Pelas palavras sem caligrafia

O relógio da parede não funciona e já não me importo. Há tempos parei de me dar conta das horas que estou aqui. Esse relógio – vezes lento, vezes ligeiro – passava dolorido desde que me escorei nessa mesa para te caligrafar. Por deus, confesso que têm seu perfume os fantasmas que me pesam o peito e anseiam por te escrever. E escrevo porque não me atrevo a falar e romper qualquer coisa boa e fina e lúgubre que nos envolva.

Eu tentei te escrever no momento exato em que a tristeza e a saudade me invadiram. Aquele sutil momento em que, no meio de uma risada solta, as memórias te tomam como um sopro frio. E deus há de saber como é dolorido o tropeço na tristeza em meio às banalidades. Pesa. Pesa de um jeito estranho, pois sua memória me vestiu como um casaco grande demais.

Quando a tristeza ainda é um cobertor largo, você não pode evitá-lo, não pode e não sabe como esconder. Mas eis que as memórias vão tornando-se mais vagas, mais espaçadas. Então, num dia desses, em meio as quase alegrias banais, as memórias te sopram, te vestem. E você sem lembrar ao certo como era antes delas, e desacostumado ao cobertor pesado, se veste numa resignação do não estar.

Mas eu seria injusta, corrompendo sua memória. Eu poderia te dizer que em cada timbre meu ecoa um sem fim de ausências tuas. E que tenho tentado me ocupar e preencher para que seus vãos em mim doam menos. Deveria escrever que o vazio dessa folha não há de ser comparado ao vazio meu. E eu, logo eu que nunca sou fiel aos meus bolsos pesados de dores, não sei o que fazer com a sua nao-presença. Tento ser cordial, tento ser o timbre doce que tu haverá de carregar por dias sem fim depois de mim. Depois de mim – as palavras desaguam em minha alma e ferem.

Mas ficaria tanto por dizer e tanto que não sei se posso ou devo dizer. Pelo medo e pelo incerto de ser uma confissão maior do que você saberá ler. Ou, ainda, uma confissão que eu sagazmente saberei lidar depois de enunciada. Pois sei, porra, sei cada timbre de afetos meus por ti que ritmam em mim e trançam minhas pernas e ocupam meus dedos sem anéis.

Agora que me dou conta da falta do relógio – que assim como você, esteve aqui, mas me fez atravessar esse tempo num ritmo diferente, sem a vontade ou a necessidade de vê-lo passar -, e agora que meu café esfriou, meu cigarro descansa sem brasa, e meu peito suspira aliviado por eu saber como te escrevo – já que não há mais tempo, nem cigarros e cafés, não há mais você.

Procurei um sentimento que te traduzisse. Procurei estar presente, mesmo quando eu mesma fugia de mim e de tu e de nós. Procurei não romper essa bolha fina que segurou minhas dores e afetos todos por ti. Mas deve haver  um nome para aquele exato momento que você sente a paz em meio ao caos. É isso que te escrevo: carregarei por quantas vidas hei de me caber a paz e o caos que tu me causou, e nesse instante eu confesso em ti e em mim que te procuro ainda em cada tilintar. A bolha fina se rompeu, mesmo num frenético ritmo de medos e saudades, meus afetos serão sempre tingidos com a paz que tu me trouxe.

Se puder, e deus queria que tu possa, me ter em meio aos seus risos frouxos e rotinas amenas, eu enfim saberei que te fui tudo que pude. Pois é assim que te tenho agora: você me invade nas banalidades e eu lembro que seria bom dividir minhas letras contigo.

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