lanças cegas cada vez mais fundas

A água quente me espanta o sono, me marca a pele. A água quente demais avermelha e faz arder o que, por fora, já não sinto, mas por dentro é constante. A dor que me recobre internamente é uma lança quase sem ponta afincada no meu peito. Um peso cada dia mais árduo, mais fundo, mais denso. Uma lança cega e pesada que afunda sem pudor em minhas carnes, vísceras e alma. Um cerne que já não sangra pois não há vermelho que esboce o sofrer que tem escorrido d’alma.

A água quente escorre e queima minha pele. Mas não me movo, não me incomodo. Aliás, quase sinto um alívio em saber que algo além dessa ferida interna me machuca. Saber sentir ainda me salva do completo estopor de não mais saber o que sou. E já não sei. Não sei o que faço se alguém me tira a lança que me atravessa o corpo e o âmago. Então essa estaca cega fica cada vez mais funda e pesada no peito. Já não sei o que faço, nem quem sou se a última gota de sangue vermelho-vinho me escorre e, assim como essa água quente demais me lava a maquiagem, o sangue me lava da dor.

Mas ainda digo que me mantenho alimentando um falso e vago bem querer. Te querer. Abro mão de minha pele intacta, meu coração pulsante. Me aceito e te recebo com um sem fim de lanças cegas me atravessando o peito.

Me mantenho em portas fechadas para que essas pontas por vezes afiadas, por vezes cegas e maldosas, não me rocem a pele, não me risquem a alma. Mas quando por fim me atingem, eu as admito, as adoto, as tomo num machucar-me para saber que ainda sinto. Que ainda mereço e sou digna e sou justa de sentir e receber afeto. Ainda que um afeto miúdo e divergente do que humanamente enganada eu desejo. Abro mão de meus eus, meus espaços intactos se inundam de meus objetos de desejo e, então, não sobra nada mais em mim. Não me sobro. Vou me tornando o reflexo exato de quem desejo. Vou me tornando uma figura crua e montada para ser a felicidade alheia, nunca a minha.

Então eu morro. Vou morrendo por dias constantes. Morro em três estágios e cada um deles se alimenta da minha dor. Morro na solidão por não saber segurar o afeto. Afeto que me escorre entre os dedos, me assusta, corrói, destroça e espalha no chão da sala meu peito em cacos incoláveis. Morro na companhia de meus afetos por me perder de mim. Por me deixar transformar nesse contorno alheio, nunca o meu. Morro, por fim, na companhia minha. Ou ausência minha. Me desloco de mim, me sobro e guardo num canto escuro, deixando que todos os planos e ideais alheios esperam. Me transbordo de um precisar ser tão ávido e cruel que me dói e fere e derrete os olhos meus.

Então o desassossego me borda a pele, a alma. Então as lanças cegas ficam cada vez mais fundas e fazem um espaço largo e vago e oco em meu peito. Confundi com dor, mas é ausência. E, porra, a ausência dói. Não soube me bastar, então vou me consumindo e construindo guiada pelos desejos de meus afetos.

Te desejo tanto que esqueço de mim, de meus anseios passados. Esqueço só que neguei e consenti, esqueço do que falei e pelo que Fechei os olhos. Pisco tão somente para aliviar o ressecar de meus olhos. Não sonho mais. Do mesmo modo cruel que apenas abro os olhos para garantir que ainda posso ver quem me doo em amor. Pois de mim é amor. Do puro e cruel sentimento de não saber e não poder e não querer ser nada mais longe de quem amo. Ao tempo que me desmancho e me aceito muda por não ser ninguém mais além da expectativa alheia.

Uma súplica dolorida: sou tudo que tu me esperas que seja só para que, talvez, eu possa ser qualquer coisa que não eu mesma. Quem sou eu pouco importa, contanto que eu seja alguém que você veja. Eu sou. Eu sou. Eu sou?

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