Posso ver a tristeza no movimento lento das nuvens e meu coração sangrou seis vezes

Porque eu fiquei aqui. Nesse exato local, presa entre minhas certezas e o desmanchar de todas elas. Então pela décima vez hoje eu me sento diante a janela em que você se escorava, eu tento achar vestígios seus nesse canto escuro da sala, eu tento afagar minha alma com memórias que me matam. Mas só resta a chuva ecoando lá fora e dentro de mim. Mais do que o barulho constante das gotas, é um misto de paz e agonia o romper desse abismo silencioso em mim. Como explico que o silêncio é estranhamente incômodo, e que viver aqui, nessa casa, nesse eu, tem sido uma dor crua, dura. Um afincar-me cada vez mais denso, cada vez mais sórdido. E lá fora chove. Ou aqui dentro, já não sei mais. A sua janela continua aberta e as gotas que vêm de fora me respingam, me tracejam o rosto, as gotas me molham e não me movo. Não fecho as janelas, não baixo as persianas. Deixo que a chuva se empoce, pouco a pouco entre meus pés, deixo que as gotas se misturem às pequenas lágrimas pingadas ao chão. Um chão frio, duro e mal acabado da indiferença. Posso ver o dia nascer e morrer diante dessa janela e eu resisto à vida, ao mundo. Posso ver a tristeza no movimento lento das nuvens e meu coração sangrou seis vezes.
Não, por deus, não te culpo. Não há culpas e receios. Não há erros. A vida é um constante ato de se despedir. Sou eu, porra, sou eu que continuo ficando. Permanecendo estática e inerte nessa vida. Sou eu que permaneço me escorando em lembranças quase apagadas pelo tempo, permaneço buscando perfumes que já não mais exalam, e flores que não mais desabrocham, e presenças que não mais estão. Sou sempre eu que continuo tola e desprezivelmente me mantendo nesses lugares mesmos. Nessa porra de casa que carregou poucas vidas alheias, mas com uma intensidade assustadora, numa veemência exaurante que as paredes ainda hão de  carregar tracejos de almas e lembranças que agora me sao inóspitas. Mas repito, não há ressentimento contigo. Suas despedidas são partes graduais e necessárias da vida. Você me chegou e numa estadia serene me bordou o corpo e a alma. O mais fundo do meu eu, meu cerne tingido em tons vívidos e vibrantes, agora se respalda em um sépia manchado.

Mesmo quando o amor rompeu o silêncio, quando não me confessei, mesmo quando meus pecados mudos me fecharam os olhos, eu amei. Amei bem mais a ti, porque é esse o alimento do meu eu. Um sem fim de dias encarcerada em mim, prisioneira de mim na mais absoluta ojeriza alheia. Eis que enfim o corpo alheio me enlaça. E nessa raras conexões onde os afetos são recíprocos, eu me abandono. Eu mudo de essência, e passo a habitar o mais consumível e dilecerável amor. Nada em mim é outra coisa senão meu afeto. Porra, o amor me cansa porque ele me suga, me exaure, me toma todas as forças e, por fim, me abandona. Eu amo cada riso, gesto e cor tua. Eu amo cada defeito, cada mania que me machuca, cada palavra que não me salva. Amo suas vindas em meio à semana, e amo cada agonia da sua voz. Ainda que haja a certeza de outros afetos e outros corpos e outras almas em tua vida, e ainda que isso me dilacere e torne minhas noites longas agonias, ainda não sou capaz de não amar. Ainda que me mate, fira, ainda que destroce meu eu num sem fim de pedaços, cada fragmento meu espalhado pelo chão é um ato absurdo de amor.
E agora que me confesso pro seu vazio, pro seu não mais estar aqui, eu continuo amando a dor que tu me causa. Pois te admito, te preciso e, mais do que manter laços, preciso do abandono. O processo de despedida é onde enfim morro para, quem sabe, eu me reabitar. Tu precisa me deixar escorada nas lembranças tuas para que essa chuva me lave de ti. Espero que o frio da água me limpe de cada vestígio teu e assim, e tão somente assim, eu me recupere, me reabite, me retorne.
Eu adoto suas manias, me adapto ao seu timbre, eu ajusto minhas medidas, eu decoro e esboço suas cores. Eu me perco e já não sei quem sou.
Então tudo bem, eu digo. Eu repito uma centena de vezes para me fazer acreditar. Vai passar, vai passar, assim como já passou outras vezes. O abandono me obriga a reocupar a casa comigo. Eu volto, eu reorganizo, eu trago as malas de volta na esperança de ainda lembrar quem sou, ainda saber. Deus queira que eu ainda seja.
Eu vou respirar, porque agora a chuva se emaranhou com minhas lágrimas empoçadas. A chuva gelou minha pele e quase sinto frio. Quase sinto alguma coisa que não sua ausência. Suas lembranças já não me comportam confortavelmente. Chove lá fora e aqui dentro. Mas tudo bem. Tudo bem. Ninguém vai me ver chorar enquanto chover. O vazio é um sentimento amigável.

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