emanando todos os sentimentos bons e afáveis que te senti e hei de te ser grata. Meus monstros adormeceram enquanto seus olhos me protegeram do mundo, de mim. Mas a vida me pesou e te digo que minhas forças se esgotaram. Não houve mais sossego. Te entrego então toda minha paz e voz. Te entrego meus dias bons, minhas noites alegres. Te entrego tudo de doce que fui e agradeço pela estadia. Obrigada por me sorrir mesmo quando em mim tudo era caos e breu. Lembra de mim sorrindo pois cada riso meu foi pra ti. Por ti.

lanças cegas cada vez mais fundas

A água quente me espanta o sono, me marca a pele. A água quente demais avermelha e faz arder o que, por fora, já não sinto, mas por dentro é constante. A dor que me recobre internamente é uma lança quase sem ponta afincada no meu peito. Um peso cada dia mais árduo, mais fundo, mais denso. Uma lança cega e pesada que afunda sem pudor em minhas carnes, vísceras e alma. Um cerne que já não sangra pois não há vermelho que esboce o sofrer que tem escorrido d’alma.

A água quente escorre e queima minha pele. Mas não me movo, não me incomodo. Aliás, quase sinto um alívio em saber que algo além dessa ferida interna me machuca. Saber sentir ainda me salva do completo estopor de não mais saber o que sou. E já não sei. Não sei o que faço se alguém me tira a lança que me atravessa o corpo e o âmago. Então essa estaca cega fica cada vez mais funda e pesada no peito. Já não sei o que faço, nem quem sou se a última gota de sangue vermelho-vinho me escorre e, assim como essa água quente demais me lava a maquiagem, o sangue me lava da dor.

Mas ainda digo que me mantenho alimentando um falso e vago bem querer. Te querer. Abro mão de minha pele intacta, meu coração pulsante. Me aceito e te recebo com um sem fim de lanças cegas me atravessando o peito.

Me mantenho em portas fechadas para que essas pontas por vezes afiadas, por vezes cegas e maldosas, não me rocem a pele, não me risquem a alma. Mas quando por fim me atingem, eu as admito, as adoto, as tomo num machucar-me para saber que ainda sinto. Que ainda mereço e sou digna e sou justa de sentir e receber afeto. Ainda que um afeto miúdo e divergente do que humanamente enganada eu desejo. Abro mão de meus eus, meus espaços intactos se inundam de meus objetos de desejo e, então, não sobra nada mais em mim. Não me sobro. Vou me tornando o reflexo exato de quem desejo. Vou me tornando uma figura crua e montada para ser a felicidade alheia, nunca a minha.

Então eu morro. Vou morrendo por dias constantes. Morro em três estágios e cada um deles se alimenta da minha dor. Morro na solidão por não saber segurar o afeto. Afeto que me escorre entre os dedos, me assusta, corrói, destroça e espalha no chão da sala meu peito em cacos incoláveis. Morro na companhia de meus afetos por me perder de mim. Por me deixar transformar nesse contorno alheio, nunca o meu. Morro, por fim, na companhia minha. Ou ausência minha. Me desloco de mim, me sobro e guardo num canto escuro, deixando que todos os planos e ideais alheios esperam. Me transbordo de um precisar ser tão ávido e cruel que me dói e fere e derrete os olhos meus.

Então o desassossego me borda a pele, a alma. Então as lanças cegas ficam cada vez mais fundas e fazem um espaço largo e vago e oco em meu peito. Confundi com dor, mas é ausência. E, porra, a ausência dói. Não soube me bastar, então vou me consumindo e construindo guiada pelos desejos de meus afetos.

Te desejo tanto que esqueço de mim, de meus anseios passados. Esqueço só que neguei e consenti, esqueço do que falei e pelo que Fechei os olhos. Pisco tão somente para aliviar o ressecar de meus olhos. Não sonho mais. Do mesmo modo cruel que apenas abro os olhos para garantir que ainda posso ver quem me doo em amor. Pois de mim é amor. Do puro e cruel sentimento de não saber e não poder e não querer ser nada mais longe de quem amo. Ao tempo que me desmancho e me aceito muda por não ser ninguém mais além da expectativa alheia.

Uma súplica dolorida: sou tudo que tu me esperas que seja só para que, talvez, eu possa ser qualquer coisa que não eu mesma. Quem sou eu pouco importa, contanto que eu seja alguém que você veja. Eu sou. Eu sou. Eu sou?