Falsa simetria

18 lágrimas escorreram rápida e pesadamente até eu suspirar. No meio de um choro sofrido, mas que há dias anda me acompanhando e pesando o peito e doendo a alma, de subto uma agonia se instalou eu mim. Entre minhas dores notei uma coisa banal, mas que em meio àquela tristeza me soou desmedida e sordidamente injusta: eu tinha as suas mãos. Porra, são cópias exatas e cruéis de suas mãos. Quem me conhece sabe que odeio a continuidade de meus braços. Odeio cada dedo roliço e levemente torto. Odeio o formato, os toques, numa aversão incômoda. Por deus, minhas mãos são cópias exatas das suas. E talvez seja por isso que eu as odeie tanto. Pelo modo igual que te alimento desafetos.

Não que eu tenha motivos, além dos estéticos, para detestá-la, mas por serem partes visíveis que me relembram que sou um pedaço seu também, eu me esboço em desafetos e ojerizas. Eu que tanto me esforço pra distanciar-me de tudo que me liga a ti, que me rememora a ti, de tudo que de algum modo me berra que nenhum esconderijo há de apagar nossos laços. Agora minhas mãos me deixam claro que sou cada vez mais você. Numa triste agonia.

Ja não sei, e temo saber, se me impregno de desamor a mim por ser uma extensão ridícula sua, copiando seus tracejos e tropeços, ou se sou cada dia mais uma cópia sofrível da sua vivência por me alimentar de desafeto. Quase que num flagelo, numa auto punição.

Detesto suas palavras falsas e seu amor sufocante. Detesto seu toques vazios e sua necessidade de me bordar flores mortas. Eu posso sentir meu amor emergir e morrer em seus segundos, antes mesmo de eu saber que é amor. E sinto cada pétala jogada ao chão fenecer em meus desprezos disfarçados de cuidado. Eu sinto o gatilho do meu quase amor se ativar, eu sinto uma eufórica necessidade de te provar amor. Eu sou boa, eu sou boa o bastante. Eu sou?

Eu quase sinto meu corpo de enunciar afeto, mas eis que sua imagem me fere a visão como uma lança cega, me rasga o corpo e mancha de um vermelho veludo todo o chão branco. Não há amor nessa sala. Não há capacidade de ser afeto. Não há vida que  resista. Em três passos eu senti uma vida de desprezo. Não posso, ou não sei ser capaz das partidas e abandonos. Então continuo aceitando seus atos agoistas. Me prendo à dor para que a sua essência sofra menos, ainda que isso seja toda a morte que há em mim.

Minhas mãos são a cópia fiel das suas. Minhas dores são alimentadas pelas suas. Minhas janelas fechadas são molduras de quadros que tu pintaras: uma falsa simetria de liberdade. Minha asfixia em tons cinzas.

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