Eutimia

Te escrevo na esperança de quem escreve como uma salvação. Você, porra, você que mesmo sem saber e, por deus, sem sequer desconfiar, me salvou um sem fim de vezes, me segurou pelas mãos e braços e me manteve um pouco mais segura, um pouco mais sã, um pouco mais. Me manteve. E se eu pudesse dizer que tu me salvou de mim, e naqueles dias amargos em que o mundo me foi cruel foi sua lembrança e sua presença que me asseguraram mais um tempo de estadia. Ainda que áspera e crua, ainda que sofrida e me dilacerando a alma, me mantive aqui por ti.

Não, não que eu acreditasse que minha insistência valeria nesse mundo de ojerizas e mazelas. Mas ouvir por mais um dia seu timbre rouco me assossegou aqui. Me fez engolir o medo e a dor de permanecer viva. E fiquei. Deus, fiquei só porque seus ensejos e sua silhueta contra a luz me traziam mais calma do que todos os fantasmas e todos os receios e toda a dor que me consomem dia após dia.

Você não sabe o quanto me doem as noites amargas, e sequer desconfia que meus risos forçados são tentativas de apaziguar esses monstros que dormem ao lado meu. Esses, que antes se escondiam nos armários e debaixo da cama, agora se agarram aos meus pulsos em plena luz do dia. Monstros que me tiram o sono, a eutimia, me abracam pela beirada da cama e me impedem de sentir qualquer coisa que não medo. Um vazio agudo e uma insistente permanência no limbo, no temor sobrejacente, no quase morrer. Mentira, no morrer em sua máxima instância. Na avidez de morrer e permanecer insólita e inexoravelmente respirando num corpo decomposto pela necessidade de sentir.

Mas, por deus, eu te admito de longe para que você não se vá, não se assuste. Te olho de relance para que não me note e eu não seja uma presença incômoda. Para que assim, e talvez apenas assim, você não me abandone. Ainda que não esteja de fato em mim, o seu quase estar ainda me salva da asfixia de mim. Eu persisto te olhando pela paz que tu me causa. Te olho pelos ensejos e pela sensação de quase vida que me suscita. Quase vivo. Te olho como quem agradece pelos segundos em que vivi, pelo coração que bateu. Te olho pelo sangue que pulsou e por fim te agradeço pela estadia.

Me despeço em palavras para que minha voz não atrapalhe a voz tua, não rompa a tua fala. Nem meus movimentos dispersem os olhos teus. E se minhas dores e lágrimas e medo agora me consomem, saiba que cada segundo de vida me valeu apenas pela ávida sensação de te viver. Se fui, por deus, se eu pude ser pra ti um terço do peso de uma lágrima minha, eu te fui muito. Eu te fui tudo que acho poder ser. Mal sei minha capacidade de ser algo mais do que esse bloco turvo e vago num mundo melindre, mas você me foi tudo e todos. Me foi o dia e a noite. Me foi bem querer em pétalas incontáveis. Me foi as mais belas flores do um jardim que sequer eu sabia cultivar. Me foi a agonia e a paz. E só eu sei o quão mais a paz. Mas ainda assim me foi a agonia que eu abraçaria todos os dias, a insônia que eu admiti com riso frouxo. Você me foi a calmaria dos dias, a vontade de viver um pouco mais.

Agora te escrevo e deixo minhas letras corridas em cima da mesa, no sofá ou na cama. Pouco importa. Não quero que me leia pois não quero me encerrar em ti. Não quero que minhas letras tortas sejam meu ponto final em ti. Não quero que minha dor e meus monstros internos sejam as memórias últimas. Quero que me guarde como alguém que te sorriu e entregou os toques todos, num combinar ressonante da tez branca e a alma leve. Quero que me leve no bolso e no peito, ser afagos e um bom lembrete na sua alma.

Mas caso retorne nesta casa, de certo esse bilhete te espera repousado em algum canto da casa que, espero, ainda ressoe nossos tilintares. Então te digo que nada te tire o enlevo, que minha ausência não te tire o encanto que um dia eu fora. E se me lê, que eu ainda seja quem um dia te fora uma boa companhia.

A vida me pesou, e os dias há muito me doíam. E se resisti foi porque sua paz me era tamanha que nenhum vento foi capaz de me abalar entre os braços e abraços teus. Seja como for, estou te emanando pétalas doces, amor e bem querer. Estou, aonde quer que eu esteja, te emanando todos os sentimentos bons e afáveis que te senti e hei de te ser grata. Meus monstros adormeceram enquanto seus olhos me protegeram do mundo, de mim. Mas a vida me pesou e te digo que minhas forças se esgotaram. Não houve mais sossego. Te entrego então toda minha paz e voz. Te entrego meus dias bons, minhas noites alegres. Te entrego tudo de doce que fui e agradeço pela estadia. Obrigada por me sorrir mesmo quando em mim tudo era caos e breu. Lembra de mim sorrindo pois cada riso meu foi pra ti. Por ti.

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2 comentários sobre “Eutimia

  1. Ana Luiza
    Faz tempo que não comento nada que escreves.Seus textos calam fundo e teria que permanentemente enaltecê-los(la).Porém esse último e em particular os quatro derradeiros parágrafos me tocaram de tal forma que me vejo na obrigação de parabenizá-la, pois você me deixou enredada aos meus sentimentos. PARABÉNS

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